Análise: Como resolver um problema como a Coreia do Norte?

Isabel Hilton*

  • KCNA via AFP

Em fevereiro de 2016, parecia que a China e os EUA tinham chegado ao fim da linha com a Coreia do Norte. O ministro das Relações Exteriores chinês, Wang Yi, concordou com o secretário de Estado americano, John Kerry, sobre uma nova resolução da ONU para endurecer as sanções contra Pyongyang, a capital norte-coreana. Foi uma reação a dois desafios recentes: um teste nuclear e um lançamento de satélite.

Como 90% do comércio da Coreia do Norte são efetuados com a China, que fornece de tudo, de petróleo a serviços de internet e bancários, ela tem maior capacidade de apertar o regime, e seu apoio às sanções é crítico. Em fevereiro deste ano, a China anunciou mais uma medida: a proibição das importações de carvão norte-coreano, no valor aproximado de US$ 1 bilhão por ano.

Por isso talvez pareça surpreendente que os números do comércio da China no primeiro trimestre de 2017, período em que as tensões estiveram mais altas, revelaram que o intercâmbio com a Coreia do Norte aumentou de forma acentuada: as exportações cresceram 54,5% e as importações, 18,4%, em comparação com o mesmo trimestre do ano passado.

Observadores tarimbados, entretanto, não demonstraram surpresa. Há muito estava evidente que a posição efetiva da China em relação à Coreia do Norte não é realmente a resignação estratégica preferida pelo governo do ex-presidente Barack Obama, mas a ambivalência estratégica.

Além do comércio, a China dá proteção diplomática e uma garantia de segurança sob um tratado de 1961 que a obriga a defender a Coreia do Norte no caso de um ataque (arranjo em que a Coreia não parece mais confiar). Pequim também trabalha para evitar o colapso do regime, o que ela teme.

Manter Pyongyang na superfície, por definição, implica manter a dinastia governante dos Kim. Com o assassinato do meio irmão de Kim Jong-un na Malásia em fevereiro, não há uma alternativa clara ao atual dirigente, por mais problemático que seja. Para a China, esse relacionamento é "tão próximo quanto lábios e dentes", expressão que um dia indicou a solidariedade comunista.

Hoje ela significa meramente uma interdependência inevitável. Se os lábios se forem, segue o ditado, os dentes ficarão expostos. Se a Coreia do Norte desmoronar, uma nação unificada sob as condições da Coreia do Sul, que é aliada dos EUA, seria vizinha imediata da China. Para um país dominado por um nacionalismo poderoso, é um resultado intolerável.

A fronteira chinesa com a Coreia do Norte é longa e porosa. É uma das rotas de fuga mais usadas, embora os refugiados norte-coreanos muitas vezes sejam apanhados pela exploração ou escravidão sexual na China. Também é a fronteira onde o apoio chinês à Coreia do Norte é mais visível.

Na cidade chinesa de Dandong, perto da foz do rio Yalu, turistas chineses observam os postos de sentinela norte-coreanos do outro lado. Na Zona Econômica da Fronteira de Dandong, ligada por uma ponte à cidade coreana de Sinuiju, trabalhadores coreanos se debruçam sobre fileiras de máquinas de costura, fabricando roupas com a etiqueta "Made in China" para os mercados internacionais. A zona econômica especial da Coreia do Norte, do outro lado do rio, produz artigos industrializados leves para a China e recicla lixo.

Dandong é o epítome da receita chinesa de estabilidade na península da Coreia: que Kim deve seguir o modelo de desenvolvimento de Deng Xiaoping, que tirou a China da calmaria maoísta para o sucesso na economia global. É uma receita para uma espécie de normalização e, pelo menos na China, o regime até agora sobreviveu à transição.

Há sinais de que a Coreia do Norte está seguindo o plano: os mercados locais floresceram; os agricultores podem vender seu excedente como particulares e algumas fábricas podem fazer seus próprios acordos de suprimento e produção, medidas experimentais do manual chinês dos anos 1980.

O regime ainda tem divisas suficientes para importar carros para sua elite privilegiada e para construir prédios de apartamentos e instalações de lazer na capital, além de financiar seus militares, extremamente caros.

