Veto a refugiados já impediu entrada de 20 mil crianças judias nos EUA na 2ª Guerra

Ellen Umansky

  • ushmm.org/Slate

    St. Louis no porto de Hamburgo, na Alemanha, levando 900 refugiados

    St. Louis no porto de Hamburgo, na Alemanha, levando 900 refugiados

A proibição de entrada revista que o presidente Donald Trump emitiu na segunda-feira pode ter se enfraquecido em alguns lugares, mas o que permaneceu dela continua sendo tão hostil quanto antes, em relação a imigrantes e refugiados muçulmanos. Muitos de nós pensamos nos Estados Unidos como uma nação e nos ataques de Trump contra estrangeiros como uma aberração. O senador Charles Schumer disse que a proibição era "mesquinha e anti-americana". O "The New York Times" declarou que a ordem executiva corroeria a "honrada tradição do país de receber pessoas que estão fugindo de conflitos".

Mas embora tenhamos recebido multidões, o mais comum foi termos fechado as portas para elas—desde a Lei de Exclusão dos Chineses de 1882 e a antiga e discriminatória Lei da Imigração de 1924 até a recusa em receber o St. Louis, navio de refugiados.

Nossa rejeição a refugiados é uma parte incompreensível da história americana, e a proibição de Trump segue essa narrativa mais do que gostaríamos de lembrar. Mesmo durante a era Obama, permitimos a entrada de somente uma gota dentre os mais de 65 milhões de refugiados no mundo hoje —as entradas em 2016 tiveram um teto de 110 mil. (A ordem de Trump corta esse número em mais da metade, passando a 50 mil.)

Uma dessas manchas em nossa história reflete o momento presente de uma forma particularmente próxima. No final dos anos 1930, os Estados Unidos tiveram a chance de salvar 20 mil crianças judias que fugiam da perseguição nazista, através de um programa que teria imitado o Kindertransport britânico. A retórica usada por opositores desse programa —que provavelmente condenou a grande maioria desses jovens refugiados a destinos brutais em campos de concentração— é sinistramente parecida com o discurso que estamos ouvindo hoje.

A proposta nasceu após a Noite dos Cristais, os pogroms dirigidos por nazistas de novembro de 1938, quando milhares de lojas, casas, sinagogas e hospitais foram destruídos e milhares de judeus foram presos e enviados a campos de concentração. A notícia chocou o mundo. Mas nos Estados Unidos, com o país lutando para sair da Depressão e com o desemprego ainda sendo uma questão influente, havia pouca vontade política de flexibilizar a restrição das cotas.

Os britânicos responderam mais rapidamente. Uma semana depois do violento acontecimento na Alemanha, um grupo de proeminentes judeus britânicos, incluindo Chaim Weizmann, que mais tarde veio a se tornar presidente de Israel, procurou o primeiro-ministro Neville Chamberlain e aventou a ideia de admitir temporariamente crianças refugiadas no Reino Unido, cujo custo seria coberto pela comunidade judaica. Em poucos dias o governo britânico aprovou o plano. No dia 1º de dezembro de 1938, menos de três semanas depois da Noite dos Cristais, o primeiro trem partiu de Berlim com 200 crianças a bordo, cujos orfanatos haviam sido incendiados durante os pogroms. Dez dias depois, outro trem partiu de Viena.

A iniciativa britânica, com seu foco nas crianças, inspirou alguns a perguntarem por que os Estados Unidos não poderiam fazer o mesmo. "Há pelo menos 60 mil crianças judias ou parcialmente judias na Alemanha sob risco de fome, sem acesso a educação, sujeitas a um terror psicológico, quando não efetivamente físico", denunciou o "Nation" no dia 10 de dezembro de 1938. O Reino Unido "espera cuidar de aproximadamente 15 mil [crianças]. Podemos fazer menos do que isso?"

Dois meses depois, foi tramado um plano legislativo: o senador Robert Wagner, democrata de Nova York, e a deputada Edith Nourse Rogers, republicana de Massachusetts, apresentaram conjuntamente um projeto de lei para admitir 20 mil crianças refugiadas desacompanhadas de até 14 anos nos Estados Unidos. O projeto de lei estipulava que os custos dos cuidados com as crianças seriam cobertos pelo setor privado e, mais importante, que os refugiados admitidos não contariam nas cotas que limitam a imigração para os Estados Unidos.

