Por que a Casa Branca acusa a mídia de estar criando notícias falsas?

Will Oremus

  • Getty Images/iStockphoto

A CNN, de acordo com o presidente Donald Trump, é "fake news". Qualquer pesquisa que repercuta mal suas ordens executivas sobre imigração e refugiados também é "notícia falsa", de acordo com o presidente. Na segunda-feira, seu secretário de imprensa Sean Spicer disse que uma matéria do "New York Times" sobre disputas de poder dentro da Casa Branca de Trump, bastante aprofundada, era não somente uma notícia falsa, mas "literalmente o epítome da notícia falsa".

Esse é literalmente o epítome de uma grosseira descaracterização. Você pode chamar até mesmo de mentira. Mas algumas declarações reveladoras dadas recentemente por representantes de Trump sugerem que essa é a forma errada de olhar para isso. Ao tratar as acusações de "notícia falsa" por parte da administração Trump como mentiras, dignas de refutações e desmascaramentos com provas, a mídia pode estar fazendo o jogo do governo.

Deveria ser evidente que uma história de 2 mil palavras, assinada em coautoria, na capa do "The New York Times" nas primeiras semanas do mandato de Trump, intitulada "Trump e sua Equipe Repensam Estratégia Após Tropeços", não é uma notícia falsa, muito menos um literal epítome da notícia falsa. (O epítome da notícia falsa seria algo mais como "O Papa Francisco Choca o Mundo Apoiando Donald Trump para Presidente", um artigo fictício publicado por um autoproclamado "site de notícias satíricas" que enganou centenas e centenas de leitores durante a campanha presidencial.) É possível que o artigo do "Times" contenha imprecisões, embora nem Trump nem Spicer tenham apontado nenhuma em particular. Seria justo questionar a credibilidade de muitas fontes anônimas nas quais o "Times" confiou para embasar sua reportagem. Existem várias formas de se criticar o "New York Times" --ou a CNN, ou institutos tradicionais de pesquisas-- com outras palavras que não envolvam chamá-los de "fake news", o que em si é uma alegação claramente falsa. Então por que Trump e seus assistentes estão tão cismados com esse termo?

Uma conversa entre um apresentador de rádio conservador e um assessor de Trump esta semana --destacada pela CNN na terça-feira-- rendeu uma resposta interessante. É claro que Trump e sua equipe sabem que a CNN, o "New York Times" e todo o resto não estão de fato fabricando notícias. Aliás, eles não estão de fato tentando convencer ninguém do contrário. Na verdade eles estão proferindo o termo "fake news" como um insulto para irritar a mídia, e para desviar a atenção do conteúdo das próprias notícias.

A explicação, surpreendentemente franca, veio de Sebastian Gorka, um vice-assessor do presidente Trump, em uma entrevista ao apresentador de rádio Michael Medved. Gorka, que já foi editor do Breitbart (site de extrema direita), certamente é familiarizado com o território turvo entre fato, ficção e propaganda na internet. Pressionado por Medved a responder sobre o porquê de a administração Trump sentir a necessidade de rotular pesquisas negativas como ficção, em vez de simplesmente apontar para sua falibilidade, eis o que Gorka disse:

"Existe um desejo monumental por parte da maioria da mídia --não somente os institutos de pesquisa, a maioria da mídia-- de atacar um presidente devidamente eleito na segunda semana de seu mandato. É esse o nível de insalubridade da situação. E até que a mídia entenda o quão errada é essa atitude, e como isso mina sua credibilidade, nós vamos continuar a dizer que são 'fake news'. Desculpe, Michael. Essa é a verdade."

Em outras palavras, quando Trump diz que a CNN e o "New York Times" são "fake news", ele sabe que o que ele está dizendo não é verdade. Que é, pelo menos segundo algumas definições, uma mentira. Mas vou optar por não chamar isso de epítome literal de uma mentira, porque definições mais cuidadosas da palavra requerem que uma falsidade seja criada com a intenção de enganar. Suponho que seja possível que Trump e seus assessores estejam esperando levar uma parte da população eleitora a acreditar que a CNN e o "New York Times" de fato inventam notícias do nada. Mas é revelador o fato de que Gorka e outros representantes de Trump nunca tentem de fato defender isso.

Quando Trump diz que algo é "fake news", ele não está fazendo uma reivindicação sobre a realidade, ou mesmo sua própria percepção da realidade; ele está simplesmente provocando a mídia. Assim como qualquer bom insulto, "fake news" é uma calúnia cuidadosamente selecionada para infligir o máximo possível de dano ao seu alvo. Em tempos em que a CNN e o "New York Times" estão lutando para se diferenciar de uma enxurrada de concorrentes na internet através da força de suas reportagens e de seus padrões editoriais, Trump está negando que eles sejam diferentes de qualquer forma significativa do mais baixo dos tabloides. Ao atacar a credibilidade de sua reportagem, ele os está atingindo onde mais dói.

Uma maior compreensão veio após a aparição na tarde de terça-feira da assessora de Trump, Kellyanne Conway, no programa de Jake Tapper na CNN, The Lead. Depois de questionar Conway sobre a falsa alegação de Trump de que a mídia deixou de cobrir diversos ataques terroristas, Tapper perguntou-lhe diretamente: "Nós somos fake news, Kellyanne? A CNN é fake news?" E Conway respondeu: "Não, não acho que a CNN seja fake news". E então ela se voltou para exemplos específicos de relatos da mídia que ela considerava imprecisos, enganosos ou injustos com Trump.

A resposta de Conway e a de Gorka parecem expor o presidente e seus porta-vozes como hipócritas, chamando aos outros de mentirosos enquanto eles mesmos mentem. Mas uma vez que vemos o "fake news" mais como uma calúnia do que como um diagnóstico, o uso constante da frase por parte da administração faz muito mais sentido. É parecido com a resposta gaguejante de Trump para Hillary Clinton durante um dos debates: "Você é que é a fantoche".

Insultos são o último recurso de um perdedor retórico; eles são o que restam depois que você se vê sem lógica ou provas. No entanto, eles podem ser extremamente eficientes se o alvo morde a isca, porque tiram a conversa dos trilhos e distraem do tema em questão. É só olhar para quanta tinta e quanto tempo a mídia dedicou na terça-feira a provar que eles haviam coberto os ataques terroristas que a Casa Branca disse na segunda-feira nunca terem sido cobertos. Quando Sean Spicer diz que a CNN é "fake news", ele está mudando de assunto, colocando em questão a credibilidade da mídia no lugar da de Trump. Cada minuto que a CNN gasta defendendo sua operação de investigação é um minuto gasto longe do tipo de reportagem original que fez com que a administração tivesse um chilique em primeiro lugar. É como se alguém o chamasse de "cuzão", e você respondesse dando-lhe uma aula séria sobre anatomia.

É possível vencer facilmente essa briga, assim como Tapper conseguiu fazer com que Conway admitisse que a CNN não é fake news. Mas vencer brigas com representantes da Casa Branca não é trabalho da mídia. Isso só confirma a imagem que o assessor de Trump Steve Bannon faz da mídia, como "o partido da oposição". O trabalho dela é informar --de forma justa, honesta e agressiva-- sobre o presidente e suas palavras, ações e planos mais dignos de serem noticiados. Com outro presidente, falsas alegações voltadas para a credibilidade de grandes grupos de mídia poderiam subir a esse nível. Mas com este, há falsidades muito mais importantes onde se deve focar.

Tradutor: UOL

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