Primeiro escalão de Trump sofre com falta de apoio e influência

Fred Kaplan

  • Nicholas Kamm/AFP/Getty Images

    O presidente dos EUA, Donald Trump, cumprimenta o general H.R. McMaster (esq) em seu resort em Mar-a-Lago, em Palm Beach, na Flórida

    O presidente dos EUA, Donald Trump, cumprimenta o general H.R. McMaster (esq) em seu resort em Mar-a-Lago, em Palm Beach, na Flórida

Os poucos adultos no gabinete de Trump estão sendo colocados de lado, com a experiência deles sendo ignorada, assim como a promessa de que poderiam escolher suas próprias equipes, uma garantia que lhes foi dada quando aceitaram seus cargos.

A cada dia que passa, fica mais claro que esse estrago deriva não do desleixo administrativo do presidente Trump, mas de uma estratégia deliberada de concentrar poder entre seu círculo de confidentes, e privar de poder todos os outros setores do governo federal.

Os críticos de Trump aplaudiram quando ele nomeou o general de exército H.R. McMaster, um dos oficiais mais inteligentes e insistentes do Exército americano, como seu conselheiro de segurança nacional após a saída de Michael Flynn devido a um escândalo.

Trump assegurou a McMaster que ele poderia limpar a casa no Conselho de Segurança Nacional, uma promessa que muitos presumiram que significava a saída iminente de K.T. McFarland, uma comentarista da "Fox News" que Trump nomeou como vice-conselheira de segurança nacional, e o desmonte da estrutura paralela no conselho montada pelo estrategista político da Casa Branca, Steve Bannon.

Mas passadas três semanas da posse de McMaster, não há sinal de que alguma dessas coisas tenha acontecido. E na última sexta-feira, McMaster tentou remover Ezra Cohen-Watnick, um assistente de Flynn de 30 anos, do posto de diretor de inteligência do Conselho de Segurança Nacional, mas foi indeferido por Bannon e por Jared Kushner, o genro de Trump.

Na outra margem do Potomac, no Pentágono, o secretário de Defesa, James Mattis, teve de retirar sua escolha para subsecretária de políticas após enfrentar desaprovação da mesma dupla. (A história oficial era de que alguns poucos senadores se oporiam à indicação dela, mas as preocupações deles poderiam ser facilmente superadas.) Mattis está irritado desde a posse devido às tentativas da Casa Branca de cercá-lo de incompetentes políticos e devido às repetidas rejeições de suas próprias escolhas.

Notavelmente, Trump não nomeou nenhum funcionário de segundo e terceiro escalão no Departamento de Defesa. O vice-secretário de Defesa de Obama, Robert Work, concordou em permanecer no cargo até que um substituto fosse encontrado.

Mas todos os subsecretários e secretários assistentes restantes no dia da posse (alguns por opção, outros por insistência da Casa Branca) e as pessoas que ocupam cargos de forma interina são novatas e sem autoridade para falar em nome do governo Trump.

O Departamento de Estado é uma casca ainda mais vazia. Assim como o Pentágono, Trump não nomeou nenhum vice, sub ou secretário assistente. A escolha de Tillerson para ser seu vice, Elliott Abrams, um ex-funcionário da Casa Branca de Bush, foi rejeitada por Trump após este saber que ele o criticou durante a eleição. E assim Tillerson roda o mundo sozinho, acompanhado nem pelo corpo de imprensa e nem por uma comitiva aprovada por Trump, assegurando aos aliados que os Estados Unidos ainda estão comprometidos com sua segurança.

Enquanto isso, Trump se encontra com líderes estrangeiros na Casa Branca ou em seu resort na Flórida acompanhado por Bannon, Kushner e às vezes alguns poucos outros, mas não de Tillerson ou qualquer outra pessoa de Foggy Bottom ("Baixada Nebulosa", apelido da sede do Departamento de Estado, que vem do nome do bairro onde fica situado), um apelido que nunca foi mais apto.

O que os adultos podem fazer a respeito? Não muito. Mattis já exerceu sua influência em pelo menos duas ocasiões. A primeira ocorreu logo cedo, quando se opôs vigorosamente à minuta de ordem executiva (algo semelhante a uma medida provisória no Brasil) que retomaria as operações da CIA (Agência Central de Inteligência) em prisões secretas e reabria o debate sobre tortura. (Mattis tomou conhecimento da minuta por reportagens em jornais.) Trump recuou, dizendo que discordava de Mattis, mas que cederia a ele a respeito das políticas de tortura.

O segundo incidente ocorreu mais recentemente, quando Mattis entregou um ultimato a respeito de Mira Ricardel, uma conselheira de Defesa de Trump, atualmente no Escritório de Funcionários da Presidência, que estava barrando as escolhas de Mattis. Ou ela sai ou eu saio, Mattis disse à Casa Branca, segundo a edição de quarta-feira da "Defense News". A Casa Branca recuou, transferindo Ricardel para outra posição, por ora.

Mattis imagina ter uma influência considerável. O Senado o confirmou, apesar de generais recém-reformados serem impedidos por lei de se tornarem secretários de Defesa, a menos que ambas as casas do Congresso aprovem uma exceção, precisamente por ele ser visto como um contrapeso para Flynn e, no final, Trump.

