Opinião: Hillary fracassou no discurso, mas foi roubada em locais que limitaram votação

Desmond King e Rogers Smith*

  • REUTERS/Carlos Barria

    Hillary Clinton discursa após ser derrotada por Donald Trump nas eleições

    Hillary Clinton discursa após ser derrotada por Donald Trump nas eleições

Hillary Clinton venceu no voto popular por mais de 2,8 milhões de votos em 2016. Uma mudança de cerca de 40 mil votos nos Estados de inclinação indefinida de Wisconsin, Michigan e Pensilvânia teriam lhe dado a vitória no Colégio Eleitoral, que acabou indo para Donald Trump. 

O que aconteceu? Dentre as muitas explicações possíveis, duas são mais importantes para o futuro democrático dos Estados Unidos. Uma é a de que os democratas perderam o apoio dos eleitores da classe trabalhadora branca, particularmente dos homens, ao enfatizarem a "política de identidade" das minorias e mulheres em vez das queixas econômicas. Uma segunda é que perderam devido a supressão de votos por autoridades republicanas nos Estados indefinidos. 

As duas não são totalmente separadas: a história mostra que sempre há elos entre a política racial dos Estados Unidos e supressão dos direitos de voto. As antigas deficiências dos sistemas eleitorais americanos em prover participação plena e justa a todos os eleitores se aprofundaram desde que a Suprema Corte invalidou parte da histórica Lei do Direito de Voto de 1965 na decisão Condado de Shelby contra Holder, de 2013. 

Por trás de supostas medidas imparciais para tornar a votação mais difícil está uma "política de identidade" diferente: o ressurgimento da crença de que para ser "grande", os Estados Unidos precisam ser uma nação governada predominantemente por brancos. Isso foi auxiliado muito mais pelo fracasso de Hillary em defender fortemente a ajuda às minorias em desvantagem do que estimulada por qualquer defesa em especial a elas. 

No Condado de Shelby, a Suprema Corte declarou antiquada e invalidou a seção da Lei do Direito de Voto que provocou ações por parte do Departamento de Justiça contra sistemas eleitorais em Estados com histórico sórdido de supressão de votos. Após a decisão de 2013, 14 Estados controlados por republicanos aprovaram novas medidas que até mesmo alguns defensores reconheciam visar reduzir o comparecimento dos democratas às urnas, desproporcionalmente mais pobres, afro-americanos e latinos. 

Quando uma tribunal de instância inferior derrubou a nova lei rígida de Wisconsin de exigência de identidade com foto como sendo inconstitucional, o Estado prometeu fornecer identidades gratuitas. Notavelmente, o Tribunal de Apelações do 7º Circuito aceitou essa promessa. Quando o Estado não a cumpriu, o tribunal ordenou que ele assegurasse que nenhum dos 300 mil eleitores sem a identidade fossem impedidos de votar.

Mas as autoridades republicanas mesmo assim deram falsas informações sobre a exigência de identidade. E em áreas onde os eleitores temiam estar violando a lei, mais notadamente na fortemente democrata Milwaukee, o comparecimento caiu em 13% em comparação a 2012, uma diferença de 41 mil votos. Trump venceu em Wisconsin por menos de 23 mil votos. 

As pessoas que trabalharam na eleição em Michigan também disseram aos eleitores que precisavam mostrar identidades aprovadas pelo Estado, mas não ofereciam a alternativa, o preenchimento de uma declaração confirmando sua identidade. É impossível saber quantos eleitores democratas foram desencorajados por isso, mas Trump venceu em Michigan por menos de 11 mil votos. 

Vitória em Estados-chave fez de Trump o 45º presidente dos EUA

Em outros Estados indefinidos nos quais Trump venceu com maior folga, a supressão de votos foi desenfreada. Após encomendar um estudo para determinar quais grupos raciais usavam quais métodos de votação, os legisladores da Carolina do Norte buscaram coibir os preferidos pelos afro-americanos.

Apesar da Justiça federal ter invalidado grande parte dessa lei, os conselhos eleitorais locais controlados pelos republicanos ainda reduziram locais de votação e o horário de votação nos bairros negros, criando longas filas e reduzindo o comparecimento. A eleição deu aos republicanos controle não dividido de 32 legislativos estaduais e 33 governos estaduais. A expectativa é de que muitos Estados tornem ainda mais difícil para eleitores pobres e não brancos, que têm inclinação democrata, votarem em futuras eleições. 

Essas táticas de supressão são graves, mas tiveram sucesso apenas porque Trump energizou seus apoiadores, enquanto Hillary fracassou em energizar os dela. O diagnóstico da moda, o de que isso ocorreu porque Hillary enfatizou a ajuda às minorias e assim mobilizou a oposição branca, está completamente errado. Na verdade, Hillary enfatizou a economia. Ela prometeu combater a desigualdade com impostos maiores sobre os ricos, melhoria da lei de saúde do presidente Barack Obama e estimular a geração de empregos por meio de gastos em infraestrutura.

Ela expressou regularmente apoio aos direitos da mulher, direitos LGBT, direitos dos deficientes e justiça para as minorias raciais e imigrantes. Mas assim como a maioria dos políticos democratas, incluindo Obama, ela o fez sem explicar de forma explícita por que essas políticas preferenciais são justificadas. 

Não há questão mais carregada do que sobre se a política pública americana deve ser "consciente de raça" ou "igual para todos", mas os políticos liberais descartam a defesa de políticas "conscientes de raça" em épocas de eleições. Eles confinam suas defesas aos pareceres legais em casos na Justiça ou a depoimentos de especialistas em audiências administrativas. Ninguém se dá ao trabalho de explicar como essas medidas com frequência são as mais eficazes, às vezes a única forma de atingir as metas maiores de promover um nação próspera, segura e de alta escolaridade. 

Por que escondem essa luta? Pesquisa por Daniel Gillion mostra que no governo, Obama tratou das questões raciais com menos frequência do que seus antecessores democratas, mas que quando o fez, estimulou apoio mais forte entre afro-americanos e latinos, sem diminuir o apoio branco.

Hillary seguiu Obama ao se apresentar como uma candidata unificadora, não alguém defendendo "políticas de identidade". Mas ao deixar o campo vazio, ela fracassou em contestar as acusações de Trump de que suas posições a respeito dos direitos das minorias eram injustas. Ela também fracassou em estimular o alto comparecimento de latinos e afro-americanos que precisava. Em comparação, a retórica de Trump mobilizou muitos eleitores brancos, tanto homens quanto mulheres. 

Não há garantia de que se Hillary tivesse apresentado argumentos mais fortes a favor do auxílio às minorias, ela teria vencido. Mas seu fracasso em fazê-lo, somado a supressão de eleitores e à retórica racialmente carregada republicana, acabou elegendo um candidato que fez mais para revigorar o nacionalismo branco do que qualquer outra figura política desde que George C. Wallace concorreu à presidência em 1968. Consequentemente, uma nação que em 2011 chamávamos de "uma casa ainda dividida" se tornou ainda mais. 

(Desmond King e Rogers Smith, professores de governo americano em Oxford e na Universidade da Pensilvânia, respectivamente, são autores de "Still a House Divided: Race and Politics in the Obama Era", ou "Uma casa ainda dividida: raça e política na era Obama", em tradução livre, não lançado no Brasil.)

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos