Opinião: Donald Trump está perdendo a briga pela restrição à imigração

Reihan Salam

  • Dylan Hollingsworth/The New York Times

Antes de se executar uma política importante, operações políticas testadas e eficazes costumam preparar o terreno necessário para garantir que, caso precisem brigar, eles o façam em um terreno favorável. Primeiro, fazem uma extensa consulta de bastidores para entender o cenário, com o olhar voltado para descobrir quais são as consequências em potencial. Depois, investigam os obstáculos políticos, legais e práticos para a implementação, e descobrem quais ajustes poderiam neutralizar opositores e evitar ações judiciais. Eles começam com cuidado para evitar dar à oposição autores de ações na Justiça que sejam alvo de simpatia para ampliar a política somente mais tarde, quando a batalha midiatizada for vencida. Então, quando a oposição estiver desorganizada e desmoralizada, e suas ameaças desacreditadas, você volta em busca de mais.

Basicamente, se você quer estabelecer mudanças efetivas e duradouras, você faz o contrário do que a administração Trump fez com sua ordem executiva, impondo uma suspensão de 90 dias sobre a entrada de cidadãos de sete países de maioria muçulmana. Se a Casa Branca tivesse feito sua diligência prévia, ela poderia ter mostrado que seus críticos estão errados.

Uma nova pesquisa da Rasmussen Reports, realizada antes dos protestos do final de semana, descobriu que 56% de prováveis eleitores eram a favor de uma suspensão temporária, o que não deveria causar surpresas. Quando os entrevistados ouviram a ordem executiva descrita como sendo nada além de uma medida de curto prazo idealizada para reforçar procedimentos de segurança, não é de se espantar que a maioria deles tenha achado a ideia razoável.

Havia muitos americanos dispostos a dar à gestão Trump o benefício da dúvida. Mas em vez de negar à oposição autores de ações judiciais dignos de compaixão, eles transformaram em vítimas residentes permanentes legais idosos, refugiados que trabalharam juntamente com militares americanos e muitos outros casos trágicos.

Em setembro, argumentei que embora Trump fosse o candidato mais explicitamente restricionista de um grande partido em décadas, sua candidatura se mostraria um grande revés para a causa da restrição da imigração. Em maio, quando eu ainda acreditava que as perspectivas de Trump como presidente eram remotas, expliquei que a retórica de Trump levaria a opinião pública em uma direção mais pró-imigração. E como Daniel Hopkins observou recentemente: evidências do passado sugerem que desde que Trump surgiu pela primeira vez no cenário político, democratas e republicanos se voltaram contra seus apelos por uma deportação em massa. Longe de reverter essas tendências, a controvérsia em torno da ordem executiva de Trump e a inépcia com a qual a ordem foi introduzida provavelmente endurecerá essas posições.

Para entender o porquê, pense em um dos grandes quebra-cabeças da política da imigração nos Estados Unidos. Enquanto aqueles que são a favor de reduzir os níveis de imigração são consistentemente mais numerosos que aqueles a favor de aumentá-los, defensores de níveis mais elevados de imigração tendem a vencer seus oponentes. Mas por quê? Minha explicação, tão simples, é que um lado do debate sobre a imigração é mais unido do que o outro.

Em seu livro de 2001 "Dividing Lines" ("Linhas divisoras", não lançado no Brasil), Daniel Tichenor oferece uma teoria que ajuda a entender o debate sobre a imigração. Em vez de simplesmente fazer uma comparação entre aqueles que querem admitir mais imigrantes (expansionistas) e aqueles que querem admitir menos (restricionistas), Tichenor acrescenta mais uma linha divisora.

A coalizão expansionista, ele escreve, se divide entre cosmopolitas —que veem a imigração em termos humanitários e são a favor de incorporar imigrantes ao Estado do bem-estar social— e expansionistas de livre mercado, que são a favor de trazer mão de obra barata mas não são grandes fãs da ideia de fornecer a eles os benefícios sociais, dos quais precisariam para ter vidas decentes.

Apesar do fato de que os cosmopolitas e os expansionistas de livre mercado discordam em questões relativamente fundamentais, eles são unidos em suas profundas desconfianças em relação às motivações dos restricionistas, que eles tendem a ver como preconceituosos de mente estreita. Enquanto isso, os restricionistas se dividem entre exclusionistas clássicos —que veem o pertencimento à comunidade nacional americana em termos raciais ou étnicos— e igualitários nacionalistas, que rejeitam o preconceito racial e étnico e acreditam que níveis mais baixos de imigração servirão melhor aos interesses da classe trabalhadora multirracial americana, incluindo imigrantes em dificuldades.

