Análise: Como o Ocidente pode se defender da interferência da Rússia de Putin

Yascha Mounk

  • Mikhail Klimentyev/Associated Press

    Putin se reúne no Kremlin com Le Pen, candidata da extrema direita na França

    Putin se reúne no Kremlin com Le Pen, candidata da extrema direita na França

Dois anos atrás, quando Garry Kasparov, o campeão de xadrez que virou dissidente político, começou a advertir que Vladimir Putin pretendia minar a democracia liberal --não apenas nos países vizinhos, mas em todo o Ocidente--, ele foi amplamente desprezado como um excêntrico.

Depois que a Rússia conseguiu invadir os servidores do Comitê Nacional Democrata e espalhar notícias falsas em escala industrial, as advertências de Kasparov finalmente foram reconhecidas como premonitórias. Mas foi somente nas últimas semanas, enquanto jornalistas do mundo inteiro faziam dezenas de reportagens sobre a interferência russa no processo democrático dos EUA, que a escala desse esforço se tornou aparente.

A imprensa americana está compreensivelmente enfocada em destrinchar a estranha rede de ligações entre o Kremlin e a Casa Branca de Donald Trump. Por isso, nestas praias quase não se notou que a Rússia esteve:

- Apoiando ativamente a populista de extrema-direita Marine Le Pen, cuja vitória nas próximas eleições presidenciais francesas poriam em risco a própria sobrevivência da União Europeia.

- Intensificando uma operação de mentiras maliciosas sobre Emmanuel Macron, o principal adversário de Le Pen.

- Afirmando que Chrystia Freeland, a ministra canadense de Relações Exteriores e uma crítica declarada de Putin, tem uma implicância ancestral contra a Rússia.

- Forjando laços mais estreitos com a Alternativa para a Alemanha (AfD), partido estridentemente antimuçulmano, antiamericano e às vezes simpático aos nazistas ("O grande problema", disse recentemente um de seus expoentes a "The Wall Street Journal", "é que eles retratam Hitler como absolutamente mau").

- Tentando embaraçar governos europeus que aceitaram grande número de refugiados, inventando histórias sobre seus erros --ou mesmo oferecendo-se para pagar aos jovens de um subúrbio problemático de Estocolmo para se rebelarem diante da câmera.

- Aliando-se a qualquer partido disposto a seguir a aposta de Moscou: na Itália, por exemplo, a Rússia Unida de Putin acaba de assinar um acordo de cooperação com a Liga Norte, de extrema-direita --mas simultaneamente iniciou conversações para um acordo semelhante com o Movimento Cinco Estrelas, nominalmente de esquerda.

"As autoridades russas se atrapalham quando o plano para deslegitimar a democracia ocidental avança muito mais depressa do que se pretendia", disse uma recente manchete no site humorístico "The Onion". É uma boa piada. Mas a verdade assustadora é que a Rússia está reforçada, e não atrapalhada, por seu sucesso. Depois de uma vitória espetacular nos EUA, o país agora está redobrando esforços para minar a democracia do Canadá à Croácia, da Grécia à Suécia.

Há algo surpreendente em tudo isso. Na época da Guerra Fria, o Kremlin tinha profundos motivos ideológicos para pensar que os EUA e a União Soviética estivessem empenhados numa luta para dominar o mundo.

A teoria do socialismo científico, sobre a qual a sociedade soviética supostamente foi construída, previa que o comunismo conquistaria a Terra. A menos que os trabalhadores do mundo mostrassem algum ímpeto de avanço, a legitimidade da União Soviética seria assim posta em dúvida.

Havia também um imperativo prático para se exportar o comunismo: como os países capitalistas e comunistas mal comercializavam entre si, adicionar um país tecnologicamente avançado como a Itália ou a França à coluna comunista daria à União Soviética um enorme reforço econômico.

Os motivos para o choque atual, em comparação, parecem muito menos profundos. A legitimidade do regime de Putin não depende de exportar sua forma de capitalismo pelo mundo. Ele tampouco se beneficiaria economicamente de uma mudança de regime: desde que respeitasse a soberania dos países vizinhos, a Alemanha e os EUA ficariam muito felizes em negociar com esse regime cada vez mais cleptocrático.

Como Putin tem poucos motivos óbvios para comprometer os recursos minguantes de seu país em uma grande luta contra a democracia liberal, é tentador rejeitar suas extravagâncias como um blefe desesperado. Mas isso seria um erro. Embora possa parecer absurdo que a história do confronto ideológico entre o Leste e o Ocidente esteja se repetindo em sua mente, Putin parece convencido de que a Rússia só poderá prosperar se a democracia fracassar.

Não é apenas que, como foi amplamente noticiado, Putin acredita que o colapso da União Soviética foi "a maior catástrofe geopolítica do século [20]". Nem que, como relatou Joshua Keating, ele se sente profundamente diminuído pelo Ocidente e agora deseja se vingar. O que importa são as conclusões abrangentes que ele extrai dessas duas premissas.

A Rússia, no entender de Putin, só poderá recuperar seu antigo poder se estabelecer uma esfera de influência robusta e de longo alcance, o que não poderá fazer enquanto países vizinhos como Geórgia e Ucrânia puderem determinar seu próprio destino. E ele está convencido de que a Rússia nunca terá o verdadeiro respeito dos outros países enquanto for um forasteiro autocrático rodeado por países democráticos.

