Uma noite entre as bruxas que combatem o governo Trump

Heather Schwedel

  • Heather Schwedel

    Conjurando todos os cantos no Baile de Cristal da Waft, no Brooklyn

    Conjurando todos os cantos no Baile de Cristal da Waft, no Brooklyn

Os índices de aprovação de Donald Trump atingiram recentemente uma baixa recorde. Entre os jovens, pessoas com formação superior, não brancos e mulheres, os índices de desaprovação são especialmente altos. Aqui está mais um eleitorado para adicionar a essa lista: bruxas.

O governo Trump despertou a consciência política entre todo tipo de pessoas. É natural que as bruxas estejam entre elas, e cada vez mais estão ganhando atenção por suas ações. As bruxas estiveram no noticiário há poucas semanas, quando uma postagem no Facebook convocando para um ritual em massa contra Trump se tornou viral. E na noite de domingo, um novo grupo chamada Bruxas Contra o Totalitarismo Fascista (Waft, na sigla em inglês) realizou seu primeiro evento em Nova York.

Os apoiadores da Waft vestiram capas de veludo e cílios falsos para o Baile de Cristal da Waft no House of Yes, uma casa noturna na área de Bushwick, no Brooklyn. Enquanto uma representante da Lady Parts Justice League, uma organização de direitos reprodutivos, circulava pela festa, realizando tatuagens metálicas temporárias de ovários (que vi em pescoços, testas e decotes), outra voluntária segurava um bastão de defumação de sálvia branca e caminhava oferecendo aos presentes purificações improvisadas. Os Gays Contra Armas também estavam presentes, bebidas eram servidas e bijuterias de bruxas eram vendidas.

Quando não está combatendo o totalitarismo por meio de bruxaria, a organizadora da Waft, Ana Matronic, canta no grupo Scissor Sisters. Na noite de domingo, ela vestia uma peruca mod anos 60 e um vestido coberto de tule branco. Ela disse que a ideia da Waft nasceu no início deste ano, em uma "minivan voltando do Distrito de Columbia após a Marcha das Mulheres".

Ela explicou: "Somos um grupo de praticantes espirituais alternativas e estamos extremamente preocupadas com o espírito fascista". Ela acrescentou: "Nós já nos reunimos de forma regular, nos vestimos como feiticeiras e nos divertimos, então achei que devíamos nos reunir com uma ideia um pouco maior". Toda a arrecadação da noite iria para a Population Action International, uma ONG de planejamento familiar e saúde reprodutiva.

Na hora das bruxas, havia um plano de realização de um ritual, mas a parte de performance da noite começou com um apresentação de acrobacia em corda e uma cantora. Os alto-falantes tocavam um canto bom para dança vogue no palco.

Os presentes pareciam compor uma mistura de bruxas praticantes, "bruxas de coração", como colocou uma convidada, pessoas que gostam de se fantasiar e pessoas contrárias ao totalitarismo (com alguma sobreposição compreensível entre essas categorias). Uma verdadeira coalizão arco-íris.

"Quando soube sobre bruxas fazendo arte performática/dança/balada pela resistência contra um governo totalitarista, eu pensei: 'Uau, isso engloba tudo que me interessa'", me disse um bruxo chamado Peter Mercury, antes de explicar o que eu poderia esperar durante o ritual.

"Eu acho que a feitiçaria está passando por este ressurgimento peculiar neste mundo apocalíptico no qual estamos vivendo", prosseguiu Mercury. Eu perguntei se ele participou do feitiço em massa contra Trump, do lado de fora da Trump Tower poucas semanas atrás: "Não pude ir, mas lancei o feitiço, de modo que minha energia participou dele", ele disse. "Não vejo isso como magia negra. É uma proteção."

Enquanto isso, Anna Cole, que estava usando um vestido vitoriano e veio à festa com amigos, explicou que apesar de não ser uma bruxa. "Acho que o lance de feitiçaria tem repercussão entre nós por estarmos ligadas em questões feministas, e conversávamos a caminho daqui sobre como algumas das religiões mais patriarcais não são exatamente amistosas em relação às mulheres". Ela disse que passou a maior parte dos primeiros meses do governo Trump em protestos.

Apesar do ativismo delas apenas recentemente estar ganhando manchetes, segundo Matronic, a ideia da bruxa consciente está longe de ser nova. "Acho que as bruxas sempre foram, tradicionalmente, pessoas que viviam à margem da sociedade e viam todas as pessoas caindo pelas frestas e de lado. Elas reconhecem e veem as margens. Elas são preocupadas com o meio-ambiente, preocupadas com pessoas de todas as idades e habilidades. Há um aspecto de cuidado nisso. No momento, a postura, especialmente em Washington, parece ser de extremo descaso."

A meia-noite veio e passou (realmente não seria antifascista manter um horário rígido), mas por volta da 1h da manhã, finalmente ocorreu o ritual. Como Peter Mercury me explicou anteriormente, ele envolve definir o espaço que será usado para lançar o feitiço ou para realização do ritual. "Ele se torna um espaço limítrofe entre este mundo e o próximo. Você cria um espaço sagrado".

Para isso, são convocados quatro elementais, que são associados aos quatro pontos cardeais. Esta festa realmente estava se transformando em uma experiência muito educativa.

A formação do círculo no Crystal Ball assumiu a forma de uma canção composta especialmente para a noite e, que se dane o muro de Trump, bilíngue, contendo um encantamento em espanhol. Uma figura em capa vermelha se agitava no centro da sala enquanto várias pessoas cantavam e gesticulavam no palco. Não era exatamente apenas mais outra noite em uma boate, mas se você não estivesse atenta, poderia ter não notado que um feitiço estava sendo realizado. Apenas parecia uma performance, uma festa. Logo chegou a hora de mais acrobacias aéreas. A canção acabou e Matronic anunciou: "O círculo foi conjurado. Os deuses estão presentes. Ela está aqui e ela está em você".

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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