A visível batalha de hoje sobre a imigração vai encolher a coalizão restricionista, e não aumentá-la.

Enquanto os expansionistas de livre mercado e os cosmopolitas são cooperativos—um fornece a prosa enquanto o outro fornece a poesia—, exclusionistas clássicos e igualitários nacionalistas são outra história. Exclusionistas clássicos se afligem em preservar a maioria racial branca dos Estados Unidos, enquanto os igualitários nacionalistas querem um futuro americano mais misturado, no qual os descendentes de imigrantes negros e pardos possam ter a mesma probabilidade de ir parar no topo da hierarquia que os brancos. Para igualitários nacionalistas, os exclusionistas clássicos são uma força nociva.

Nos Estados Unidos modernos, o único jeito de os restricionistas vencerem é se exclusionistas clássicos forem marginalizados e igualitários nacionalistas assumirem o controle da pauta. Se igualitários nacionalistas conseguirem o que querem, a retórica da restrição à imigração se limitaria a reprimir empregadores inescrupulosos que exploram mão de obra imigrante ilegal, e não demonizar imigrantes ilegais como predadores perigosos.

O que nos leva de volta a Donald Trump. Em toda sua campanha presidencial, Trump misturou temas exclusionistas clássicos com igualitários nacionalistas. Enquanto seus defensores insistiam que ele era um igualitário de coração, seus detratores estavam igualmente convencidos de que Trump estava apelando para um chauvinismo racial. No final, a retórica de Trump não impediu que ele conquistasse a presidência, mas se o presidente e seus conselheiros acreditam que Trump pode governar da mesma forma como fez campanha, então eles quebrarão a cara.

Trump venceu ao ser mais esperto e mais persistente que os outros muitos candidatos à primária republicana e ao conquistar, nas eleições gerais, os votos de grandes números de pessoas que acreditavam que ele pudesse ser desonesto e possivelmente corrupto, mas que o viam como ligeiramente menos inaceitável do que sua principal adversária. Para conseguir essa façanha, ele teve de destruir uma série de oponentes —para fazer com que eles parecessem tão ruins quanto ele ou até piores. E ele foi extremamente eficiente ao atacar candidatos adversários. Uma guerra total contra seus adversários funcionou até o momento, então por que parar agora?

Mas ao governar você encontra desafios totalmente diferentes daqueles enfrentados em campanha. Em vez de destruir uma série de adversários, você precisa construir pacientemente amplas coalizões. Pelo menos é assim que costuma funcionar.

Ao longo do fim de semana, surgiu uma teoria sobre por que a ordem executiva de Trump havia criado tanto caos. Embora possa parecer que a gestão de Trump tivesse sido simplesmente incompetente, essa teoria alega que havia um processo de pensamento mais cínico em ação. E se alguns de seus conselheiros de maior confiança —Steve Bannon e Stephen Millher são os suspeitos mais citados— de fato gostassem da perspectiva de um caos nas portas de entrada dos Estados Unidos, como se acreditassem que uma saturada cobertura da imprensa polarizaria o eleitorado de formas que beneficiariam os planos de Trump para a imigração?

Se certas pessoas na Casa Branca de Trump realmente estão ansiosas por uma briga, essa é uma briga que elas não conseguirão ganhar. A visível batalha de hoje sobre se os Estados Unidos deveriam acolher refugiados, imigrantes e visitantes de alguns países de maioria muçulmana devastados pela guerra vai encolher a coalizão restricionista, e não aumentar.

Cosmopolitas e expansionistas de livre mercado se unirão em oposição à ordem executiva. Exclusionistas clássicos —as pessoas que se importam em preservar a maioria racial branca dos Estados Unidos— podem se unir em defesa de Trump. E igualitários nacionalistas —que se preocupam mais com o impacto da imigração sobre a classe trabalhadora do que com a suposta ameaça à segurança imposta por iranianos de 70 anos detentores de greencard que viveram por décadas nos Estados Unidos— se silenciarão. Para a Casa Branca de Trump, essa é uma fórmula perdedora.
 

Tradutor: UOL

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