Semana da Mulher

Como uma greve leva o Dia da Mulher de volta às suas raízes radicais americanas

Ruth Graham

  • AFP PHOTO / Andrew CABALLERO-REYNOLDS

A Marcha das Mulheres que ocorreu um dia depois da posse de Donald Trump foi quase certamente a maior manifestação em um único dia na história dos EUA. Segundo uma estimativa, pelo menos 3,7 milhões de pessoas foram às ruas em pelo menos 500 cidades --mais de um em cada cem americanos.

Nesta quarta-feira, o movimento que se reuniu em torno da oposição feminista a Donald Trump enfrentará seu próximo grande teste de organização. "Um Dia Sem uma Mulher", como as organizadoras da Marcha das Mulheres o estão chamando (depois do recente "Dia Sem Imigrantes"), destina-se e ser um "dia de ação" global, em que as mulheres farão greve do trabalho pago e não pago. "Acho que muitas mulheres estavam procurando o que mais poderia ser feito" depois do evento em janeiro, disse Carmen Perez, copresidente da Marcha das Mulheres. "Estamos esperando que isto seja nacional e mundial."

A mensagem do evento é um pouco menos precisa do que os apelos que levaram milhões de pessoas aos centros urbanos em janeiro: as organizadoras pedem que as participantes tirem um dia de folga, evitem compras exceto em pequenos negócios de propriedade de mulheres ou de minorias e/ou usem roupas vermelhas em solidariedade. Um grupo separado de organizadoras de movimentos, que começaram a planejar sua própria greve em outubro passado, a chama de Greve Internacional das Mulheres, ou apenas Greve das Mulheres, e encorajam uma série maior de atos. (As duas coalizões uniram forças, mas não sincronizaram exatamente sua marca.)

Ainda não está claro quantas mulheres atenderão ao chamado, e o que elas conseguirão. Mas um aspecto notável da ação está na própria data --8 de março, o Dia Internacional das Mulheres. Embora a maioria dos americanos conheça apenas vagamente a data, se a greve tiver êxito isso poderá mudar: significará que uma comemoração hoje global voltou a suas raízes radicais americanas.

O primeiro Dia Nacional das Mulheres oficial foi declarado em 1909 pelo Partido Socialista dos EUA, que realizou vários grandes eventos em um único dia na cidade de Nova York. Os organizadores escolheram um domingo, 28 de fevereiro, para que as mulheres trabalhadoras pudessem participar. Funcionou: os eventos atraíram milhares de pessoas, incluindo sufragistas e socialistas, que às vezes haviam se chocado no passado por prioridades e estratégias. "É verdade que o dever de uma mulher se concentra em seu lar e na maternidade", disse a escritora e reformista Charlotte Perkins Gillman a uma multidão no Brooklyn, "mas o lar deve significar o país inteiro, e não se limitar a três ou quatro cômodos em uma cidade ou um Estado".

Dentro de poucos anos, o conceito de um "dia das mulheres" para causas relacionadas ao trabalho e aos direitos das mulheres havia decolado na Europa. Segundo algumas estimativas, mais de 1 milhão de pessoas participaram de comícios em todo o mundo em 19 de março de 1911. Em 1917, a feminista russa Alexandra Kollontai liderou um protesto maciço que ajudou a produzir a abdicação do czar Nicolau 2º e a Revolução Russa. Em sinal de respeito, Lênin declarou o Dia da Mulher feriado oficial em 1922. Os comunistas da China e da Espanha começaram formalmente a comemorá-lo, e o Dia Internacional das Mulheres permaneceu um feriado comunista até meados dos anos 1960. Em 1975, a ONU reconheceu oficialmente 8 de março como Dia Internacional das Mulheres.

Os organizadores que reivindicam o Dia Internacional das Mulheres nesta semana não têm queixas sobre suas origens na extrema-esquerda, e na verdade tentam restaurar esse espírito.

