Como Donald Trump difere de outros homens-fortes do mundo

Isaac Chotiner

  • Slate

    O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan (esq), e o premiê da Índia, Narendra Modi

    O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan (esq), e o premiê da Índia, Narendra Modi

A Índia é descrita com frequência como sendo a maior democracia do mundo, dando assim a impressão de que o país não tem nada em comum com um lugar como a Turquia. Apenas no ano passado, este último passou por uma tentativa de golpe, um expurgo em grande escala promovido pelo regime em instituições fundamentais e um presidente que parece cada vez mais instável.

Mas como Basharat Peer deixa claro em seu novo livro, "A Question of Order: India, Turkey and the Return of Strongmen" (Uma questão de ordem: Índia, Turquia e o retorno dos homens-fortes, em tradução livre, ainda não lançado no Brasil), os dois países podem ter mais semelhanças do que você poderia imaginar.

Peer, um editor de opinião internacional do "New York Times" e um colaborador da revista "New Yorker", cresceu na Caxemira administrada pela Índia, a região disputada (e altamente oprimida) que faz fronteira com o Paquistão.

Em seu novo livro, ele escreve sobre suas experiências viajando e fazendo reportagens tanto na Índia quanto na Turquia, descrevendo como dois líderes altamente controversos, Narendra Modi e Recep Tayyip Erdogan, fazem uso de demagogia para cimentar seu poder. (Modi foi por muitos anos impedido de viajar para os Estados Unidos por seu papel na incitação de violência e limpeza étnica contra muçulmanos no Estado que ele governava.)

Eu falei com Peer por telefone nesta semana. Ao longo de nossa conversa, que foi editada e condensada para fins de clareza, nós discutimos o estado da oposição tanto na Índia quanto na Turquia, por que os líderes não necessariamente "amadurecem" quando estão no cargo e como Donald Trump difere de outros homens-fortes do mundo.

P.: O que fez você decidir casar Índia e Turquia em um livro sobre o retorno dos homens-fortes?

R.: Inicialmente, meu professor em Columbia, Nick Lemann, me perguntou se eu queria fazer algo a respeito da Índia e Modi. Mas no instante em que você começa a falar sobre a Índia, você percebe que isso não está acontecendo apenas lá. Nós conversamos sobre o que estava acontecendo na Venezuela, na Tailândia, no Sri Lanka. Mas uma das coisas que me chamou a atenção a respeito da Turquia é que tanto ela quanto a Índia são países que nasceram do fim de dois dos maiores impérios do século passado, o Império Otomano e o Britânico.

Na Turquia, você tinha essas figuras modernizadoras, lideradas por (Mustafa Kemal) Ataturk, fundando um novo país e implantando todo um projeto de modernidade europeia. E com a queda do Império Britânico, você tinha uma figura semelhante apaixonada pela modernidade europeia, (Jawaharlal) Nehru, que liderou o projeto indiano. Ambos os países tinham populações multiétnicas e tensões, assim como também violência e transferências de população no momento da fundação. E então, nos últimos 20 ou 30 anos, ocorreram guerras nas periferias, com as batalhas da Turquia com os curdos na fronteira e o conflito da Índia na Caxemira.

P.: As fundações de ambos os países podem ser vistas de uma maneira específica hoje?

R.: De certo modo. Todo o projeto de nacionalismo laico em ambos os lugares foram projetos de cima para baixo e impostos pelas elites, mas apenas com graus variados de sucesso. Esses modelos se sustentaram por muito tempo, mas havia vastos grupos dentro das populações que eram ideólogos e não estavam à vontade com a posição padrão de laicismo tanto na Índia quanto na Turquia. Assim vemos a ascensão de políticos mais religiosos, sejam os nacionalistas muçulmanos na Turquia ou os nacionalistas hindus na Índia.

P.: Você rotula tanto Modi quanto Erdogan como sendo homens-fortes, mas não são muito diferentes de certos modos?

R.: Eles são diferentes em termos de eventos específicos em suas histórias. Eles são semelhantes no fato de ambos fazerem parte de tradições religiosas controversas. Nos anos 1970 e 1980, quando Modi era uma figura menor no movimento nacionalista hindu, o movimento não fazia parte da linha de pensamento político dominante entre os hindus. Os nacionalistas hindus ascenderam ao poder nos anos 1990. O próprio Modi chegou ao poder em 2002, mas a ascensão de Modi foi manchada, e assim permanece, pela violência de 2002 contra os muçulmanos sob seu mandato. Ele chamou atenção do público por um evento do qual não consegue se desvencilhar plenamente.

Com Erdogan, não foi esse o caso. Ele era controverso, mas não chamou atenção nacional ou global por supervisionar algum tipo de pogrom. Mas ele ganhou atenção devido a um momento de crise na política turca no qual ele, como prefeito de Istambul, se saiu muito bem. O início de sua história é mais positivo do que a de Modi.

Em termos de governança, ambos são bastante eficazes, ambos são pró-mercado, ambos acreditam no que você chamaria de economia neoliberal e também são pessoas que não gostam de delegar poder. Modi governou Gujarat com mão de ferro e era o único homem no poder ali. É a forma como ele governa como primeiro-ministro. Ele não é apenas o primeiro entre iguais; ele é o homem.

O mesmo ocorre com Erdogan. Nenhum outro político ou pessoa turca no governo responde por algo, exceto talvez seu genro. A outra semelhança é a vaidade deles. Ambos são oradores muito poderosos e adoram usar tecnologia de holograma para estarem presentes em lugares diferentes. Ambos são apaixonados por sua própria onipresença.

