Como tem sido ser um Donald para aqueles que não são Donald Trump

Heather Schwedel

  • Slate

    No centro, Donald Trump. Em sentido horário a partir da esquerda: Donald Faison, Pato Donald, Donald Sutherland, Don Draper, Donald Rumsfeld, Donald Glover

    No centro, Donald Trump. Em sentido horário a partir da esquerda: Donald Faison, Pato Donald, Donald Sutherland, Don Draper, Donald Rumsfeld, Donald Glover

Considerando o tanto de atenção que um certo Donald recebeu, o ano que se passou foi difícil para qualquer um que tenha o mesmo primeiro nome que o presidente. Não que tenha sido fácil para muçulmanos, hispânicos, imigrantes, mulheres, veteranos, jornalistas, o Judiciário, Jeb Bush, Hillary Clinton ou qualquer americano que se importe com as liberdades civis e a ortografia. Mas vamos pensar, só por um segundo, nos Donalds.

A começar por Donald Bell, um residente de 38 anos de Alameda, na Califórnia, um dos vários Donalds com quem falei depois de pedir a amigos e colegas meus que me fizessem a ponte com qualquer Donald que eles conhecessem e também procurando no Twitter. Ultimamente, ele disse, "fico mais sensível a respeito do meu nome quando o pronuncio em voz alta para as pessoas. Dá para ver que as pessoas quase estremecem sem querer, mas só de ouvir o nome as pessoas têm uma reação emocional. Se vou ao Starbucks pedir um café e perguntam meu nome,  preciso dizer meu nome e meio que pedir desculpas por isso".

Resumindo, "é meio que uma época constrangedora para se chamar Donald ultimamente".

Bell, que costuma estar entre os primeiros a adotar novas tecnologias, por acaso é dono do nome de usuário @Donald na plataforma de microblogging preferida de nosso presidente, e nos últimos anos suas menções têm sido repletas de palavras para aquele outro Donald. "Não importa o que venha, é sempre desagradável", ele disse. "Ou são pessoas que apoiam Donald Trump ou que são violentamente contra Donald Trump. É meio como uma visão deprimente do mundo".

Donald Burke, um residente de 29 anos de Washington, D.C. que atende por "Don", entende bem isso. "Eu odeio ser chamado de 'o Donald'", ele disse. "Você pode me chamar de qualquer outra coisa, mas isso é algo de que nunca gostei, ainda mais agora, é meio como 'Por favor, não coloque o 'o' na frente do meu nome, porque alguém já tornou isso ruim para nós'." Embora ele admita que "não é como se todos nós fôssemos parte de alguma sociedade secreta de Donalds ou qualquer coisa do tipo", isso não significa que ele não possa presumir que o 'o' é irritante para todos os Donalds.

Talvez Burke devesse sair de sua bolha. No decorrer da minha caça aos Donalds, por acaso entrei em contato com Donald Luskin, um estrategista econômico de Chicago que apoiou Trump nas eleições. Ele calcula que sua empresa, a MacroTrends, foi uma das primeiras a preverem a vitória de Trump. Então quer dizer que Luskin adora toda a atenção que ele está recebendo por causa de seu primeiro nome? "Não consigo pensar em um único caso no qual qualquer um tenha levantado essa questão", ele disse. Mas ainda assim ele transformou isso em algumas piadas, é claro. "Parte do meu trabalho é falar sobre desdobramentos políticos, então eu digo algo do tipo: 'Só quero deixar bem claro que sou somente um Donald, e não o Donald'." E é verdade. "Donald não é tão raro assim. Acho que é menos estranho do que se meu nome fosse Barack".

Embora Luskin tenha razão no sentido de que "Donald" não é exatamente como Pilot Inspektor, especialistas dizem que o nome há um bom tempo tem estado em franco declínio. De acordo com dados da Seguridade Social, Donald teve seu pico de popularidade nos Estados Unidos em 1934, ano em que o Pato Donald foi criado, e tem estado em queda desde então. "Mesmo Donald Trump nasceu na fase de declínio do nome Donald", disse Laura Wattenberg, a especialista em nomes por trás do site BabyNameWizard.com. Com exceção de Don Draper --"os anos de Don Draper, da série Mad Men, foram o auge do nome Donald", lamentou Donald Bell-- a maioria dos Donalds na cultura popular são mais velhos, e qualquer Donald que reste --como Glover, por exemplo-- tendem a ser batizados em homenagem a membros mais velhos da família. (Procurei Donald Sutherland e Donald Glover para esta matéria, mas ambos se negaram a comentar, através de representantes. Se é porque eles também não queriam ser associados a Trump, jamais saberemos.)

"Para ouvidos modernos, todas essas consoantes do nome Donald dito inteiro o deixam pesado", disse Wattenberg. "O estilo hoje tem muito a ver com vogais. O equivalente a Donald, Ronald, Gerald, Harold hoje seria Aiden, Hayden, Jayden, Kayden. Temos muitos sons de vogais longas, não muitas consoantes juntas como aquele --LD".

De acordo com especialistas em nomes e com os próprios Donalds, a maioria dos Donalds não usam o nome completo. Em geral eles são Dons, talvez Donnies. Mas não Trump, um fato considerado notável pelos Donalds com quem conversei. Como Bell colocou, "Eu sinto que todas as versões mais famosas, mais bem apessoadas de Donalds no mundo geralmente são chamadas de Don".

