Trump chamou o oficial mais inteligente do Exército. Mas vai deixá-lo trabalhar?

Fred Kaplan*

  • Nicholas Kamm/ AFP

    O presidente dos EUA, Donald Trump (dir.), cumprimenta o general de exército H.R. McMaster

    O presidente dos EUA, Donald Trump (dir.), cumprimenta o general de exército H.R. McMaster

Ao escolher o general de exército H.R. McMaster como seu conselheiro de segurança nacional, o presidente Trump tomou sua decisão mais construtiva até o momento. Agora veremos se ele e seu círculo interno deixarão McMaster realizar seu trabalho.

McMaster é amplamente visto como o oficial mais inteligente do Exército. Seu serviço no Iraque e no Afeganistão como comandante de regimento e conselheiro do estado-maior atraíram aclamação justificada. Mas ele passou pouco tempo em Washington e não tem experiência nem mesmo em participar de reuniões interagências, muito menos dirigi-las.

Ele tem fortes laços com o secretário de Defesa, James Mattis, após conhecê-lo no Iraque quando este era um comandante de divisão e, juntamente com Mattis, McMaster provavelmente resistirá a políticas que adotem tortura ou pintem os países muçulmanos de modo geral como sendo hostis. Mas não está claro qual é posição de McMaster a respeito de outras questões que envolvem políticas, incluindo Rússia, China ou Israel, por exemplo. Alguns conselheiros de segurança nacional pressionam suas posições, alguns coordenam as posições de outros. McMaster pode estar mais inclinado à segunda abordagem. Se for o caso, vale notar que ele tem pouca paciência com burocracia e outras mundanidades organizacionais, o que significa que ele precisará de um excelente vice, o que por sua vez significa que a atual, K.T. McFarland, uma incompetente ex-comentarista da "Fox News" que realizou tarefas servis em governos anteriores, deve partir.

A primeira opção de Trump para conselheiro de segurança nacional, o vice-almirante Robert Harward, recusou a oferta em parte porque Trump não garantiu que ele poderia trazer sua própria equipe. Amigos de McMaster o aconselharam, ao ir para as entrevistas do último fim de semana com Trump, para que insistisse no direito de contratar e demitir pessoal, incluindo McFarland. Se ela e alguns poucos outros não renunciarem nos próximos dias, poderá ser um sinal ominoso de que McMaster terá menos liberdade do que precisará para realizar seu trabalho direito. Pode ter sido desajeitado, na condição de um oficial da ativa, McMaster fazer exigências ao comandante-em-chefe. Ele logo descobrirá, de qualquer forma, quanto poder terá.

A principal coisa que é preciso saber sobre McMaster, um general três estrelas do serviço ativo e vice-comandante do Comando de Treinamento e Doutrina do Exército, é que fez carreira falando a verdade para as pessoas no poder, com frequência de forma instintiva, sem o menor talento para bajular seus superiores. Ele deixou sua primeira marca com uma dissertação de Ph.D., escrita quando era major, intitulada "Abandono do Dever: Lyndon Johnson, Robert McNamara, Estado-Maior das Forças Armadas e as Mentiras que Levaram ao Vietnã". Contrariando a posição convencional do Exército nos anos 70 e 80, que culpava a derrota na guerra à microgestão civil e à mídia, McMaster criticou duramente os altos oficiais militares americanos por traírem seus deveres constitucionais, ao fracassarem em dar ao presidente sua avaliação militar honesta enquanto o país mergulhava em um atoleiro no Vietnã.

Quando a dissertação foi publicada como livro em 1998, ela conquistou a admiração de um punhado de altos oficiais (incluindo, para sorte de McMaster, o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, Hugh Shelton), que pediram para que todos os oficiais a lessem e aprendessem com ela. Mesmo assim, a maioria dos generais do Exército via McMaster como encrenqueiro, e é improvável que tivesse sido promovido além de coronel se não fosse por uma convergência improvável de eventos.

No início da guerra no Iraque, quando a invasão se transformou em ocupação e gerou uma insurgência, McMaster era o conselheiro chefe do general John Abizaid, chefe do Comando Central dos Estados Unidos. Nessa função, ele compilou (e leu) uma enorme biblioteca de livros e artigos, muitos deles há muito fora de catálogo, sobre contrainsurreição. Em 2005, McMaster assumiu o comando de um regimento do Exército cujos 5.200 soldados foram ordenados a libertar Tal Afar, uma cidade de um quarto de milhão de habitantes que tinha sido tomada pelos insurgentes. Aplicando as lições de seus livros, que enfatizavam não apenas táticas de combate, mas também desenvolvimento econômico e parcerias com líderes políticos locais, McMaster venceu a batalha e estabilizou a cidade.

Entre suas características como comandante que são particularmente pertinentes agora está o fato de ter ordenado a seus soldados que tratassem os detidos de forma humana e não usassem linguagem pejorativa ao lidarem com os muçulmanos.

