O que está por trás das provocações de Kim Jong-un

Isaac Chotiner

  • AFP

O regime norte-coreano teve um mês agitado. O país começou lançando um novo míssil balístico, em resposta ao qual sua principal aliada, a China, suspendeu as importações de carvão. Então, na semana passada, Kim Jong-nam, filho do ex-governante da Coreia do Norte e meio-irmão do atual líder, Kim Jong-un, foi morto por duas mulheres em um assassinato bizarro em um aeroporto malasiano.

Enquanto isso, os Estados Unidos e a Coreia do Sul estão ambos em relativo caos, graças respectivamente à política externa febril de Trump (ele declarou anteriormente que negociaria com Kim) e ao governo conservador da presidente sul-coreana, tomado por escândalos. (Ela acabou de sofrer impeachment por corrupção.)

Para discutir esses eventos, eu me correspondi com B.R. Myers, um analista de ideologia e propaganda norte-coreana da Universidade de Dongseo, em Busan, Coreia do Sul, e autor de "The Cleanest Race" e "North Korea's Juche Myth" ("A corrida mais limpa" e "O mito da Juche da Coreia do Norte", ambos em tradução livre e não lançados no Brasil).

Ao longo de nossa correspondência, que foi editada e condensada para fins de clareza, nós discutimos os cálculos políticos de Kim Jong-un, a ingenuidade americana em relação à Coreia do Norte e o que a eleição de Trump mudou e não mudou na Península Coreana.

Isaac Chotiner: Qual é a importância do assassinato na Malásia? É apenas um sinal da paranoia de Kim?

B.R. Myers: Há mais por trás do que isso, considerando que Kim Jong-nam pôde visitar a Coreia do Norte sem incidentes em 2014. Um grupo de desertores proeminentes esperava torná-lo o líder de um governo em exílio, na esperança de minar a posição de Kim Jong-un junto à elite de governo. Quando você entende que a Coreia do Norte é na prática uma monarquia e que a linhagem é a principal fonte de legitimidade do ditador, o plano começa a fazer mais sentido.

A falta de interesse de Kim Jong-nam na vida política não importa. Os desertores estavam seriamente tentando colocá-lo no poder em Pyongyang, mas visando dividir e derrubar o Estado. Aparentemente Kim Jong-nam foi estúpido ou extrovertido o bastante para ter se encontrado com essas pessoas, mesmo que apenas visando rejeitá-las de forma definitiva, o motivo para Kim Jong-un ter pedido para que voltasse definitivamente para a Coreia do Norte. Ele se recusou. Parece que o ditador concluiu que seu meio-irmão estava tramando algo ou que sua simples existência poderia minar seu governo.

Athit Perawongmetha/Reuters
Jornal da Malásia publica foto do corpo de Kim Jong-Nam após envenenamento no aeroporto de Kuala Lumpur


Chotiner: Obama aparentemente disse a Trump que a Coreia do Norte seria sua maior dor de cabeça em política externa. A abordagem americana para a Coreia do Norte não deu muito resultado. Será que a disposição de Trump de considerar uma negociação faz mais sentido?

Myers: Não. A meta do armamento nuclear (norte-coreano) não é apenas segurança contra um ataque americano, algo que armamentos convencionais têm impedido desde 1953 e durante crises mais sérias do que o pequeno comentário do "eixo do mal" de George W. Bush, em 2002.

Como todo norte-coreano sabe, todo o sentido da política de colocar os militares em primeiro lugar visa a "vitória final", ou a unificação da península sob governo norte-coreano. Muitos observadores estrangeiros se recusam a acreditar nisso, com base de que Kim Jong-un não poderia desejar uma guerra nuclear. Mas eles estão ignorando o sentido.

A Coreia do Norte precisa da capacidade de atacar os Estados Unidos com armas nucleares para pressionar ambos os adversários a assinarem tratados de paz. Essa é a única grande barganha que sempre desejou. Ela já deixou claro que um tratado com Seul exigiria o fim de sua proibição de agitação política pró-Norte.

O tratado com Washington exigiria a retirada das tropas americanas da península.O passo seguinte, como Pyongyang sempre explicou, seria alguma forma de confederação Norte-Sul que defende desde 1960. Seria preciso ser muito ingênuo para não saber o que aconteceria em seguida. Como Kim Il-sung disse ao seu par búlgaro Todor Zhivkov em 1973, "se derem ouvidos para nós e uma confederação for estabelecida, será o fim da Coreia do Sul".


Nunca chegaremos a lugar algum se não enfrentarmos a verdadeira e assustadora natureza das metas da Coreia do Norte  B.R. Myers


Os moderados ocidentais ficam repetindo que os Estados Unidos deveriam negociar um tratado de paz com Pyongyang. É aí que seus artigos de opinião convenientemente terminam. Essas pessoas demonstram não ter consciência do que esse tratado significaria.

Elas são favoráveis a uma retirada das tropas americanas? Se sim, deveriam dizê-lo abertamente, em vez de fingir que a Coreia do Norte se contentará com garantias de segurança que rejeitou por décadas. Muitos observadores acreditam que quanto mais fortes os norte-coreanos ficarem, mais razoáveis se tornarão. Sempre que acho que já vi o ápice do pensamento fantasioso americano, descubro que ele pode ficar ainda mais tolo.