Se Putin está agindo racionalmente, portanto, depende do que se deseja considerar um objetivo racional. Se afirmarmos que ele está meramente tentando cimentar seu governo e ampliar a economia russa, seus atos têm pouco sentido. Mas se entendermos que ele está tentando fazer da Rússia uma grande potência capaz de instilar medo em seus inimigos e servir de modelo para seus vassalos, ele está jogando de forma magistral a mão medíocre que lhe foi dada.

O que podem então fazer as democracias ocidentais para se defenderem do ataque concertado de Moscou?

O primeiro passo é levar a ameaça representada pelas novas formas clandestinas de guerra muito mais a sério do que as democracias ocidentais fizeram até agora. Os legisladores republicanos que afirmam ser duros sobre segurança nacional, mas ofuscam o grau em que uma potência estrangeira interferiu na eleição presidencial do ano passado, são um exemplo especialmente vergonhoso de complacência.

Mas outros países não ficam muito atrás: na Alemanha, por exemplo, grande parte do público mal sabe que os servidores do Parlamento federal já foram invadidos e que vazamentos semelhantes poderão surgir antes das eleições nacionais neste outono. Em parte por causa disso, as tentativas de se melhorar as defesas cibernéticas do país avançam muito lentamente.

O segundo passo é fechar os canais legais pelos quais as potências estrangeiras podem influenciar a política ocidental. Os EUA há muito têm leis fortes para impedir que estrangeiros deem dinheiro a partidos ou candidatos americanos. Até que me tornei um cidadão, no início deste mês, por exemplo, teria sido ilegal eu doar para campanhas políticas.

De modo incrível, países europeus como França ou Alemanha não têm regras semelhantes nos livros. Em consequência, é perfeitamente legal que a Rússia dê ajuda financeira aos populistas --de direita e de esquerda-- que a apoiam. Essa brecha poderia facilmente ser fechada se houvesse vontade política. Até agora, não houve.

O terceiro passo é reconhecer que uma reação de sucesso às novas formas de desinformação terá de mobilizar artistas e professores, assim como políticos e corporações. Na Guerra Fria, os países da América do Norte e da Europa Ocidental reagiram ao desafio ideológico à democracia liberal investindo recursos reais na expansão da educação cívica e explicando o valor de seus sistemas políticos. Escolas e universidades compreenderam que uma grande parte de sua missão era educar os cidadãos para que compreendessem a política e se dispusessem a defender suas liberdades.

Hoje, esse sentido de objetivo se desgastou. A maioria das escolas e universidades estão tão concentradas em preparar seus alunos para profissões lucrativas que abandonaram seu objetivo maior de formar cidadãos responsáveis.

Como afirmaram o deputado Lee Hamilton e a juíza da Suprema Corte Sandra Day O'Connor quase uma década atrás, "a educação cívica esteve em declínio constante na última geração, enquanto testes difíceis e uma ênfase na alfabetização e matemática dominaram as reformas escolares". "Muitos jovens hoje não compreendem como funciona nosso sistema político."

O quarto passo relacionado é que escritores e acadêmicos repensem seu papel na sociedade. Há muito nos imaginamos intelectuais críticos cuja principal tarefa é indicar todas as injustiças que vemos a nosso redor --e desconstruir as narrativas grandiosas sobre os valores do iluminismo ou a genialidade dos Pais Fundadores.

Continua importante ser crítico, é claro. Não adianta negar que a realidade vivida nas democracias liberais em todo o mundo muitas vezes fica aquém dos valores iluministas sobre os quais elas foram construídas. Mas nesta era perigosa não é mais suficiente que os escritores e intelectuais adotem a posição pseudorradical de apontar tudo o que há de mau no mundo. Em vez disso, a verdadeira coragem intelectual hoje consistiria em buscar as palavras capazes de explicar ao mesmo tempo por que vale a pena preservar a democracia liberal e como seus defeitos podem ser reparados.

Esta não é a primeira vez que o Kremlin tenta minar a estabilidade das democracias ocidentais. Em 1946, George Kennan previu no "Long Telegram" que Moscou usaria os partidos políticos radicais "para pressionar os governos capitalistas segundo linhas adequadas aos interesses soviéticos", enquanto travaria "uma batalha incansável" contra os líderes moderados.

Na época, esses líderes moderados foram cada vez mais enfáticos sobre a necessidade de defender a liberdade e trabalharam incansavelmente para proteger seus países da infiltração soviética. Mas eles também realizaram algo mais importante: puderam oferecer a seus cidadãos progressos tangíveis em seu padrão de vida e lhes dar esperanças sobre o futuro.

Durante a era do pós-guerra a economia cresceu rapidamente, e uma grande parcela da população gozou dos frutos desse progresso. Uma afluência ainda maior parecia estar logo após a esquina. Em consequência, a maioria dos cidadãos desenvolveu um profundo compromisso com suas instituições democráticas. Com poucas exceções, a campanha do Kremlin de cooptação e desinformação caiu em ouvidos moucos.

Para derrotar as recentes tentativas do Kremlin de minar a democracia, os líderes políticos precisam enfrentar os novos riscos do século 21. Mas mesmo nesta nova era eles podem aprender muito estudando as velhas receitas de sucesso: para proteger nossas liberdades, precisam trabalhar melhor para articular por que vale a pena preservar a democracia liberal --e reconhecer que uma distribuição mais justa dos ganhos do crescimento econômico é uma questão não apenas de justiça social, mas também de estabilidade política. 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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