A armadilha da vitimização: implorar por piedade diante de atrocidades é contraproducente

Faisal Devji*

  • Rodi Said/Reuters

Parece com frequência que o pluralismo extraordinário das sociedades do Oriente Médio, tanto religioso quanto étnico, tende a chamar a atenção do mundo apenas depois que é destruído. A guerra civil na Síria, por exemplo, tornou familiares comunidades como os yazidis, alauitas, drusos, assírios e curdos para uma audiência global. A proeminência repentina de seu apuro desesperado serve apenas para confirmar o estereótipo que deveria desfazer, o de uma sociedade islâmica uniforme. Como são transformados em vítimas, esses grupos tendem a ser removidos de uma história cuja única diversidade permanente é exibida como a suposta inimizada ancestral entre as duas maiores seitas do Islã: sunitas e xiitas.

É inegável que a guerra na Síria e no Iraque resultou na transformação de comunidades étnicas e religiosas menores em alvos. Mas ao nos focarmos tão obsessivamente nas vítimas da guerra, nós ignoramos essas complexidades étnicas, religiosas e sectárias, dando no processo crédito demais ao poder transformador da violência. Considerar morto o pluralismo no Oriente Médio nos encoraja no Ocidente a combinar a violência no Oriente Médio às nossas próprias visões para uma transformação da região à força.

O problema de assumir a identidade da vítima é que isso leva a apoiar a violência, apesar de mais por padrão do que por projeto. As histórias de horror nos levam a um conceito de soma zero tanto para o presente quanto para o futuro do Oriente Médio, despojando as vítimas de toda a vontade e volição. Nós podemos mergulhar no pessimismo e indiferença, ou adotar um tipo de contraviolência. Um motivo para o combate dos curdos ao grupo Estado Islâmico ter sido envolto em esperanças fervorosas é por parecerem ter descartado a identidade de vítimas, no caso deles, contra-atacando.

Mas há outras formas de rejeitar essa identidade fora pegar em armas. Na cidade síria de Salamiyah e arredores em meados de maio, combatentes do Estado Islâmico mataram dezenas de civis, decapitando mulheres e desmembrando crianças após esmagarem suas cabeças com tijolos, enquanto buscavam avançar por território controlado pelo governo. Essa é uma área dominada pelos ismaelitas, uma pequena subseita xiita que tem tentado desesperadamente não se envolver na guerra, mas cujos membros são considerados pelos militantes como apóstatas que merecem a morte. Com certeza, não se poderia imaginar vítimas melhores do que esses inocentes assassinados de forma horrível. Mas alguém teria dificuldade em encontrar evidência dos ismaelitas lamentando sua condição e se atirando à mercê da comunidade internacional.

Os ismaelitas sírios fazem parte de uma pequena minoria religiosa, porém multiétnica, espalhada por todo o mundo, em lugares como Índia, Paquistão, Afeganistão e Tadjiquistão, e como imigrantes na Europa e América do Norte. O grupo religioso inclui populações ricas totalmente capazes de transmitir o apuro de seus irmãos sírios. Mas não ocorreu nenhuma tentativa de fazê-lo, apesar de os líderes ismaelitas serem fornecedores assíduos de ajuda aos refugiados sírios em países como Alemanha e Suécia, e trabalharem nos bastidores para garantir a segurança daqueles ainda em Salamiyah. Considerados hereges por muitos, se não pela maioria dos muçulmanos, os ismaelitas não gostam de chamar muita atenção, ou pelo menos atrair publicidade que não possam controlar.