Chotiner: Você tem alguma ideia de como Trump está fazendo os governos de ambas as Coreias pensarem de forma diferente sobre suas políticas externas?

Myers: Não acho que tenha feito Kim Jong-un pensar de modo diferente. As estrelas estão se alinhando a favor da estratégia que herdou de seu pai. Enquanto a Coreia do Norte está aperfeiçoando seu arsenal nuclear, a China adquiriu poder para punir a Coreia do Sul por melhorar suas defesas antimísseis.

As pesquisas de opinião na Coreia do Sul agora favorecem fortemente o candidato presidencial de esquerda Mun Jae-in, que em 2011 expressou esperança pela formação acelerada de uma confederação Norte-Sul. Se ele ou outra pessoa da esquerda nacionalista assumir o poder, anos de acomodação sul-coreana com o Norte se seguirão, completos com imensa ajuda incondicional.

Isso ocorreu sob George W. Bush e a aliança sobreviveu. Mas é muito mais improvável que Donald Trump permita que um aliado ostensivo subverta as sanções da ONU e faça visitas a Pyongyang.

E Kim Jong-un sabe disso. Ele sabe que quaisquer garantias de segurança dadas por Trump a Seul foram feitas apenas ao atual governo conservador. Assim, Kim Jong-un tem uma melhor chance do que seu pai de pressionar a aliança ao ponto de ruptura. Com apoio da China, ele pode atrair um governo de esquerda sul-coreano e ao mesmo tempo afastar os americanos.

Tendo vivido na Coreia do Sul nos últimos 15 anos, não compartilho a confiança da maioria dos americanos de que o país sempre escolherá os Estados Unidos em vez de uma China que apoia a Coreia do Norte.

Minha própria impressão, reforçada pela atual controvérsia em torno da instalação do sistema antimísseis THAAD, é que um crescente número de sul-coreanos preferiria ver a segurança de seu Estado comprometida do que colocar em risco sua própria prosperidade.

Não vamos superestimar a ligação dos sul-coreanos com seu próprio Estado, que uma minoria considerável e influente ainda considera ilegítimo.

O filme mais popular em Seul no momento é um thriller sobre um esforço conjunto entre o Norte e o Sul para prender um grupo criminoso de desertores norte-coreanos. Essa trama lhe diz algo de cara. O principal personagem norte-coreano é interpretado por um ator bacana tipo Tom Cruise, enquanto seu par sul-coreano é um motivo de piada desajeitado e com aparência cansada. Há uma tradição na escolha deste tipo de elenco. O subtexto: servir ao Norte é glamouroso; servir ao Sul, nem tanto. Tenha em mente que Kim Jong-un também está assistindo esses filmes.

Chotiner: A decisão da China de proibir a importação de carvão sinaliza uma mudança da política em relação à Coreia do Norte?

Myers: Não acho. A recusa real ou fingida pela China de entender que o programa nuclear da Coreia do Norte força a Coreia do Sul a melhorar suas próprias defesas mostra onde realmente se encontra sua simpatia. Não acreditarei que as sanções estejam funcionando até que veja algum impacto real. Afinal, aqueles lançamentos de mísseis custam somas enormes de dinheiro.

Não me entenda mal: não estou dizendo que devemos desistir das sanções. Mas não estou convencido de que a China esteja fazendo um esforço de boa fé para que sejam eficazes.

Chotiner: A propaganda norte-coreana mudou recentemente? Como ela tem lidado com Trump?

Myers: Inicialmente, ela apresentou a ascensão de Trump como sinal do enfraquecimento do interesse americano na aliança e zombava dos conservadores sul-coreanos pela ansiedade deles em relação a ele. Agora que Trump reafirmou seu apoio ao governo em Seul, a propaganda voltou a vilificar ambos os adversários na mesma medida. (...) Mas estou certo de que a propaganda interna que os norte-coreanos recebem no trabalho permanece mais beligerante do que a que vemos no partido diariamente.

De qualquer modo, devemos parar de nos concentrarmos nas mudanças e nuances de curto prazo na propaganda norte-coreana e em vez disso entender a consistência fundamental de sua ideologia, que é mantida desde 1945.

Devemos levar essa ideologia a sério, por mais absurdo que possa parecer o culto à personalidade. Para um nacionalista radical coreano, a divisão da nação, da raça, é uma situação intolerável. Assim como a presença contínua do exército estrangeiro que efetuou essa divisão.

Se Kim Jong-un compartilhasse o amor de nosso líder por slogans, o dele diria: Torne a Coreia Unida de Novo. A unificação não é apenas central para a ideologia norte-coreana, mas a única solução certa e duradoura para seu problema de segurança. Isso torna a crise nuclear ainda mais difícil de resolver.

Mas nunca chegaremos a lugar algum se não enfrentarmos a verdadeira e assustadora natureza das metas da Coreia do Norte. Por décadas, nossos políticos e cartunistas zombaram dos líderes norte-coreanos como bebês aos berros que acenam mísseis apenas para chamar nossa atenção. Mas somos nós aqueles que precisam crescer.

Câmera de segurança mostra o ataque a Kim Jong-nam no aeroporto

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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