Como um gay lutou contra a discriminação no trabalho e teve uma importante vitória na Justiça

Mark Joseph Stern

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    Matthew Christiansen e sua advogada Susan Chana Lask

    Matthew Christiansen e sua advogada Susan Chana Lask

Na última segunda-feira (27), a Corte de Apelações dos EUA para o 2º Circuito decidiu que Matthew Christiansen poderia processar seu empregador pelo terrível assédio sexual que ele afirma ter sofrido no trabalho.

Especificamente, o tribunal decidiu que Christiansen poderia alegar discriminação sexual sob o Título 7º da Lei de Direitos Civis de 1964, que proíbe a diferenciação sexual contra empregados que não se enquadrem nas normas de gênero. Em um parecer notável e positivo, o juiz presidente, Robert Katzmann, escreveu em separado para explicar que o Título 7º sempre proíbe a discriminação no emprego com base na orientação sexual.

Se Katzmann estiver certo --e muitos juízes acreditam que ele está--, a discriminação aos gays no local de trabalho já é ilegal em todos os Estados americanos.

Pouco depois da decisão, eu falei com Matthew Christiansen, o queixoso no caso, e sua advogada, Susan Chana Lask, sobre os fatos perturbadores que levaram à decisão do 2º Circuito no caso Christiansen X Omnicom Group.

Nossa entrevista foi editada e condensada. Deve-se notar que essas denúncias, que os réus rejeitam com veemência, ainda não foram comprovadas em tribunal.

Mark Joseph Stern: Fale-me sobre a discriminação que você sofreu no trabalho.

Matthew Christiansen: Começou quando aceitei o emprego. O ex-diretor digital Joe Cianciotto desenhava caricaturas minhas em um quadro-branco. Eram cruas e repelentes --mostravam-me como meio homem, meio cavalo, fazendo necessidades fisiológicas, ou como um gay "bombado", com uma enorme ereção, dizendo: "Estou bombado pela igualdade no casamento".

A coisa partiu daí. Estendeu-se ao resto da agência quando ele pendurou um cartaz para uma festa que mostrava minha cabeça no corpo de uma mulher deitada de costas de biquíni com as pernas para o ar. Ele o exibiu por toda a agência e no Facebook. Ele me marcou na foto, e ele é amigo no Facebook de todos os publicitários importantes que você possa imaginar --todos os clientes para os quais eu gostaria de trabalhar. Foi totalmente humilhante, e ele o espalhou por toda a indústria.

Mais tarde ele perguntou às pessoas que eu gerenciava se eu tinha HIV. Ele me acusou de ter Aids e caçoou do modo como eu me vestia. Chamou-me de "bicha" e de "bunda" e disse que eu "obviamente dormia com todo mundo". Ele me insultou e destruiu na frente das pessoas que eu deveria gerenciar.

Susan Chana Lask: Mais tarde soubemos que Joe comentava com toda a empresa: "Vejam o cara novo, ele é tão gay, deve ter Aids!"

Christiansen: O pior incidente foi em maio de 2013. Eu estava com uma equipe de 15 funcionários, e Joe disse: "Passei o fim de semana inteiro doente, senti-me uma merda. Parecia que eu tinha Aids! Você sabe o que é isso, não é, Matt?" Então ele se sentou ao meu lado, olhou bem na minha cara e riu.

Foi um dos piores momentos da minha carreira profissional e da minha vida. Eu sou HIV-positivo, mas não tinha ideia de se ele sabia disso. Fiquei absolutamente envergonhado e aterrorizado que meu grande segredo fosse contado a todo mundo com quem trabalho diariamente. E tive medo que todos na equipe pensassem que podiam falar comigo daquela maneira.

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Caricatura de Christiansen supostamente feita por Cianciotto

Stern: Como você tomou a decisão de mover um processo?

Christiansen: Falei com vários advogados e fiquei muito desanimado. Eles me disseram que não há proteção para os gays em nível federal e que uma ação não iria funcionar realmente. E eles fariam perguntas sobre qual foi meu papel nisso, do tipo: como eu dei continuidade a isso? Como se fosse minha culpa. Eu comecei a acreditar que devia ter feito algo errado, apesar de que tudo o que eu fazia era ir trabalhar.

Finalmente, um advogado me indicou Susan. Quando a conheci, a primeira coisa que ela me disse foi: "Aquele homem é um porco nojento. Eles querem levar uma porra de um processo?" Então ela disse: "Acho que é destino. Eu quero pegar seu caso". Foi a primeira vez que alguém disse que queria realmente me ajudar.

Lask: Ninguém ajudava Matt --basicamente, diziam "ele mereceu isso". E se recusavam até a tentar interpretar a lei para lutar pelos direitos de Matt. Eu queria que outras pessoas LGBT ganhassem poder. Elas precisavam saber que isso pode ser feito.

