Invasão chinesa transforma pequena cidade da Toscana

Anna Blundy*

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    Placas em Prato, na Itália

    Placas em Prato, na Itália

Prato, uma pequena cidade toscana situada a 25 km de Florença, é famosa pelos afrescos de Filippo Lippi na Catedral de Santo Estêvão e por sua antiga tradição no ramo têxtil, documentada pelo mercador do século 14 Francesco Datini, cujo palazzo ainda pode ser visitado. Ou, pelo menos, era por isso que Prato costumava ser conhecida.

Pois hoje Prato é famosa principalmente por sua Chinatown, conhecida como Santo Pequim, e que se estende desde o portão de pedra, passando pela agitada Via Pistoiese, até a entrada da Cidade Antiga. Não há nada do ar de decadência que se sente na maioria das cidades interioranas da Itália, com suas lojas fechadas, sua apatia e uma população em envelhecimento.

Aqui as placas das lojas são em chinês e há salões de cabeleireiro e manicure, restaurantes de cozinha Wenzhou (a maioria dos chineses de Prato são originários de Wenzhou, na província de Zhejiang), lojas de produtos de medicina chinesa e tudo mais de que os aproximadamente 45 mil residentes de etnia chinesa de Prato possam precisar.

Comparada com as Chinatowns de outras partes do mundo, essa pode não ser grande coisa. Mas nesta cidade de aproximadamente 200 mil habitantes, na relativamente monocultural Itália, ainda um país devotadamente católico obcecado por sua própria comida e tradições, é algo surpreendente. Especialmente porque as lojas e os restaurantes chineses estão sempre abertos, evitando a pausa de almoço de quatro horas e os três dias de folga por semana, além dos longos períodos fechados em feriados, pelos quais os negócios locais são carinhosamente conhecidos.

Se você vir uma família chinesa à beira de um rio no verão, uma orquestra predominantemente chinesa em uma competição entre escolas da Toscana, um grupo de senhoras massagistas de shiatsu na praia em Forte dei Marmi, eles são de Prato. Há revistas e estações de rádio em chinês e blogs cheios de angústia escritos por jovens italianos descendentes de pais chineses, chamados Luca, Fabiano, Chiara e Cristina, em busca de uma identidade naquele que muitas vezes é um país inóspito.

Muitos italianos locais veem seus vizinhos chineses como transgressores da lei, consideram seus restaurantes sujos e se queixam das cuspidas e da sujeira que deixam nas ruas. Uma vez eu disse a um amigo de Prato que meu carro não tinha seguro e ele riu e disse: "Você é como os chineses! Eu cheguei a vê-los fugindo de acidentes!"

Um grande número dos imigrantes chineses em Prato, que começaram a chegar à cidade a partir do final dos anos 1980, está ilegalmente na Itália. Eles vieram em sua maior parte para trabalhar na indústria têxtil, produzindo roupas para o mercado chinês com a etiqueta "Made in Italy".

A maioria das fábricas, abandonadas pela decadente indústria têxtil doméstica, está sendo agora alugadas pelos italianos para os chineses. Recentemente, membros da comunidade chinesa entraram para a agricultura e agora detêm 25% das terras cultiváveis da província.Os preços dos aluguéis de terras dispararam, uma vez que os chineses pagam muitas vezes mais do que os locais costumavam pagar.

São frequentes as batidas policiais em empresas tocadas por chineses, famosas por ignorar leis fiscais, trabalhistas e de segurança, e os negócios estão sempre sendo fechados e depois reabrindo. Há alegações de lavagem de dinheiro e de incêndios em alojamentos superlotados; sete pessoas morreram em um incêndio em uma oficina de costura em 2013. Confrontos com a polícia tendem a vir na sequência das esporádicas batidas realizadas em massa.

Muitos dos locais se ressentem dos donos de fábricas e dos fazendeiros por exibirem sua riqueza, e homens chineses de Ferrari são considerados o cúmulo do mau gosto. O jornal fiorentino "La Nazione" se refere aos chineses de Prato como a "invasão amarela". Queixas infundadas de que alguns restaurantes chineses não serviriam italianos foram amplamente disseminadas.

Contudo, o que não existe é grande celebração da forma como Prato evitou a crise econômica que arruinou a maior parte de Itália. O presidente da Associação Industrial de Prato, Andrea Cavicchi, ressaltou a contribuição chinesa para a economia. No entanto, a maioria dos italianos ainda tende a ver os imigrantes como um problema, tanto que a comunidade chinesa criou sua própria associação trabalhista, a Cervo Bianco ("cervo branco").

Mas, "piano piano" (ou "pouco a pouco"), como os italianos dizem, as coisas estão mudando. Dez anos atrás, Xu Qiu Lin se tornou o primeiro membro nascido na China da Confindustria de Prato, a Confederação Geral da Indústria Italiana, e gradualmente ele se tornou um porta-voz na mídia sobre a integração. Marco Wong, um empresário nascido em Prato, atribui ao prefeito Matteo Biffoni a mudança nas atitudes. Normalmente, diz Wong, em qualquer conflito entre chineses e italianos nativos, os chineses levam a culpa. Biffoni não responde dessa maneira.

Cinco anos atrás Wang Li Ping, 56, depois de viver em Prato por 22 anos, se tornou vice-presidente da CNA, outra confederação que representa pequenos comerciantes. "Empresários chineses e a CNA estão trabalhando juntos para erradicar o trabalho ilícito", Wang contou à imprensa. Wang trabalha com o representante jurídico da CNA Claudio Bettazzi, cuja mulher trabalha para uma empresa chinesa local.

Bettazzi contou ao "La Stampa" que em um festival da cidade realizado recentemente, "havia vários casais inter-raciais na pista de dança. A integração está acontecendo gradualmente". Para a geração mais nova, é claro, ela já aconteceu.

*Anna Blundy vive na Toscana

Tradutor: UOL

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