Por que Luxemburgo e outros países estão entrando na corrida espacial?

Jacob Brogan

  • Indian Space Research Organization via AP

    15.fev.2017 - Foguete com satélite é lançado em Sriharikota, Índia

    15.fev.2017 - Foguete com satélite é lançado em Sriharikota, Índia

Eu li que a Índia recentemente virou notícia por ter lançado 104 satélites de um único foguete. Sempre pensei na corrida espacial como um confronto entre a Rússia e os Estados Unidos, mas aparentemente entraram outros países na disputa. O que está acontecendo?

As glórias da corrida espacial da Guerra Fria podem ter ficado no passado, mas muitas nações ainda estão tentando deixar a Terra para trás. O programa espacial da Rússia sofreu alguns percalços nos últimos anos, mas ele ainda existe e continua procurando cooperar com a Nasa. E os Estados Unidos, por sua vez, ainda têm projetos ambiciosos em andamento, incluindo uma missão da Nasa para capturar e redirecionar um asteroide nos anos 2020. A administração Trump supostamente estaria tentando acelerar tais esforços.

Enquanto isso, a China incrementou muito sua capacidade especial no século 21. Embora tenha ficado para trás durante o auge da corrida espacial, desde então ela cresceu a ponto de ter colocado seus próprios astronautas diversas vezes no espaço. Suas ambições incluem uma viagem planejada até o lado oculto da Lua e uma promessa de colocar humanos em Marte em um futuro próximo.

Mas não são só a Rússia, a China e os Estados Unidos, certo? Aparentemente entraram outros no jogo.

Muitos outros! Como a Agência Espacial Europeia, que continua sendo um ator proeminente. O Japão lançou um satélite de comunicações militar próprio em janeiro. Você já mencionou a Índia. A Nigéria tem um programa espacial surpreendentemente robusto, suficiente para ter a intenção de colocar um humano no espaço até 2030. E os Emirados Árabes Unidos expuseram seu ambicioso plano de 100 anos para implantar habitação humana em Marte até 2117.

Enquanto isso, há cada vez mais organizações privadas entrando na disputa espacial, muitas vezes em colaboração com instituições governamentais reconhecidas. Isso inclui empresas como a SpaceX de Elon Musk, que lançou com sucesso algumas missões para a Estação Espacial Internacional. Alguns dos assessores de Donald Trump parecem ter se interessado por esses esforços.

É claro, existem aqueles que estão construindo pontes entre ambições nacionalistas e privadas, e talvez o mais notável deles seja Luxemburgo, que está apostando na mineração de asteroides.

Luxemburgo?

É tão absurdo assim? Sim, é um país pequeno, mas como a revista "Wired" aponta, é "meio análogo a uma colônia espacial utópica: pequeno, confinado, receptivo a forasteiros, próspero, estável do ponto de vista político e psicológico". É também extraordinariamente rico, e quer ajudar os outros a ficarem ainda mais ricos ao garantir o direito de propriedade deles sobre qualquer coisa que consigam extrair de objetos extraterrenos.

E Luxemburgo não está sozinho no mercado de asteroides. Embora esteja voltada para atrair empresas privadas (entre elas, a Planetary Resources e a Deep Space Industries), a Nasa está realizando suas próprias pesquisas. Recentemente ela financiou uma missão de investigação robótica para o Psyche, que Marina Koren, da "Atlantic", descreve como um asteroide "feito de níquel e ferro... do tamanho do Estado de Massachusetts". O objetivo ali é basicamente aprender mais sobre a ciência da formação dos planetas, mas, como observa Koren, o Psyche em si pode valer trilhões de dólares em metais raros como o níquel e a platina. A ideia é que eles seriam muito mais disponíveis do que são na Terra. Para Luxemburgo, pelo menos, envolver-se ainda parece ser um investimento de risco relativamente baixo, com uma vantagem potencialmente imensa, presumindo que essas ideias algum dia sejam postas em prática.

Mas não temos problemas suficientes na Terra? Em qual universo isso vale a pena ser feito?

Para países que não são superpotências, entrar na disputa espacial pode ser uma maneira de se impor e defender seus próprios interesses. A Nigéria, por exemplo, lançou seus próprios satélites e supostamente os usou de formas diversas para fortalecer seus programas agrícolas e os empregou em conflitos regionais para fins de monitoramento. Isso permite que esse país relativamente pequeno dependa um pouco menos de potências mais estabelecidas.

Isso parece prático o suficiente, mas o senhor disse que a Nigéria estava tentando colocar pessoas no espaço. Qual a vantagem disso, seja para a Nigéria ou qualquer outro país?