Se Mattis renunciar, especialistas em segurança nacional no Capitólio, no mundo dos centros de estudos e entre os aliados dos Estados Unidos entrariam em pânico. Mas há um limite para alguém na posição dele poder ameaçar renunciar e sua influência diminui (já que passa a ser visto cada vez menos como alguém que joga em equipe) toda vez que coloca seu destino em jogo.

McMaster está em uma posição ainda mais desajeitada. Ele ganhou fama 20 anos atrás como autor de uma dissertação que virou livro, criticando o Estado-Maior das Forças Armadas por fracassar em dar um conselho militar honesto ao presidente Lyndon B. Johnson durante a Guerra do Vietnã. McMaster era um mero major quando a escreveu.

A obra poderia ter encerrado sua carreira, mas o general Hugh Shelton, o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas na época da publicação, gostou do livro e passou a defender o autor. McMaster construiu um retrospecto sólido nas décadas desde as guerras no Iraque, mas sua reputação se baseia principalmente em sua insistência para que seus subordinados falem a verdade a seus superiores.

Mas diferente de outros generais que assumiram o posto de conselheiro de segurança nacional, McMaster se mantêm como um general três estrelas da ativa, de modo que não deve ver o presidente apenas como objeto de seus conselhos, mas também como seu comandante-em-chefe.

Como consequência, há um limite até onde pode ir, não tão longe na hora de contestar o presidente quanto fez Mattis, que pendurou sua farda há três anos, muito menos fazer exigências ou ultimatos. (Foi precisamente por esse motivo que o general de exército Brent Scowcroft se aposentou das forças armadas depois que o presidente George H.W. Bush o nomeou conselheiro de segurança nacional: Scowcroft queria evitar os pontos de vista conflitantes potenciais.)

Agora, de certo modo, Mattis e McMaster estão presos. Olhando em volta, eles provavelmente sentiram que a equipe de Trump é muito mais desequilibrada do que esperavam. Por um lado, o senso de integridade deles, somado às traições e caos, poderiam tentá-los a renunciar. Por outro, o senso de patriotismo deles poderia compeli-los a permanecer: quando alguma crise internacional ocorrer, é melhor que alguém com cabeça limpa e equilibrada esteja próximo do poder.

Tanto Mattis quanto McMaster estão em uma situação difícil também por outro motivo: por mais inteligentes e hábeis que sejam, nenhum deles jamais exerceu um cargo poderoso em Washington. (Exceto por uma breve passagem pelo informal "conselho dos coronéis" para "pensar de forma criativa" a respeito da guerra no Iraque, McMaster nunca trabalhou em Washington.) Eles não sabem transitar no meio político de alto escalão.

Fora do Oriente Médio, onde passaram grande parte do tempo de suas posições de comando, eles tiveram pouca experiência lidando com política global ou com política externa. Eles precisam de subordinados fortes para ajudá-los a moldar suas posições sobre os assuntos e proteger seus flancos na frente doméstica. No momento, eles não contam com isso e grande parte disso se deve a Trump de forma deliberada.

Quando escrevi em 9 de fevereiro que passadas três semanas de sua presidência, Trump ainda não tinha nomeado nenhum funcionário para postos abaixo de secretários do gabinete, sua inação poderia ser atribuída à sua inexperiência. Agora, cinco semanas depois, essa deixou de ser uma desculpa plausível. Trump passou toda sua vida em uma empresa familiar que passou a controlar, e vê seu cargo atual da mesma forma: como uma posição de poder desenfreado, poder que só é delegado a parentes e amigos leais.

(Um artigo de terça-feira do "New York Times" revela quão profunda é essa tendência. O homem de frente de Trump para as negociações entre israelenses e palestinos, por exemplo, é o advogado de longa data de sua empresa, cuja única qualificação para o cargo é de costumar passar suas férias em Israel.)

Mattis, McMaster e Tillerson não se encaixam nesse quadro. Trump pode ter achado que sim quando os escolheu. Ele ouviu que o apelido de Mattis, de sua época entre os fuzileiros, era "Cachorro Louco". Quem diria que ele levava uma edição de "Meditações" de Marco Aurélio em sua mochila durante os combates; que possuía uma biblioteca com 6.000 livros e os consultava regularmente à procura de lições; que era contrário à tortura, já tendo dito a Trump que poderia extrair mais de um detido com um maço de cigarros e algumas cervejas.

Trump ouviu dizer que Tillerson era um grande negociador na ExxonMobil. Quem diria que era tão devotado a organizações multilaterais como a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte, uma aliança militar ocidental)? Todos esperávamos que Mattis, McMaster e, em certo grau, Tillerson adicionariam uma dose de sanidade e experiência ao narcisismo instável de Trump. Talvez ainda consigam. Mas Trump é um jogador perspicaz de jogos de poder fechados. Ele parece os estar derrubando mais do que eles o estarem contendo.

Atualização: Logo após a publicação desta coluna, a revista "Politico" (citando fontes no governo) anunciou que Dina Powell foi nomeada vice-conselheira de segurança nacional para estratégias. Ela trabalhará "ao lado" de K.T. McFarland, mas parece que Powell, atualmente uma conselheira econômica de Trump e ex-funcionária de Bush que desenvolveu um relacionamento de trabalho estreito com McMaster, liderará as reuniões interagências de vice-secretários do Gabinete. Isso representa uma boa notícia para a influência de McMaster. Será o afastamento de Bannon do Conselho de Segurança Nacional o próximo passo?

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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