Christiansen: eu costumava dizer isso a mim mesmo todos os dias, já que, é claro, era uma luta ir para o trabalho e ficar com pessoas que ouviam aquelas coisas sobre mim. Eu tinha de olhar no espelho e dizer a mim mesmo: "Você está certo, você está fazendo a coisa certa, você não está sozinho. Há alguém lá fora lidando com a mesma coisa".

Stern: Então você continuou no emprego, mesmo depois que abriu o processo?

Christiansen: Sim. Desde o início, eu não queria sair, porque não tinha feito nada errado. Por outro lado, eu não queria ficar lá porque fui muito humilhado. Só de ver todos os dias pessoas que tinham presenciado aquela coisa era embaraçoso.

Lask: Eu disse: Não importa o que você faça, não saia. Vamos nos defender e tirar o valentão de lá. O valentão era Joe Cianciotto. Um grande ator, o diretor digital.

Christiansen: O objetivo era fazer que ele saísse. Por que eu deveria sair? Não fiz nada errado. E não posso deixar meu emprego, na verdade, não posso perder meu seguro. Não posso simplesmente cometer o suicídio financeiro e físico porque alguém decidiu me discriminar no trabalho. Tenho de lutar. Além disso, há pessoas que podem estar passando pela mesma coisa e que estão me vendo. Não posso simplesmente levantar e sair.

Lask: Eu senti como um grande soco definitivo quando Matt disse: "Você não vai me fazer sair deste emprego. Eu vou processá-lo e continuar empregado. Você vai me pagar enquanto eu o processar. Você vai mudar seu comportamento".

Stern: Inicialmente você moveu a ação de modo anônimo. Como o nome de Matt veio a público?

Lask: Quando abrimos o processo, era anônimo por causa da situação de HIV de Matt. A única razão pela qual revelamos seu nome foi que os advogados do outro lado ameaçaram divulgá-lo e nós dissemos: fodam-se. Eu perguntei a Matt: Você está preparado para fazer isso para que não precisemos enfrentar esses idiotas? E ele disse: Sim, coloque aí. Então colocamos o nome dele no processo.

Depois que seu nome saiu nos jornais, ele disse: "Susan, estou com muito medo de ir ao trabalho". Mas quando ele foi pessoas que ele nem conhecia se aproximaram e o abraçaram. Elas diziam apenas "obrigado" e saíam.

Acontece que as pessoas se queixavam de Joe Cianciotto havia dez anos. Mas como ele conseguia captar contas de US$ 25 milhões as pessoas diziam: "Ah, é apenas o Joe. Não se preocupe".

Eu falei com 20 empregados que trabalharam com ele, e chorei depois dessas entrevistas. Esse sujeito conseguia se portar como um ditador, gritando coisas, caçoando sexualmente dos empregados, fazendo homens gays descreverem para ele como é o sexo, porque ele "queria saber como é".

Stern: O que aconteceu com Cianciotto?

Christiansen: Depois que a história se propagou, Joe quase desapareceu. Mas a empresa nunca anunciou sua saída. É claro, eles vieram dizer que meu caso não tinha mérito --à imprensa, ao tribunal e em e-mails para toda a agência. Eles tentaram me assustar, me intimidar e fazer-me sentir desconfortável no local de trabalho. E certamente fizeram questão de falar contra mim na imprensa. Mas Joe simplesmente... desapareceu.

A companhia também me pediu para escrever uma campanha do Orgulho Gay enquanto eu os processava por discriminação! Eles sabiam que se eu dissesse não lhes daria um motivo para me demitir.

Lask: Ele ficou muito aborrecido, e eu lhe disse: "Matt, simplesmente faça-o, e faça um ótimo trabalho".

Christiansen: Foi um absurdo total.

Stern: Então você fez a campanha?

Christiansen; Fiz. Eu não iria recuar e fazê-los pensar que eu tinha medo deles. Susan sempre dizia: "Você vá lá e faça a publicidade. Deixe o pit bull fazer a lei. Apenas mande seu pit bull à luta e tudo ficará bem". Mas eu estava com prisão de ventre. Uma coisa é conhecer seus direitos e ter alguém do seu lado que vai lutar por você. Mas quando você está contra uma empresa de bilhões de dólares com seu exército de advogados é muito assustador.

Lask: Não me importa que eles tenham um bilhão de dólares e mil advogados. Você não pode negar os fatos e a lei. Matt estava apenas indo ao trabalho e fazendo seu serviço --e sendo terrivelmente assediado simplesmente por ser quem ele é. Como disse o tribunal na segunda-feira, não é apenas errado: é contra a lei.

 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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