O que ocorre quando as poucas líderes mulheres do mundo sofrem impeachment?

Christina Cauterucci

  • Roberto Stuckert Filho/ PR

    24.abr.2015 - A então presidente Dilma Rousseff recebe a governante sul-coreana, Park Geun-hye

    24.abr.2015 - A então presidente Dilma Rousseff recebe a governante sul-coreana, Park Geun-hye

A Coreia do Sul depôs oficialmente do cargo Park Geun-hye, a primeira presidente mulher do país, na sexta-feira, depois de ela ter sofrido um impeachment em meio a um amplo escândalo de corrupção. Park deixa o cargo somente seis meses depois de a primeira mulher presidente do Brasil, Dilma Rousseff, ter sido alvo de um impeachment e ter sido deposta por manipular o orçamento federal.

A destituição de duas mulheres de altos cargos de liderança em países populosos dentro de um período tão curto causou um grande desfalque na já pequena proporção de chefes femininas de governo e de Estado. Um relatório recém-atualizado do Pew Research Center revelou que pouco mais de um terço dos países do mundo já teve uma mulher no cargo de chefe de Estado, e somente 15 o ocupam atualmente. (A lista dos líderes atuais não incluem Geun-hye, a presidente taiwanesa Tsai Ing-wen nem Aung San Suu Kyi de Mianmar, que, pelo fato de seu falecido marido e seus filhos serem estrangeiros, não pode ser presidente.) Das 146 nações com dados relatados pelo Fórum Econômico Mundial em 2014 e 2016, somente 56 tiveram pelo menos um ano com uma mulher como chefe de governo ou de Estado ao longo dos últimos 50 anos.

Em comparação com os homens, essas mulheres não duraram muito no cargo. Em 31 dos 56 países, as mulheres ocuparam o mais alto cargo por cinco anos ou menos, e em 10 deles, elas permaneceram somente um ano. A duração média de permanência no cargo dos líderes de nações do mundo é muito maior. Encabeçando os 56 países que tiveram pelo menos um ano de liderança feminina estão 13 países que tiveram mulheres como chefes de Estado ou de governo por menos de um ano, em geral de forma interina ou provisória. O Equador e Madagascar, por exemplo, tiveram mulheres como líderes por dois dias. É muito grande a probabilidade de mulheres serem  colocadas como líderes interinas ou bodes expiatórios com chances de fracassarem depois de homens terem causados escândalos ou se encrencado de alguma forma (Ver: Theresa May). Isso, nos negócios e na política, é conhecido como "penhasco de vidro".

Das 15 mulheres que estão liderando países em todo o mundo, 8 são as primeiras mulheres a ocupar esse cargo em suas nações. E, no mundo inteiro, é maior a probabilidade de mulheres ascenderem ao mais alto cargo de liderança no governo se for uma posição de primeiro-ministro designado em vez de presidente eleito. Em sistemas parlamentares, as pessoas em geral votam em partidos políticos e não em candidatos individuais, e membros de liderança de partidos muitas vezes são mais favoráveis a líderes mulheres do que o público geral. No palco nacional, ao lutar para ser vista tanto como durona quanto como humana, uma mulher enfrenta críticas mais severas altamente ligadas a gênero e contraditórias, não importa o que faça. Como primeira-ministra, ela só precisa provar seu valor a membros de seu partido, então habilidades como aptidão política e politicagem interpessoal passam a contar mais.

Foram países da Ásia que tiveram alguns dos mais longos períodos de governo feminino, com muitas das líderes mulheres desse continente oriundas de famílias de políticos já estabelecidos. Bangladesh teve duas líderes mulheres em um total de 23 anos desde 1992. A Índia teve um total de 21 anos de governo feminino; as Filipinas tiveram 16, e o Sri Lanka teve 13. A Europa também se saiu bem nesse sentido: a Irlanda está empatada com a Índia com 21 anos, a Islândia teve uma presidente ou primeira-ministra por 20 dos últimos 50 anos, a Noruega teve 13 e a Finlândia, 12.

A maioria das chefes de Estado e de governo do mundo foram substituídas por homens, e a maior parte dos países que tiveram uma mulher na liderança só teve uma em sua história. Dizem que uma segunda líder mulher de um país é o verdadeiro indicativo de progresso na igualdade de gêneros, porque os fracassos e as qualidades da primeira muitas vezes são atribuídos ao seu gênero. Quando mais de uma vez uma mulher ocupa o comando, a ideia de uma liderança feminina já não extraordinária.

É por isso que a destituição de Park e de Rousseff, ambas as primeiras mulheres a ocuparem o principal cargo de liderança em seus respectivos países, é tão preocupante para o futuro da justiça de gênero na Coreia do Sul e no Brasil. Raissa Tatad-Hazell, do National Democratic Institute, contou à "Fortune" no ano passado que o escândalo de Park "poderia ser usado por aqueles que não são grandes fãs da representação equitativa de mulheres" para desencorajar o avanço de futuras líderes políticas mulheres.

A campanha pelo impeachment de Rousseff foi tão visceralmente misógina quanto a campanha contra Hillary Clinton: Marc Hertzman, do "The Cut", relatou em abril passado que o guarda-roupa, o penteado e o corpo de Rousseff foram motivos de zombaria; adesivos de sua imagem com as pernas abertas foram colocados em torno das entradas dos tanques de combustível de carros; e ela foi chamada de prostituta e de todos os xingamentos imagináveis relativos ao seu gênero.

A questão aqui não é se Park e Rousseff são inocentes --elas não são. É o fato de que homens, incluindo o substituto de Rousseff, Michel Temer, cometeram ações similares ou muito piores e mantiveram seus cargos. Hertzman discorreu sobre isso em seu artigo sobre Rousseff:

Os dois presidentes anteriores do Brasil, Fernando Henrique Cardoso e o mentor de Rousseff, Luiz Inácio Lula da Silva, enfrentaram diversas acusações similares e, em alguns casos, mais graves, e nenhuma delas levou a um processo de impeachment. Enquanto isso, Eduardo Cunha, o líder da Câmara dos Deputados e arquiteto do impeachment, está sob investigação por corrupção e por recebimento de propina. Diferentemente de Rousseff, que nunca foi acusada de desviar para si dinheiro público, Cunha e vários outros políticos que lideraram a acusação contra ela são acusados de desviar somas absurdas de dinheiro dos cofres públicos para seus próprios bolsos. Além disso, Michel Temer, vice-presidente de Rousseff, também é acusado de corrupção, enquanto trabalhava avidamente contra Rousseff. Pelo menos por enquanto, ele parece destinado a substitui-la, o que constituiria o cúmulo de um caso sexista de dois pesos e duas medidas.

É impossível dizer se Park ou Rousseff teriam tido destinos diferentes caso fossem homens. Mas está claro que líderes mulheres, nos raros casos em que elas são eleitas ou indicadas, enfrentam padrões mais altos para o sucesso e, em muitos casos, parecem destinadas a deixar o cargo rapidamente ou simplesmente fracassar. Os países então acabam atribuindo um fracasso a todo um gênero, e políticas mulheres aspirantes ficam com um exemplo a menos para ajudá-las a resolverem o sempre desafiante quebra-cabeça de como se chegar ao topo.

Tradutor: UOL

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