De modo paradoxal, porém, as relações oficiais entre Pyongyang e Pequim estão em uma maré historicamente baixa. O pai e o avô do atual Kim visitavam Pequim regularmente, mas este nunca prestou homenagem ao vizinho gigante. O presidente chinês, Xi Jinping, já esteve em Seul, a capital da Coreia do Sul, mas não em Pyongyang.

Talvez Kim seja inseguro demais para sair de casa, ou possivelmente deseje demonstrar que não é, afinal, dependente da China. Uma Coreia do Norte fraca e isolada poderia facilmente se tornar uma virtual província chinesa. Comportamentos que geralmente são interpretados como petulantes ou irracionais, como o programa nuclear e as ameaças extravagantes aos EUA, ajudam a reforçar a tese interna de que a Coreia do Norte não se dobra a ninguém.

O que se sabe sobre o programa nuclear da Coreia do Norte

O estatuto quase divino da dinastia Kim se baseia no mito de que seu fundador, Kim Il-sung, derrotou heroicamente o Japão na Segunda Guerra Mundial, depois levou seu país à vitória na Guerra da Coreia, contra as forças somadas do imperialismo. Na verdade, quando, há mais de 70 anos, dois jovens oficiais americanos, alarmados diante do rápido avanço das forças soviéticas para o sul, traçaram apressadamente uma linha cortando a península no paralelo 38 e os EUA adotaram a Coreia do Sul como símbolo do capitalismo, Stalin instalou Kim Il-sung no Norte.

Ele tinha passado a maior parte da guerra na Manchúria e ocupou um cargo menor no Exército soviético. Seu regime durou 46 anos, e quando ele morreu, em 1994, foi sucedido por seu filho, Kim Jong-il (mas postumamente foi agraciado com o título de presidente eterno da República). Quando Kim Jong-il morreu, em 2011, seu filho Kim Jong-un tornou-se o líder.

A lenda de Kim Il-sung diz que a Coreia do Norte saiu de seu batismo de fogo forte e inabalável como aço temperado. Uma constante sensação de ameaça, concomitante com um extremo nacionalismo e militarismo, centrado nas personalidades de sucessivas gerações da família Kim, é o alicerce da sobrevivência do regime. O programa nuclear, longe de irracional, é a garantia de que Kim Jong-un e os que o cercam não cairão sob forças convencionais superiores, como ocorreu com os líderes não nucleares Saddam Hussein e Muammar Gaddafi.

Kim sabe que com a China, o Japão e a Coreia do Sul ao alcance de seus mísseis os EUA são obrigados a admitir que essa capacidade nuclear aumenta os custos da ação militar contra as forças convencionais da Coreia do Norte, extensas mas mal equipadas.

Mesmo que ela não consiga desenvolver um míssil nuclear capaz de atingir os EUA, os 47 mil soldados estacionados no Japão estão ao alcance e Seul fica dentro do raio da artilharia. A retórica de Kim pode ser extravagante e sua propaganda, ridícula, mas ele segue o exemplo de seu pai de usar uma mão fraca com o máximo efeito.

A Coreia do Sul também foi uma ditadura nos anos do pós-guerra, com espionagem e propaganda comparáveis às do Norte em sua virulência: os desertores eram --e ainda são-- incentivados a contar histórias sobre seu sofrimento, e embora sem dúvida haja muita verdade nisso alguns relatos mais extravagantes foram desacreditados.

Hoje, a posição oficial da Coreia do Sul ainda é que as duas Coreias devem se reunir, mas o caminho preferido para isso variou. Durante dez anos, os presidentes liberais Kim Dae-jung e Roh Moo-hyun promoveram a muito criticada "política ensolarada" de envolvimento pacífico, encorajando o investimento e o comércio com o Norte.

Firmas sul-coreanas investiram em mineração, agricultura, turismo e fábricas, e um parque industrial foi construído na cidade norte-coreana de Kaesong que empregou cerca de 53 mil norte-coreanos em empresas do Sul. A Coreia do Sul se retirou de Kaesong em 2016, mas a política ensolarada terminou em 2008. Desde então, as relações têm sido hostis.