Em muitos países, o Dia Internacional das Mulheres permanece um motivo popular de comemoração. Mas isso não quer dizer que as precursoras do feriado achariam as festividades adequadas. Na Argentina, o dia "hoje perdeu seu elemento político", enquanto os homens enchem as lojas para comprar flores e bijuterias para suas mulheres e namoradas. Na China, muitas mulheres ganham um tempo livre do trabalho, mas observações públicas tendem a se concentrar em compras e beleza. (No ano passado, um shopping center ofereceu descontos especiais no Dia das Mulheres para as que fossem consideradas bonitas por uma máquina de escaneamento.) O Dia das Mulheres na Armênia dá início a um mês não oficial de comemorações de temática feminina que culminam no Dia da Maternidade e da Beleza, em 7 de abril.

Nos EUA, o tom vermelho do feriado o fez cair rapidamente nas graças da corrente dominante, e até alguns anos atrás poucos americanos tinham ouvido falar nele. Recentemente, porém, conforme as empresas de marketing digital fluem através das fronteiras nacionais, os descendentes mais brandos e comerciais da data radical americana voltaram a nossas praias. Uma coalizão de corporações, incluindo BP e PepsiCo, hoje promove o Dia Internacional das Mulheres online, com hashtags e temas oficiais. (O deste ano é #BeBoldForChange [literalmente "Seja ousada para mudanças"])

Um "Google Doodle" em 8 de março no ano passado celebrou as "Mulheres dignas de doodles do futuro", pedindo que mulheres do mundo inteiro falassem sobre suas aspirações, das mais nobres (melhorar o acesso das meninas à educação) às mais divertidas (nadar com porcos nas Bahamas). Os americanos hoje podem encomendar um buquê do Dia Internacional das Mulheres para "homenagear uma mulher inspiradora na sua vida", ou comemorar comprando perfumes ou maquiagem cuja renda irá para causas ligadas ao empoderamento feminino. O capitalismo aquece seu feriado socialista!

A tensão sobre as origens radicais do Dia das Mulheres não é novidade. Uma história da origem há muito popular dizia que a data foi definida primeiramente em 1907 para marcar o 50º aniversário de uma enorme manifestação de trabalhadoras das confecções e têxteis em Nova York, cujo comício contra os baixos salários e jornadas de trabalho de 12 horas foi brutalmente reprimido pela polícia. Havia um pequeno problema nessa história inspiradora: nem o protesto de 1857 nem o tributo de 1907 parecem ter ocorrido de verdade. Duas historiadoras feministas francesas derrubaram o mito nos anos 1980, ao revelar que o levante do século 19 foi de fato inventado em 1955, em parte "para separar o Dia Internacional das Mulheres de sua história soviética".

As organizadoras que reivindicam o Dia Internacional das Mulheres nesta semana, em contraste, não têm queixas sobre suas origens na extrema-esquerda, e na verdade tentam restaurar esse espírito para o dia morno que se tornou. Ashley Bohrer, membro do comitê nacional de planejamento do Dia Internacional das Mulheres, descreveu a greve em parte como um esforço para atrair a atenção para o "desligamento do Dia Internacional das Mulheres de seu passado muito radical na classe trabalhadora". No início, indicou ela, o feriado muitas vezes foi chamado de Dia Internacional das Mulheres Trabalhadoras. "Nos últimos anos as pessoas comemoraram o 8 de março como o Dia das Mulheres", disse ela, "mas o que se perdeu foi a parte do 'trabalhadoras' e a do 'internacional'."

Será interessante ver quantas pessoas participarão da greve nesta semana e em que termos elas descreverão seu ativismo. A plataforma oficial da Marcha das Mulheres em janeiro foi incrivelmente progressista, com apoio ao acesso ao aborto, o movimento trabalhista e a reforma da imigração. Mas parte do sucesso definitivo do evento foi que ele manteve a vibração de um assunto amistoso e apartidário. Mães e filhas (e seus amigos e parentes homens) marcharam juntos no que as organizadoras chamaram de "exército do amor", e o uniforme quase oficial do evento foi um gorro de lã felpudo rosa.

Não há nada felpudo e rosa na Greve das Mulheres. Sua cor oficial é vermelho, a cor da revolução, do comunismo, da bandeira que flutuou diante da Comuna de Paris em 1871. Ela sugere que "elas estão abraçando uma história de luta revolucionária", disse a historiadora Estelle Freedman, cujas áreas de pesquisa incluem as mulheres e os movimentos reformistas sociais. O vermelho empurra para o lado a discussão sobre o rosa, disse Freedman, e diz algo mais ousado: "Vamos abraçar o vermelho da revolução".

 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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