Uma série de americanos proeminentes usaram sua influência para apoiar o projeto de lei: bispos e atores, o ex-presidente Herbert Hoover e o prefeito de Nova York Fiorello La Guardia. Até a primeira-dama informou o seu apoio. "Parece-me que é o que deve ser feito do ponto de vista humanitário", disse Eleanor Roosevelt em uma coletiva de imprensa quando lhe perguntaram sobre o projeto de lei.

Mas a oposição contra-atacou com pedidos de, sim, coloquem os Estados Unidos em primeiro lugar.

"Vamos proteger os jovens dos Estados Unidos dessa invasão estrangeira", trovejou John Trevor, presidente da Coalizão Americana de Sociedades Patrióticas, uma organização restricionista com um alcance de cerca de 2,5 milhões de membros. Trevor havia construído uma carreira para si atacando a imigração e seu pernicioso efeito sobre o caráter nacional dos Estados Unidos. Ele ajudou a moldar a Lei da Imigração de 1924, que estabelecia o restritivo sistema de cotas que foi projetado explicitamente para restringir italianos e judeus, excluía todos os japoneses e se manteve como a política americana durante 40 anos.

Não é difícil pensar em Trump, que alertou contra uma "base do terrorismo" se formando dentro dos Estados Unidos em seu pronunciamento recente para o Congresso e que também denunciou uma invasão estrangeira, chamando os refugiados sírios de "o maior Cavalo de Troia de todos os tempos".

De vez em quando o antissemitismo era escancarado e proferido sem cerimônias: "Vinte mil crianças encantadoras virariam rapidamente 20 mil adultos feios", observava Laura Delano Houghteling, prima do presidente Franklin Delano Roosevelt e mulher do Comissário de Imigração James Houghteling. Mas o mais comum naquela época, assim como hoje, era a oposição argumentar que a chegada de refugiados privaria os nascidos nos Estados Unidos e falava de forma mais eufemística sobre "internacionalismo" e "abrir as porteiras".

Em abril de 1939, quando estavam sendo realizadas audiências no Congresso sobre o projeto de lei dos refugiados, a "Fortune" conduziu uma pesquisa: se você fosse um membro do Congresso, você votaria a favor de aumentar o número de refugiados europeus que estão sendo admitidos atualmente? Oitenta e três por cento dos entrevistados disseram não. Um mês depois, o St. Louis se aproximou da costa da Flórida com 900 refugiados, mas foi recusado. A perspectiva de convidar 20 mil crianças para os Estados Unidos "está enfrentando uma oposição tão sincera quanto se elas fossem um horda invasora", relatou o "New York Herald Tribune".

Da Casa Branca, só vinha silêncio. Apesar de sua aprovação inicial, Eleanor Roosevelt nunca anunciou publicamente seu apoio, tampouco seu marido.

Quando chegou o verão, o projeto de lei havia sofrido emendas tão drásticas que as crianças refugiadas agora seriam incluídas na cota de imigração vinda da Alemanha, tirando adultos da lista. O senador Wagner disse que essa revisão era "totalmente inaceitável" e que ele preferia que "não houvesse lei nenhuma". Seu desejo foi logo atendido.

Durante os meses em que o projeto de lei americano foi debatido e exposto, o Kindertransports britânico continuou. De dezembro de 1938 até setembro de 1939, cerca de 10 mil jovens refugiados escaparam da Alemanha nazista. A maioria nunca mais voltou a ver seus pais. Muitos deles viraram adultos muito bem-sucedidos, incluindo o cineasta Karel Reisz, a geneticista Renata Laxova, a escritora Lore Segal, o químico vencedor do Nobel Walter Kohn e o político Lord Alfred Dubs.

Quem sabe o que 20 mil crianças que atendiam aos critérios para a entrada pela lei dos refugiados de 1939 poderiam ter realizado? Ou, ainda mais urgente pensar, o que poderia ser de um número similar de jovens refugiados sírios e sudaneses, se ao menos os deixássemos entrar.

*Ellen Umansky é autora do romance "The Fortunate Ones"
 

Tradutor: UOL

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