Estamos preparados para o incêndio do Reichstag americano?

Timothy Snyder

  • vk.com/Xinhua

    Cidadão do Quirguistão pode ser autor do atentado no metrô da Rússia

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O desastre repentino que exige o fim de todos os freios e contrapesos, a dissolução dos partidos de oposição, a suspensão da liberdade de expressão, o direito a um julgamento justo e assim por diante; esse é o truque mais velho do manual hitleriano. Não caia nessa. Os tiranos modernos são gestores do terror. Não permita que seu choque seja voltado contra sua liberdade. Quando ocorre um ataque terrorista, lembre-se que aspirantes a tiranos exploram esses eventos visando mudar regimes e consolidar o poder.

O incêndio do Reichstag foi o momento em que o governo de Hitler, que chegou ao poder por meios democráticos, se transformou no ameaçadoramente permanente regime nazista. É o arquétipo da gestão do terror.

Em 27 de fevereiro de 1933, por volta das 21h, o Reichstag, o prédio do Parlamento alemão, começou a pegar fogo. Quem provocou o incêndio naquela noite em Berlim? Não sabemos e realmente não importa. O que importa é que aquele ato espetacular de terror de início ao estado de emergência. Olhando com prazer para as chamas naquela noite, Hitler disse: "Este incêndio é apenas o início". Quer os nazistas tenham provocado o incêndio ou não, Hitler viu a oportunidade política: "Agora não haverá mais contemplações: todo aquele que se colocar em nosso caminho será massacrado". No dia seguinte, um decreto suspendeu os direitos básicos de todos os cidadãos alemães, permitindo que fossem "detidos preventivamente" pela polícia.

Apoiado na alegação de Hitler de que o incêndio foi obra dos inimigos da Alemanha, o Partido Nazista obteve uma vitória decisiva nas eleições parlamentares de 5 de março. A polícia e os paramilitares nazistas começaram a deter membros dos partidos políticos de esquerda e a colocá-los em campos de concentração improvisados. Em 23 de março, o novo Parlamento aprovou uma lei de plenos poderes, que permitia a Hitler governar por decreto. A Alemanha então permaneceu no estado de emergência pelos próximos 12 anos, até o final da Segunda Guerra Mundial. Hitler usou um ato de terror, um evento de importância inerentemente limitada, para instituir um regime de terror que matou milhões de pessoas e mudou o mundo.

As autoridades atuais também são gestoras do terror e talvez sejam ainda mais criativas. Considere o atual regime russo tão admirado pelo presidente. Vladimir Putin não apenas chegou ao poder em um incidente que, de modo notável, lembrou o incêndio no Reichstag, como então usou uma série de ataques terroristas (reais, questionáveis ou falsos) para remover obstáculos ao poder total na Rússia e atacar seus vizinhos democráticos.

Quando Putin foi nomeado primeiro-ministro por um enfraquecido Boris Yeltsin em agosto de 1999, ele era um desconhecido com um índice de aprovação insignificante. No mês seguinte, uma série de prédios em cidades russas sofreram atentados a bomba, aparentemente por obra da polícia de Estado secreta russa. Seus oficiais foram presos por seus próprios colegas com evidências de sua culpa; em outro caso, o presidente do Parlamento russo anunciou uma explosão poucos dias antes de ocorrer. Mesmo assim, Putin declarou uma guerra por vingança contra a população muçulmana da Rússia na Tchetchênia, prometendo perseguir os supostos perpetradores e "esfregá-los no banheiro".

A nação russa se mobilizou; os índices de aprovação de Putin foram às alturas; em março ele venceu as eleições presidenciais. Em 2002, após as forças de segurança russas terem matado um grande número de civis russos enquanto abafava um ataque terrorista real em um teatro em Moscou, Putin explorou a ocasião para tomar o controle das emissoras de televisão privadas. Após uma escola em Beslan ser tomada por terroristas em 2004 (em circunstâncias estranhas, sem provocação), Putin eliminou o cargo de governadores regionais eleitos. Assim, a ascensão de Putin ao poder e sua eliminação de duas importantes instituições, as emissoras privadas de televisão e os governos regionais eleitos, foram possibilitadas pela gestão de terrorismo real, falso ou questionável.