Os ismaelitas não carecem de oportunidades para se identificarem como vítimas. Mas por meio de sua experiência amarga, eles sempre entenderam que se identificarem dessa forma apenas agrava o problema. Não apenas dar a impressão de vulnerabilidade resulta em um aumento de ataques oportunistas, como se autoidentificar como vítima também impõe um enorme fardo psíquico. Até mesmo as vítimas que ocasionalmente se tornam alvo de preocupação global inevitavelmente perdem o controle de suas próprias causas e se veem repentinamente abandonados quando a atenção se volta a recém-chegados. Isso vale não apenas para os sírios hoje, mas também para os rohingyas em Mianmar, para os bósnios, tibetanos e vietnamitas no passado, sem falar dos ruandeses e sul-sudaneses. Em todos os casos, os benefícios incertos da atenção global contrastam com a perda do moral e da autonomia política da vítima.

Esse entendimento veio aos ismaelitas em 1972, quando o ditador Idi Amin expulsou todas as pessoas de origem indiana de Uganda. Incapaz de contar com a assistência dos países ocidentais, cujos governos precisavam administrar o sentimento anti-imigrante, o líder espiritual dos ismaelitas, o Aga Khan, fez arranjos com o Canadá para garantir a segurança financeira dos refugiados ismaelitas. Ele fretou todos os aviões disponíveis na África Central e Oriental para levar os ismaelitas e outros asiáticos (a maioria indo parar no Reino Unido ou no Canadá) e fundou uma agência de ajuda humanitária da própria comunidade. Após a invasão soviética do Afeganistão em 1979, arranjos semelhantes foram feitos. Então ocorreu a guerra civil no Tadjiquistão nos anos 90 e agora a crise na Síria.

Ao longo de tudo isso, a violência e trauma com os quais tiveram que lidar foram cuidadosamente removidos da identidade da comunidade, que eles entendem que precisa permanecer não manchada pela violência para que não se transforme em uma fonte de paranoia. Mesmo hoje, quando a circulação de vídeos sangrentos nas redes sociais é usada para fomentar a indignação entre todos os lados do conflito sírio, a maioria dos ismaelitas os ignora. E apesar de possuírem certas vantagens, como uma diáspora rica e um líder influente, as populações ismaelitas vulneráveis costumam ser minorias pobres e desarmadas em zonas rurais.

Ao negar a lógica da vitimização, os ismaelitas se recusam a reconhecer uma das identidades mais importantes do mundo moderno. Isso não torna ideais seus esforços para lidar com a violência; há muito que poderia ser melhorado. Porém crucial é o reconhecimento deles de que a vitimização é uma linguagem compartilhada por seus piores inimigos, uma que não permite a nenhum deles escapar dessa intimidade brutal. Se algo, os combatentes do Estado Islâmico possuem uma ideia mais intensa que seus inimigos do sofrimento das vítimas muçulmanas, daí a necessidade de violência para vingá-la. Portanto, vitimização e violência estão interligadas e se a história de uma pequena minoria sectária pode nos dizer algo, é que devemos abandonar uma e rejeitar a outra.

Virando de cabeça para baixo os relatos de lealdade sectária que definem o conflito na Síria, Salamiyah foi a segunda cidade no país a se erguer contra o regime de Bashar Assad. Mas seu Exército Livre foi logo debandado porque nenhum dos outros grupos na oposição queria se envolver com pessoas que consideravam hereges. Subsequentemente, facções pró-Assad se ergueram entre os ismaelitas. Mas a liderança da seita se recusou a recorrer a armas em apoio ao regime, cuja proteção dos ismaelitas continua sendo casual e cruel. Em vez disso, ajuda enviada pela rede de desenvolvimento do Aga Khan apoia a cidade, que se transformou em imã para refugiados sunitas de toda parte na Síria. Claramente, identidades são muito mais complexas do que a maioria imagina, e uma sociedade pluralista ainda é possível, mesmo em meio àquela que é vista como sendo uma guerra sectária.

*Faisal Devji é um revisor de história sul-asiática na Universidade de Oxford e autor de uma nova edição de "Landscapes of Jihad: Militancy, Morality, Modernity", ou "Panoramas da Jihad: Militância, Moralidade, Modernidade", em tradução livre, não lançado no Brasil
 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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