Opinião: Precisamos estar preparados para um mundo do trabalho com mais automação

Tom Watson*

  • Yu Fangping/Xinhua

No romance de 1888 de Edward Bellamy "Looking Backward" ("Olhando para trás" em tradução livre, não lançado no Brasil), um jovem bostoniano acorda de um estado de animação suspensa no ano de 2000 e fica atordoado ao descobrir que as desigualdades de sua própria era foram banidas. Um Estados Unidos utópico do século 21 aboliu o dinheiro, a propriedade privada e a pobreza, e cada indústria é de administração e usufruto coletivo.

Existem vislumbres de nosso presente na visão de Bellamy sobre o futuro, que incluía uma espécie de cartão de crédito e armazéns gigantes que despacham os produtos diretamente para as casas. Tinha até mesmo um serviço de streaming sinistramente profético, uma espécie de Spotify que preenche as salas de estar com música. Mas esse país de telefones musicais, elegantes bibliotecas e refeitórios comunitários é dirigido por burocratas seguindo linhas estritamente utilitárias. Nessa terra da fartura, os trabalhadores se aposentam aos 45 anos de idade depois de 24 anos de serviço industrial, e depois têm pela frente quatro décadas de descanso e lazer.

O otimismo de Bellamy agora parece extremamente anacrônico, mas —embora ele tivesse escrito isso enquanto a rainha Vitória ocupava o trono— ele foi profético ao fazer as perguntas certas acerca do futuro, particularmente aquelas sobre a natureza do trabalho. É uma pergunta que permanece sendo igualmente relevante hoje, e os partidos políticos que não consigam respondê-la poderão estar condenados. Foi por isso que criei a Comissão do Futuro do Trabalho no Reino Unido, para reunir analistas e investidores. O objetivo é que ela apresente um relatório até o próximo outono (hemisfério norte), identificando como as coisas estão mudando e entendendo como o Estado deveria reagir.

Em uma nova era de mudanças tecnológicas, conduzida pela automação e pela inteligência artificial, ideias antigas a respeito do mundo do trabalho serão subvertidas, com consequências profundas para todos nós. Ouvem-se muitas estatísticas: Deloitte sugere que 35% dos empregos no Reino Unido estão ameaçados pela automação; outros estudos afirmam que esse número é de 10%; e outros ainda, de 50%.

Isso não tem a ver só com drones entregando mercadorias em nossas portas ou com o advento dos carros autônomos, ainda que essas inovações sozinhas possam revolucionar o transporte comercial e tirar o emprego de motoristas. As mudanças afetarão tanto os trabalhos braçais quanto os de escritório. Quando minha filha nasceu há menos de uma década, eu tinha certeza de que ela passaria seus anos de escola aprendendo programação, mas agora a programação está sendo feita por algoritmos.

O Citibank estima que um quarto dos empregos de Wall Street será ocupados por computadores até 2020. Será que pais ambiciosos continuarão empurrando seus filhos para a faculdade de medicina quando a inteligência artificial estiver diagnosticando doenças e os robôs estiverem fornecendo remédios? Os computadores já conseguem detectar alguns tipos de câncer de forma mais eficiente do que radiologistas humanos. Isso é uma boa notícia para todos nós, exceto para os radiologistas.

Muitas profissões podem sucumbir à tecnologia. No ano passado, mais americanos fizeram suas declarações de imposto de renda usando softwares do que com um contador, e o primeiro advogado-robô do mundo acaba de ser contratado por um escritório de advocacia especializado em falências. A indústria da criatividade tampouco está imune: a Press Association está considerando usar robôs para escrever alguns artigos sobre esportes.

Tentar prever o futuro pode fazer com que todos nós façamos papel de bobo, mas um político que não tenta entender o rumo que as coisas estão tomando está sendo negligente. Há muito em jogo. A globalização e a crise financeira criaram uma reação populista, mas esses são pequenos tremores sociais em comparação ao que poderia acontecer se os robôs destruírem empregos convencionais e modos de vida.

Basicamente, trabalhadores de baixa remuneração que atualmente têm enfrentado concorrência de trabalhadores migrantes em seu país ou uma mão de obra barata em outro país poderão em breve se ver tendo como rivais máquinas que não precisam dormir ou tirar férias, e nunca exigirão salários menores.

Como a imigração e a terceirização corroeram os salários da base operária da esquerda, a ligação emocional entre esses trabalhadores e o "partido deles" enfraqueceu. Assim como os democratas nos Estados Unidos se mostraram vulneráveis no Cinturão da Ferrugem, o Partido Trabalhista no Reino Unido também está vulnerável diante do Partido da Independência do Reino Unido nas Midlands e no norte da Inglaterra, e diante do Partido Nacional Escocês na Escócia. Se a automação e os algoritmos tirarem a classe média liberal de seu lugar seguro, ela também poderá se revoltar.

Eu sempre fui a favor de novas tecnologias —fui o primeiro membro do Parlamento a ter um blog e o primeiro ministro do Engajamento Digital do Reino Unido— então não estou propondo para que se contenha essa onda. Esses estudos feitos por Deloitte e outros sugerem que o número de empregos perdidos deve ser ultrapassado pelo número de empregos criados. Mas haverá uma disrupção e um custo humano, que precisamos primeiro reconhecer, para depois abordá-los com base em evidências.

Precisamos estabelecer de quais habilidades a força de trabalho precisará, e em que tipo de formação precisaremos investir. Se trabalhos para toda a vida serão uma exceção, as instituições de educação continuada podem vir a ter um papel novo —e maior.

Se os robôs passarão a fazer todo o resto, será que a indústria do Reino Unido conseguirá projetar os robôs? Com mais automação, será que os empregos de hoje que são considerados menos prestigiosos, como cuidadores de idosos, serão mais valorizados e terão um salário à altura? Como a legislação trabalhista e a governança corporativa podem garantir que os frutos das novas tecnologias, muitas vezes desenvolvidas com pesquisas financiadas pelo Estado, sejam distribuídos de uma forma justa?

Não sou pessimista quanto ao futuro. A tecnologia é uma ferramenta da humanidade, não o contrário. Ela pode até permitir que todos nós nos aposentemos aos 45 anos algum dia, assim como Bellamy imaginou. No mínimo, precisamos ser poupados das tarefas monótonas de escritório, assim como aparelhos nos liberaram de algumas tarefas domésticas.

O gentil médico que desperta Adam West, o protagonista de "Looking Backward", de seus 100 anos de sono, explica a ele: "Somente um século se passou, mas houve mudanças extraordinárias que não se viram em muitos milênios na história do mundo". O próximo século pode muito bem ser o mesmo. Nossos netos teriam razão em nos repreender se não nos prepararmos.

*Tom Watson é membro do Parlamento britânico para West Bromwich East e vice-líder do Partido Trabalhista do Reino Unido

Tradutor: UOL

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