P.: Modi parece se orgulhar de passar a sensação de figura amistosa que é bem-recebida no Vale do Silício e lugares assim. Erdogan parece mais tempestuoso.

R.: Eu concordo mais ou menos com você em termos do momento atual. Desde Gujarat, Modi esteve por 10 anos proibido pelo Departamento de Estado de entrar nos Estados Unidos por violação da Lei de Liberdade Religiosa Internacional. Ele também representa o poder soft (suave) que se adquire como primeiro-ministro da Índia. Trata-se de um dos maiores mercados do mundo. Mas ele fez um esforço. Em seus primeiros dois anos como primeiro-ministro, ele estendeu a mão. Ele não é grosso e deseja ser encantador. Ele até mesmo deu um grande show no Madison Square Garden, falando sobre tecnologia e a Índia digital.

Mas o mesmo ocorreu com Erdogan no passado. De certo modo, a vida pública de Erdogan pode ser dividida em duas partes. Ele se tornou primeiro-ministro da Turquia em 2003 e até os protestos no Parque Gezi, quando aquela revolta contra ele ajudou a arranhar sua imagem, naqueles 10 anos ele foi muito bem-vindo. Era um novo modelo turco.

No mundo pós-11 de Setembro, Erdogan era amado nos Estados Unidos por parecer representar a opção de um islã moderado, pró-mercado. Erdogan foi uma grande história de sucesso nos primeiros 10 anos de seu governo. Mas isso lhe subiu à cabeça, em parte por ser tão bem-sucedido. Ele não conseguiu lidar. Ele passou a se achar como Deus.

P.: A esperança nos Estados Unidos hoje, a esperança desesperada, é de que Trump amadureça no cargo. Você diz que o oposto ocorreu com Erdogan.

R.: Sim e concordo plenamente com você. No caso de Erdogan ocorreu o oposto e, apesar do charme, Modi está de volta aos seus velhos modos. Ele fala sobre a economia, mas a nação não se resume à bolsa de valores. Quando olho para a Índia desde que Narendra Modi se tornou primeiro-ministro, o que temos é uma turbulência social extraordinária.

Veja algo que também ocorre nos Estados Unidos: crimes de ódio. Não se trata de Donald Trump ou Narendra Modi chamarem pessoas e lhes dizerem para espancarem o próximo muçulmano que encontrarem. Mas o sucesso deles torna mais válido dizer e fazer coisas que não são OK. Logo após a eleição de Modi, havia um menino muçulmano em uma cidade chamada Pune. Ele estava voltando para casa depois do trabalho.

Alguém disse que o menino muçulmano disse algo desagradável e uma gangue de bandidos de direita hindus o atacou por ser muçulmano. E então tivemos linchamentos, assim como no sul dos Estados Unidos no passado. Um homem foi morto porque uma multidão de direita hindu suspeitou que ele tivesse comido carne ou matado uma vaca. A turbulência social tem sido insana.

E recentemente tivemos eleições em Uttar Pradesh, que é o maior Estado na Índia. O partido de Modi venceu e na campanha que ele liderou ele usou o tipo de linguagem que seria usada pelo pior tipo de preconceituoso. Após os resultados, após a vitória de seu partido, ele nomeou como ministro-chefe...

P.: Um lunático.

R.: Uma das figuras mais controversas e racistas na política indiana. Um preconceituoso. Esse é o mundo em que estamos vivendo. Estar no poder não o moderou nem um pouco.

P.: Como você descreveria o estado da oposição tanto na Turquia quanto na Índia? Você diria que há uma oposição mais forte e numerosa a Erdogan?

R.: Não, eu acho que tanto a Índia quanto a Turquia são no momento Estados majoritários. A oposição a Erdogan em termos de como outros partidos estão respondendo é bem fraca. Seu domínio na mídia é esmagador.

Na Índia, o Partido do Congresso está em farrapos. Não há figuras políticas significativas que pareçam capazes de mudar a maré. Há escritores, há ativistas que são consistentes em suas críticas às políticas de Modi, e você também vê isso na Turquia, com escritores, cineastas e ativistas que fizeram críticas sérias e pagaram um preço sério. O  partido político curdo na Turquia: a maioria de seus líderes está presa.

Erdogan usa suas lutas com a Europa, usando referências nazistas, fazendo ministros mencionarem as Cruzadas: como liberais não gostamos disso, mas há esse poder emocional, que mantém muitos eleitores contentes. Ocorreu a mesma coisa com Modi na recente eleição. Preconceito parece funcionar no momento.

P.: Muitos americanos pensarão em Trump ao ouvirem o que você está dizendo. Como você acha que ele difere dos homens-fortes de seu livro?

R.: Veja, Trump foi uma grande surpresa para todos. Modi e Erdogan são políticos mais tradicionais do que Trump. Ambos passaram décadas de suas vidas não apresentando concursos de beleza. Eles trabalharam com movimentos políticos sérios nas bases. Eles vieram do nada. Eram homens durões que eram trabalhadores dedicados. Trump era um grande comunicador: eles explorou algo feio na sociedade americana, um senso de perda e racismo.

Eu pousei no aeroporto John F. Kennedy ontem e foi a primeira vez que pensei duas vezes sobre qual seria minha experiência no aeroporto. Foi tudo tranquilo, como sempre foi. Essa é a esperança, a de que as instituições americanas sejam mais fortes do que as ideias de Trump e de sua equipe.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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