Isso é mais difícil de responder, não importa o país de que você esteja falando. Uma resposta padrão que se costuma ouvir é que na verdade se trata de prestígio. Como Koren escreveu na "Atlantic", "Na China, as atividades espaciais, tanto civis quanto militares, são usadas para incitar sentimentos nacionalistas", uma suposição que provavelmente também vale para outros países. Enquanto alguns argumentam que existem somente vantagens científicas limitadas para voos espaciais tripulados, os benefícios políticos e estratégicos podem ser consideráveis. Isso é ainda mais verdadeiro quando se está falando sobre a conquista de façanhas realmente novas, como uma aterrissagem humana bem-sucedida em Marte ou, melhor ainda, a criação de alguma espécie de colônia no planeta.

Outros, como o ex-CEO da Lockheed Martin, Norm Augustine, sugerem que a ambição em si é importante. Colocar humanos no espaço e mantê-los vivos enquanto eles estão lá é algo tremendamente difícil. Mas o esforço para se superar esses desafios pode levar a outras inovações no caminho, já que dá às pessoas algo a se alcançar.

Isso só tem a ver com competição, ou existe cooperação também?

De muitas formas, a nova corrida especial tem a ver com nacionalismo: todos querem mostrar do que são capazes, e querem ser os primeiros a conseguir. É claro, parecemos estar em um momento em que o nacionalismo está em ascensão. Mas existe uma longa história de cooperação no espaço, sendo que sua mais poderosa representação continua sendo a Estação Espacial Internacional, que é operada pela Europa, pelos Estados Unidos, pela Rússia, pelo Canadá e pelo Japão. Mas interesses terrestres podem interferir mesmo nas amizades mais estelares, como descobrimos quando a Rússia ameaçou bloquear o acesso americano à Estação Espacial Internacional em retaliação pelas sanções impostas pela administração Obama em resposta à interferência russa nas eleições. É tudo que posso dizer, é difícil saber como a política intergovernamental do espaço se desdobrará nas próximas décadas.

Mas não há tantos fundos para atender a esses objetivos. Se ficarmos obcecados por mandar pessoas para fora da órbita, não corremos o risco de nos distrair de outros projetos?

É bem possível. Se ficarmos obcecados por ressuscitar as antigas glórias da corrida espacial, podemos acabar nos distanciando das coisas práticas e importantes que a Nasa está fazendo agora, em especial seus esforços para monitorar a mudança climática.

Existem leis internacionais para isso? Se eu conseguir chegar até Marte, posso simplesmente construir minha própria casa no Monte Olimpo?

A legislação especial, que é algo absolutamente real, tem uma longa e complexa história, e boa parte dela equivale ao Tratado do Espaço Sideral, que vários países, incluindo os Estados Unidos e a União Soviética, assinaram em 1967. Entre outras coisas, ele afirma que "o Espaço Sideral, incluindo a Lua e outros corpos celestes, não está sujeito à apropriação nacional por reivindicação de soberania, através do uso ou da ocupação, ou por qualquer outro meio". Isso basicamente significa que as nações signatárias não podem simplesmente fincar uma bandeira em Marte e afirmar que é parte de seu território, e ONGs também não podem fazer isso.

Mas e a lei luxemburguesa que o senhor mencionou, que permite que as pessoas reivindiquem coisas que encontraram no espaço?

É aí que as coisas se complicam. Essa lei --e uma lei similar aprovada pelos Estados Unidos --ameaça complicar as coisas ao operar na conjuntura de interesses nacionais e comerciais. Considerando que tratados mais antigos foram criados basicamente para lidar com a ameaça de armas orbitais e coisas do tipo, ou para incentivar uma cooperação internacional, a ascensão recente de empresas espaciais privadas podem desafiar essa compreensão do voo espacial centrada em termos de nação.

Digamos que consigam chegar até Marte --ou mesmo que comecem a voltar para a Lua-- quem de fato é dono do território?

Neste momento, isso não é algo fácil de responder. Como Sarah Laskow escreveu no "Atlas Obscura", empresários têm reivindicado propriedade sobre Marte desde pelo menos os anos 1950, e reivindicações sobre a posse da Lua são ainda mais comuns. É claro, parece improvável que qualquer uma delas se mantenha quando e se chegarmos ao Planeta Vermelho ou colonizarmos a Lua. As pessoas ainda estão tentando entender como dividir o lugar, mas ainda não temos nada como uma compreensão padrão de direitos extraterrenos. Isso é parte do que os países envolvidos em viagens espaciais --e as empresas que os representam-- terão de resolver enquanto nos encaminhamos para as estrelas.

Tradutor: UOL

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