Segundo Wattenberg, "O nome inteiro Donald e o apelido Don passam impressões bem distantes, meio como Rodney e Rod, uma imagem muito diferente".

"Acho que ele provavelmente prefere a versão de seu nome que soa mais forte, que é Donald J. Trump, e não Don John Drumpf, que acho que soa um pouco menos altivo", cogitou outro Donald --no caso, Donald Moynihan, professor da Universidade de Wisconsin-Madison.

"O significado de Donald em certos livros sobre significado de nomes é governante do mundo", observou Burke, "o que me apavora!" Burke, que é estrategista de marcas por profissão, também vê a falta de um apelido como uma atitude pensada. "É sempre Donald Trump, primeiro nome e sobrenome, ou somente Trump. 'Trump fez isso, Trump fez aquilo'." Isso pode ter pelo menos ajudado a minimizar qualquer impacto negativo sobre o nome Donald, ele deduziu. "Graças a Deus".

Ainda assim, existe algo a respeito do nome Donald. "O único aspecto digno de nota do nome do presidente é o fato de que tanto o apelido quanto o nome tiveram uma pontuação extremamente alta na minha escala de sucesso", me contou por e-mail Albert Mehrabian, um professor emérito de psicologia que estudou nomes. De acordo com sua pesquisa, Don teve uma pontuação de 88 e Donald de 95 em um total possível de 100, em termos de "impressões geradas pelo nome em uma população geral".

Fiquei interessado em ouvir a opinião sobre a questão de mais um Don, aquele que por acaso é meu pai, então liguei para ele. Ele não adorou a comparação. "Não sou um escroque. Não engano as pessoas", ele disse, resumindo algumas diferenças básicas entre ele e seu xará. Nesse momento tentei esclarecer o mistério de toda uma vida sobre o porquê de seu nome ser somente Don, e não Donald. Mas antes que eu pudesse pedir sua certidão de nascimento, ele passou o telefone para sua assessora de imprensa, mais conhecida como minha mãe. "Não acho que isso suje o seu nome", minha mãe considerou. "Pessoas racionais sabem que cada um tem sua própria individualidade".

Ninguém tem mais sua própria individualidade do que Donald Trump. E a natureza sui generis de nosso presidente pode na verdade ter mantido a um mínimo a estigmatização dos Donalds. "É surpreendente que ninguém do meu círculo social tenha feito explicitamente essa associação", disse Moynihan a respeito de ser xará do presidente. "É uma coisa incrivelmente óbvia de se dizer, mas há tantas outras coisas a se dizer a respeito desse presidente que as pessoas tendem a fazer isso primeiro". Burke concordou. "A maioria das pessoas, pelo menos nos meus círculos, não quer fazer qualquer referência a ele. É como Voldemort". Isso não impediu que Burke pensasse um pouco na possibilidade de as coisas ficarem tão ruins a ponto de ele ter de abandonar seu primeiro nome: "Nesse caso, vou só começar a usar minhas iniciais, ou, sei lá, penso nisso quanto acontecer".

Moynihan não está preparado para desistir. "Acho que posso dizer isso em nome de todos os Dons ou Donalds do mundo, que é: esperamos que nosso nome não caia em infâmia".

Já Bell também não deixou que o problema com Donald arruinasse sua reputação. Por acaso ele consideraria algum dia vender seu cobiçado nome de usuário @Donald para Trump? ""Decididamente 'nunca'", Bell me disse. "Ainda tenho minha própria afeição pelo meu nome. Ainda não está tão ruim. Provavelmente existe um grupo de pessoas chamadas Adolf por aí que estão em pior situação do que eu".

Falando em coisas que tiveram seu declínio, será que os especialistas em nomes de bebês esperam um aumento de popularidade do nome Donald considerando sua vitória "sem presidentes"? [N.T.: do original "unpresidented", palavra inventada por Trump quando este quis dizer "unprecedented", ou sem precedentes.]

Wattenberg acha improvável. Normalmente, "até um furacão destruidor pode fazer com que o nome do furacão cresça em popularidade". Mas Wattenberg acredita que a presidência provavelmente não reavivará o nome Donald. "Donald provavelmente será um fracasso em matéria de estilo".

"O dicionário tradicional de nomes de bebês permite que a pessoa procure as origens linguísticas em alto-alemão antigo ou lhe diz qual raiz protocelta há por trás de Donald, mas não é isso que ouvimos quando ouvimos nomes", disse Wattenberg. "Estamos todos construindo o significado dos nomes todos os dias à medida que vamos vivendo, e não há dúvidas de que o significado de Donald mudou drasticamente ao longo do último ano".

Mike Campbell, que administra o site Behindthename.com, concorda que o nome Donald provavelmente não terá um revival, mas ele mencionou outra possibilidade. Citando a moda de sobrenomes presidenciais que estão virando primeiros nomes, como Reagan, Kennedy e outros, ele disse que "ficaria curioso em ver se Trump como primeiro nome algum dia entrará na lista dos 1.000 mais populares". Imagine isso, um bando de pequenos Trumps correndo no playground do seu bairro. Essa sim é uma oportunidade de branding.

Tradutor: UOL

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