Agora, a eleição do novo presidente liberal da Coreia do Sul, Moon Jae-in, pode indicar um retorno da abordagem ensolarada. Assim como com a China, o colapso do regime faz parte dos pesadelos sul-coreanos. Ser obrigada a absorver um país cujo ramo mais eficaz do Estado são os militares, com intensa hostilidade em relação ao Sul, seria extremamente complexo. Como a China, sua melhor esperança é um congelamento nuclear e a gradual normalização por meio do desenvolvimento econômico. A unificação, em Seul, é como a oração de Santo Agostinho para ter castidade: desejável, mas ainda não.

De todos os relacionamentos difíceis da Coreia do Norte, o que tem com o Japão produziu os episódios mais bizarros e a hostilidade mais intratável. Geograficamente mais próxima da China, a Coreia é culturalmente mais chegada ao Japão. A intensidade da adoração aos Kim lembra a que foi prestada ao imperador no início do século 20, mais ainda que o culto chinês a Mao Tsé Tung em seus últimos anos.

As duas culturas exibem um ódio fraterno, exacerbado por semelhanças. No Norte, os guias insistem que a Coreia é a cultura original da qual derivou a japonesa. No Japão, os residentes coreanos sofrem extrema discriminação.

Memórias de abusos e humilhações praticados pelos japoneses na anexação da Coreia em 1910 mantêm vivo o ressentimento, tanto no Norte como no Sul. Para o Japão, o bizarro sequestro pela Coreia do Norte de vários de seus cidadãos nos anos 1970 --incluindo uma aluna apanhada quando voltava para casa da escola-- e o fracasso do regime em explicar seu destino tornam as relações normais politicamente impossíveis.

A ameaça militar da Coreia do Norte ao Japão é crescente: Tóquio calcula que ela tenha de 300 a 400 mísseis de médio alcance, alguns dos quais poderiam carregar armas nucleares. Isso afeta a política interna do Japão, o único país que já sofreu um ataque nuclear. Alguns pedem a reformulação do Artigo 9º da Constituição japonesa, que renuncia à guerra, para permitir que o Japão adquira uma capacidade ofensiva.

O questionamento de antigas alianças pelo presidente Donald Trump fez disparar mais alarmes em Tóquio. Se os EUA não são mais um amigo confiável, diz o argumento, o Japão não tem escolha senão reconstruir sua capacidade militar. Isto, assim como a recente mobilização pelos EUA de mísseis antibalísticos na Coreia do Sul, aumentaria as tensões com a China, preocupada com a mudança do equilíbrio estratégico na região.

Como disse recentemente o porta-voz de seu Ministério da Defesa, "a China se opõe a qualquer ação por outros países de usar a questão nuclear como desculpa para comprometer a segurança de outros países".

A maior esperança do Japão --a desnuclearização total-- também é a menos provável. Uma precondição essencial seria uma garantia de segurança para a Coreia do Norte, apoiada pela China. Mas um regime que viceja na paranoia terá pouca fé em promessas que poderão ser rasgadas pelo próximo --ou atual-- presidente americano. Tendo reduzido seus laços econômicos, o Japão goza de pouca influência e, como os EUA, hoje espera que a China possa forçar a Coreia do Norte a aceitar um congelamento nuclear.

Uma grande incógnita é se a Coreia do Norte poderá desenvolver um míssil balístico intercontinental sem ajuda externa. Seu programa de míssil lançado de submarino, que cresceu rapidamente, parece ter sido desenvolvido principalmente no país, mas houve muita ajuda no passado do Paquistão, da Rússia e do Irã, assim como de empresas chinesas, ou do próprio regime.

O Japão está agudamente consciente de que a presidência Trump acrescenta uma imprevisibilidade alarmante a uma situação já volátil, e a diplomacia japonesa tem estado em marcha acelerada, com a visita precoce do primeiro-ministro Shinzo Abe aos EUA e a rodada de golfe obrigatória com Trump. Autoridades japonesas dizem que apreciam o compromisso de Washington com a região.

Nos bastidores, muitos cruzam os dedos, comentando que Kim e Trump fazem afirmações irreais a seus eleitorados. Nenhum deles é conhecido por recuar graciosamente; ambos gostariam de apresentar um acordo como uma vitória contra o outro. Todos os vizinhos da Coreia do Norte estão procurando uma proposta que satisfaça a dois líderes letalmente armados e imprevisíveis nesta situação extremamente perigosa.

* Isabel Hilton é editora de chinadialogue.net.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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