Após o retorno de Putin à Presidência, em 2012, a Rússia introduziu a gestão do terror em sua política externa. Em sua invasão à Ucrânia em 2014, a Rússia transformou unidades de seu próprio exército regular em uma força terrorista, removendo a insígnia dos uniformes e negando qualquer responsabilidade pelo sofrimento terrível que infligiam. Na campanha pela região de Donbas, no sudeste da Ucrânia, a Rússia empregou forças irregulares tchetchenas e unidades de seu exército regular, baseadas em regiões muçulmanas, para participarem da invasão. A Rússia também tentou (mas sem sucesso) hackear a eleição presidencial ucraniana de 2014.

Em abril de 2015, hackers russos assumiram o controle da transmissão de uma emissora de televisão francesa, fingiram ser o Estado Islâmico e então transmitiram material visando aterrorizar os franceses. A Rússia se fez passar pelo "cibercalifado" para que os franceses temessem o terror ainda mais do que já temiam. A meta era supostamente estimular os eleitores a apoiarem a Frente Nacional de extrema-direita, um partido apoiado financeiramente pela Rússia. Após 130 pessoas terem sido mortas e 368 terem ficado feridas nos ataques terroristas em Paris, em novembro de 2015, o fundador de um centro de estudos ligado ao Kremlin comemorou que o terrorismo conduziria a Europa para o fascismo e para a Rússia. Em outras palavras, o terrorismo islâmico real e falso na Europa Ocidental são considerados como sendo de interesse russo.

No início de 2016, a Rússia fabricou um momento de terrorismo falso na Alemanha. Enquanto bombardeava civis sírios e, portanto, estimulava os refugiados muçulmanos a seguirem para a Europa, a Rússia explorou um drama familiar para levar os alemães a acreditarem que os muçulmanos eram estupradores de crianças. A meta, de novo, parecia ser desestabilizar um sistema democrático e promover os partidos de extrema-direita.

Em setembro do ano anterior, o governo alemão anunciou que receberia meio milhão de refugiados da guerra na Síria. A Rússia então deu início a uma campanha de bombardeio na Síria visando os civis. Tendo fornecido os refugiados, a Rússia então forneceu a narrativa. Em janeiro de 2016, a mídia de massa russa passou a disseminar uma história de que uma garota de origem russa na Alemanha que estava desaparecida tinha sofrido um estupro coletivo por imigrantes muçulmanos. Com rapidez suspeita, organizações de direita na Alemanha organizaram protestos contra o governo. Quando a polícia local informou que nenhum estupro tinha ocorrido, a mídia russa a acusou de acobertamento. Até mesmo diplomatas russos se juntaram ao espetáculo.

Quando o presidente Trump e seu conselheiro de segurança nacional falam em combater o terrorismo juntamente com a Rússia, o que estão propondo ao povo americano é gestão do terror: uma exploração de ataques terroristas reais, dúbios e simulados visando derrubar a democracia. O resumo russo da primeira conversa telefônica entre o presidente e Vladimir Putin é reveladora: os dois homens "compartilharam a opinião de que é necessário unir forças contra o inimigo número um comum: o terrorismo e extremismo internacionais".

James Madison apontou que a tirania surge "em alguma emergência favorável". Para os tiranos, a lição do incêndio do Reichstag é que um momento de choque permite uma eternidade de submissão. Para nós, a lição é de que nosso medo natural e pesar não podem permitir a destruição de nossas instituições. Após o incêndio do Reichstag, a teórica política Hannah Arendt escreveu que "eu não mais tinha a opinião de que alguém poderia ser simplesmente um espectador". Coragem não significa não ter medo e nem deixar de sofrer. Significa reconhecer e resistir de imediato à gestão do terror, desde o momento do ataque, precisamente quando parece mais difícil fazê-lo.

Adaptado de "On Tyranny: Twenty Lessons from the Twentieth Century" (Sobre a tirania: vinte lições do século 20, em tradução livre, ainda não lançado no Brasil.) Copyright © 2017 Timothy Snyder. Publicado pela Tim Duggan Books, um selo da Penguin Random House LLC

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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