Por volta da época do triunfo de McMaster em Tal Afar, alguns oficiais no Pentágono passaram a perceber que as coisas estavam indo mal na guerra. Eles formaram um "conselho de coronéis" para chegar a novas ideias sobre como vencer. O sucesso de McMaster o tornou um candidato natural para o conselho. Ele e seus colegas coronéis se debruçaram sobre arquivos confidenciais diariamente por três meses e produziram um briefing altamente confidencial, cujo primeiro slide dizia: "Estamos perdendo porque não estamos vencendo. E nosso tempo está acabando". As recomendações do relatório influenciaram enormemente o aumento de tropas ordenado pelo presidente Bush, assim como uma mudança na estratégia de contrainsurreição, no início de 2007. (Também levou Bush a nomear, para novo comandante no Iraque, o general David Petraeus, que orientava McMaster e outros nos bastidores o tempo todo.)

Mesmo assim, o conselho de promoção do Exército, formado por alguns dos generais mais enfadonhos em serviço, se recusou a dar a McMaster uma estrela de general. Quando o conselho se reuniu de novo, o novo secretário civil do Exército, um ex-congressista chamado Peter Geren, instigou uma reforma por conta própria. Geren passou muito tempo ouvindo o tenente-coronel John Nagl, outro oficial intelectual do Exército, que lutou no Iraque e agora realizava trabalho do estado-maior no Pentágono. Nagl se queixava em particular do desastroso conselho de promoção do Exército, que recompensava a mediocridade e ignorava os oficiais mais brilhantes. Nagl apontou em particular para a rejeição do coronel McMaster.

O secretário do Exército geralmente apenas carimba os nomes que lhe são dados pelo vice-chefe do estado-maior, mas Geren decidiu nomear os membros do conselho em 2008 pessoalmente, incluindo o general Petraeus como seu presidente. Era extremamente incomum chamar um general de comando em batalha para voltar para casa para uma tarefa administrativa, mas Petraeus viu a importância desse cargo. Seu conselho reanimou carreiras estagnadas de meia dúzia de oficiais criativos, incluindo McMaster.

De lá para cá, McMaster avançou constantemente de general uma estrela para duas, então três estrelas, principalmente em comandos que se concentravam na estratégia, doutrina e o futuro do Exército. Alguns amigos de McMaster dizem que ele estava considerando se aposentar (não estava claro se ele seria promovido a quatro estrelas) quando recebeu o telefonema para ir a Mar-a-Lago.

Após o vice-almirante Harward ter rejeitado a oferta de Trump, outros possíveis candidatos passaram a ser cogitados, mais notadamente Petraeus, que, segundo amigos, não estava disposto a aceitar o cargo e fez uma série de exigências, incluindo seu pessoal, acesso direto ao presidente e linhas de autoridade para o restante da burocracia da segurança nacional, que não foram atendidas. Funcionários da Casa Branca disseram que Petraeus não era mais um candidato quando listaram os quatro convidados a se encontrarem com Trump em seu resort na Flórida no fim de semana.

O nome mais famoso na lista era o de John Bolton, um ex-funcionário de Bush e um provocador neoconservador, cuja linha-dura em relação ao Irã poderia tê-lo feito cair nas graças de Trump, mas cuja posição igual em relação à Rússia não. Quase ninguém gosta da postura prepotente de Bolton e ele tem um bigode de morsa, que provavelmente ofenderia Trump, que dizem desprezar pelos faciais. Mas em uma nota desconcertante, Trump disse que convidaria Bolton "a trabalhar conosco em uma capacidade diferente", acrescentando: "Tivemos algumas reuniões muito boas com ele. Sabe muito. Ele apresentou muitas boas ideias e preciso lhes dizer que concordo com elas".

Outro candidato era o general de exército Robert Caslen, o superintendente da academia de West Point. Quando seu nome foi anunciado, um colega general e amigo de Caslen me disse: "Bob é um sujeito muito bacana, mas a última pessoa que eu escolheria" para o cargo. Outro general que também conhece bem Caslen o chamou de "um homem muito bom, mas que seria devorado vivo" na Casa Branca, acrescentando que ele "não tem conhecimento profundo de muitas das situações globais".

E o outro era o reformado general de exército Keith Kellogg, que já estava servindo como chefe de gabinete do Conselho de Segurança Nacional e que assumiu como conselheiro de segurança nacional após Trump ter pedido a renúncia do general de exército Michael Flynn. Kellogg é amplamente visto como um administrador competente, mas não mais que isso.

É incomum oficiais do serviço ativo serem nomeados assistentes do presidente para assuntos de segurança nacional (o título completo do cargo), apesar de não sem precedente. O então general de exército Colin Powell exerceu esse cargo sob o presidente Ronald Reagan. Mas na época Powell já era atuante em Washington, assim como um veterano de combate da Guerra do Vietnã. McMaster, uma pessoa de mentalidade independente em um Exército que não tolera muitos independentes, chega ao cargo (o mais badalado e menos provável dentre uma série de postos badalados e improváveis para o oficial) com o intelecto mais aguçado e o juízo mais rigoroso dentre aqueles que o assumiram em décadas. Veremos se isso basta para que possa se virar, ou prosperar, sob Trump e entre seu círculo.

*Fred Kaplan é autor de "Dark Territory: The Secret History of Cyber War", ou "Território Sombrio: a história secreta da ciberguerra", em tradução livre, ainda não lançado no Brasil.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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