A arte do acordo impossível

Martha Gill*

  • Odd Andersen/Agence France-Presse/Getty Images

    Pessoas enroladas em bandeiras do Reino Unido atravessam a Ponte Westminster, em Londres, três dias depois que os eleitores britânicos decidiram cortar os laços com a União Europeia.

    Pessoas enroladas em bandeiras do Reino Unido atravessam a Ponte Westminster, em Londres, três dias depois que os eleitores britânicos decidiram cortar os laços com a União Europeia.

Foram nove meses difíceis, mas o governo britânico finalmente entregou. Em 29 de março, às 12h28, Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu, tuitou que tinha recebido uma carta de notificação sobre a saída do Reino Unido da União Europeia. "Que posso acrescentar a isto?", escreveu ele, "já estamos com saudade de vocês." Serão dois anos até que possamos ver a Europa colocar em prática esse sentimento.

Dirigindo-as à Câmara dos Comuns mais tarde naquele dia, a primeira-ministra britânica, Theresa May --com sua atitude gélida marca-registrada--, falou sobre um futuro de planícies ensolaradas. "Todos queremos ver um Reino Unido mais forte do que é hoje", disse ela aos membros do Parlamento. "Todos queremos um país que seja mais justo e mais seguro para nossos filhos e netos. Todos queremos viver em um Reino Unido realmente global, que construa relacionamentos com velhos amigos e novos aliados em todo o mundo."

Seu objetivo, disse ela, é nada menos que um acordo que satisfaça "a todas as pessoas deste país" -- "jovens e velhos, ricos e pobres, na cidade, no campo e em todas as aldeias e povoados".

A chance disso é pequena. Deixando de lado os 48% de eleitores que não queriam se separar da UE (e desde então deram poucos sinais de acalentar essa ideia) e cerca de 6% dos que votaram na saída e disseram lamentar sua opção, será surpreendente se o Brexit agradar a alguém. Porque até os "saidistas" mais comprometidos querem coisas muito diferentes -- e não é apenas que eles discordem uns dos outros. O que muitos deles mais gostariam é que o Reino Unido de algum modo evitasse algumas escolhas do mundo real que agora enfrentamos inevitavelmente.

O principal trabalho de May nos próximos dois anos será salvaguardar o maior número possível de privilégios da UE, enquanto executa a repressão à imigração que ela prometeu. As autoridades europeias insistem que ela não irá muito longe nisso. E uma coisa é certa, segundo eles: o Reino Unido não pode comerciar livremente com a Europa enquanto bloqueia seus cidadãos na fronteira.

Mas os eleitores contam com ela para resolver isso. Uma pesquisa da NatCen Social Research mostra que os "saidistas" são a favor de limites mais duros para os migrantes da UE, mas também querem os privilégios da UE, como livre comércio, água do mar limpa e cobertura de celular barata. Talvez o mais preocupante para May sejam os eleitores conservadores, que são os mais conflituados sobre como essas compensações devem ser resolvidas. Quando solicitados a colocá-las em ordem de prioridade, 44% aceitariam o livre movimento para garantir o livre comércio, mas 55% foram na outra direção. Onde o Brexit antes colocava em oposição as tribos políticas, hoje ele ameaça dividi-las contra si mesmas.

AFP
Premiê britânica Theresa May fala no Parlamento no dia em que têm início a saída do Reino Unido da União Europeia

Mesmo que a primeira-ministra realize o impossível, muitos ainda ficarão decepcionados. Os que fizeram campanha pelo Brexit salientaram que ele daria ao Reino Unido, senão um cheque em branco, pelo menos uma folha limpa, e isso encorajou os britânicos a desenvolver ideias sobre o que deve ser escrito nela, com muitos olhando fundo no espelho retrovisor em busca de inspiração. Uma recente pesquisa YouGov revelou que mais da metade dos favoráveis ao Brexit tinham a pena de morte em sua lista de desejos, seguida de perto por passaportes azul-escuros e lâmpadas "tradicionais".

Outros veem o mundo pós-Brexit de modo diferente. O deputado trabalhista Kelvin Hopkins, que aprovou o uso do Artigo 50, declarou com grande otimismo que isso "possibilitaria o futuro socialista pelo qual eu e outros trabalhamos nossa vida inteira". Bem, Kelvin, logo veremos...

Enquanto os "saidistas" aguardam a hora de zombar da elite globalista em Bruxelas, outros ainda se agarram à ideia defendida por torcedores do Brexit, como Michael Gove e Daniel Hannan, de que o Reino Unido agora se tornará um ator global ágil e ultramoderno, rival de Hong Kong, uma espécie de jardim dos prazeres offshore para as empresas.

May adotou uma abordagem sábia, uma mistura de esposas de Stepford com esfinge, para resolver muitas charadas aqui, mas isso não impediu que surgissem acusações de que ela joga nos dois lados --falando de um Reino Unido global, enquanto tenta atrair a Pequena Inglaterra. Sua aprovação já está caindo entre os "saidistas", embora suas mensagens tenham sido quase todas criadas especialmente para eles.

Enquanto isso, outras correntes puxam o Reino Unido para águas arriscadas, ameaçando exacerbar as tendências que provocaram o Brexit em primeiro lugar. O Instituto de Pesquisa de Políticas Públicas indica o próximo aumento na população de idosos, com o número de pessoas com 65 anos ou mais subindo um terço até 2030, enquanto a população ativa sobe meros 2%. Isso, segundo o instituto, irá erodir as finanças públicas: um deficit estrutural surgirá em meados da década de 2020. Um Brexit duro (que parece provável) poderá mergulhar o Tesouro mais 55 bilhões de libras (cerca de R$ 215 bilhões) no vermelho, com "crescimento mais baixo, taxas de investimento piores e finanças públicas mais fracas". A desigualdade de renda aumentará: as famílias ricas verão sua renda crescer 11 vezes mais depressa que as pobres.

Ah, e o país também ficará mais lotado, com a população crescendo mais que a da França. Por quê? Porque a imigração pós-Brexit continuará subindo. Os migrantes representarão quase a metade do aumento total da população nos anos 2020, e a população não branca quase duplicará.

Toda essa decepção que paira promete problemas para os conservadores. O voto no Brexit foi um tratamento para um partido dividido sobre a Europa ("A UE estava 'começando a envenenar a política britânica', disse o primeiro-ministro David Cameron em dezembro, acrescentando: 'Certamente estava envenenando a política em meu próprio partido'.")

Depois de um referendo apertado e premonitório, passar pelo Brexit não era uma necessidade para o país, mas para a sobrevivência do Partido Conservador. Isso basta, porém, para significar que é improvável que seja contido. Mas hoje os deputados conservadores mais ponderados sussurram que o Brexit não é uma cura para o que aflige o Reino Unido, e sim um sintoma: o partido deve encontrar um modo de se proteger do que está por vir.

O ímpeto para administrar as expectativas já começou. Enquanto May se preparava para acionar o Artigo 50, o chanceler do Tesouro, Philip Hammond, dizia a repórteres, contrariando Boris Johnson, que o Reino Unido afinal não pode ficar com o bolo e comê-lo. Hoje se fala que o governo prepara uma reluzente "oferta alternativa" para a próxima eleição --isto é, uma alternativa para distrair os eleitores das consequências do Brexit.

Depois de vender ao público um país mais rico com fronteiras sólidas, será difícil convencê-los de que o que eles realmente queriam era um mais pobre, com mais imigração. Mas essa é a próxima tarefa de May.

*Martha Gill é uma jornalista política

 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos