Propostas para o muro de Trump são ambiciosas e burras

Henry Grabar

Donald Trump vai construir seu muro --em um curto trecho de terras federais em San Diego, na Califórnia. O Departamento de Segurança Interna (DSI) escolherá algumas companhias para construir protótipos a curta distância de Tijuana (México).

Segundo disse na última quarta-feira (5) o secretário de Segurança Interna, John Kelly, é "improvável" que seja construído um muro contínuo do golfo do México até o oceano Pacífico. O muro seria erguido em trechos da fronteira, disse ele. Ainda não há verbas para a mais famosa promessa de campanha de Trump, mas mais de 200 empresas apresentaram propostas. O prazo da licitação terminou no dia 4. Até 20 propostas serão escolhidas pelo governo para ser transformadas em protótipos com cerca de 10 metros de comprimento em San Diego.

Os conceitos, alguns dos quais foram publicados pelos jornais "San Diego Union-Tribune" e "Wall Street Journal", exibem o grau de competência e pragmatismo que se poderia esperar de uma classe de segunda série. Não são uma visão animadora, do ponto de vista arquitetônico ou filosófico. Mas talvez possam nos dizer algo sobre o país, com ou sem muro, que a jovem Presidência de Donald Trump está remodelando.

WTC Construction
O projeto da WTC Construction propõe um desenho de terra batida para "refletir a beleza das terras da fronteira"

Embora seja difícil explicar o viés de seleção que levou essas firmas a compartilharem suas ideias com a mídia --muitas empresas maiores não quiseram mostrar os desenhos, segundo relatou o "Union-Tribune"--, destaca-se um nível de detalhes que chamam a atenção.

 

Essa fanfarronice poderia sugerir uma espécie de teoria do jogo de contratações: a concorrência é tão grande, e o pedido simples o suficiente para ser esboçado em uma página, que a melhor jogada é destacar-se com uma proposta arriscada. Mas isso também pode revelar um impulso fundamental por parte dos concorrentes: se você vai gastar quatro anos e US$ 22 bilhões para construir 2.000 quilômetros de infraestrutura, é melhor ter capacidade para fazer alguma coisa além de ficar ali parado.

Essas ideias sobre o que mais o muro poderia fazer ou ser conseguem ser ao mesmo tempo fantasiosas e insípidas.

Trump há muito tempo diz que seu muro será "lindo", e o DSI apostou em dobro nessa afirmação ao enfatizar que as propostas serão julgadas pela estética. (Pelo menos no lado americano.)

Algumas empresas encararam o desafio. A WTC Construction apresentou um projeto de "terra batida" para "refletir a beleza das terras da fronteira". Uma firma de Illinois propôs um muro indentado com alguns parapeitos e uma trilha recreativa percorrendo o topo --projeto que seria "belo de uma maneira que os americanos comuns apreciam, em vez de ser rigidamente institucional ou atender aos gostos polêmicos e perversos das elites". Uma terceira empresa sugere segmentos pré-moldados com vidro reciclado decorativo dos dois lados. Generoso, mas e o custo-eficiência?

A empreiteira Manatts, de Johnston, Estado de Iowa, tem uma solução para isso: oferecer aos americanos a oportunidade de gravar qualquer coisa no muro, de memoriais a árvores genealógicas. Assim se poderia angariar dinheiro para pagar pelo muro, raciocina a firma. Ela não foi a única que teve essa ideia. A Reilly Construction and Croell Inc., igualmente de Iowa, também acredita que os americanos gostariam de esculpir memoriais no muro de 2.000 quilômetros. ("Daria dinheiro para um trem de alta velocidade.")

Otra Nation
Projeto do Otra Nation tem um tubo elevado de transporte

Algumas propostas são de protesto. Jennifer Meridian, uma artista de Pittsburgh, propôs várias ideias que parecem um pouco menos práticas que as de seus colegas mais sérios. Um "muro" de árvores unidas por redes, uma fileira de faróis de sinalização, uma linha de 10 milhões de órgãos de tubos a espaços de 6 metros cada. O grupo Otra Nation, formado por engenheiros e urbanistas mexicanos e americanos, propõe construir um tubo de transporte elevado de US$ 1 trilhão.

Até muitos construtores de muros parecem querer que a coisa faça algo. É como se eles soubessem que o presidente, com seu olho de gralha, ficaria encantado por uma ideia brilhante e a adotaria.

Uma dessas ideias é uma trincheira de 30 metros de profundidade para estocar lixo nuclear entre um muro de concreto e a fronteira mexicana, apresentada pela Clayton Industries, de Pittsburgh. Essa proposta também sugere trilhos de trem, usinas de transformação de lixo em energia e um "circuito de micromalha" embutido no muro de 9 metros. Várias firmas propõem painéis solares. Uma sugere um aqueduto.

Sem dúvida, a pior ideia veio da National Consulting Service, que apresentou um gigantesco shopping center de concreto com um monotrilho percorrendo o topo. Você poderia dizer: se ninguém usa o trem de brinquedo em Miami ou Detroit, por que o usariam em 2.000 quilômetros de terra quase deserta? Bem, e se eu lhe dissesse que o monotrilho usaria "tecnologia de análise de voz para detectar diferentes estados emocionais dos passageiros para possivelmente ajudar a polícia"? Realmente, o futuro é agora.

Na revista online Slate, Darshan Karwat afirmou que os engenheiros deveriam se recusar a trabalhar no muro. A julgar pelas propostas que vários canais de mídia divulgaram, eles ouviram seu conselho.

Penna Group
Projeto feito pelo Penna Group inclui a opção de pexiglass que permitiria aos americanos ver o lado mexicano, mas não o contrário

O que resta são firmas que não caíram na piada, e a piada neste caso é que esse enorme elefante branco nunca será construído, em concreto ou em malha de aço, e nunca conterá um aqueduto ou um monotrilho ou tubo de transporte ou depósito de lixo nuclear.

Assim como o assédio aos imigrantes reduziu as matrículas de estrangeiros nas universidades americanas, assim como as histórias sobre a patrulha de fronteiras prender viajantes contiveram o turismo nos EUA, essas propostas demonstram a verdade essencial e autorrealizante do muro: que a mera ideia de um monotrilho sobre o muro entre Brownsville, no Texas, e San Diego que grava as conversas dos passageiros para a polícia deve dissuadir os imigrantes por sua própria burrice. Um farol para ideias, advertindo sobre um país onde as boas são atiradas contra os rochedos.

Há uma frase na licitação que vai direto ao cerne da coisa: "O lado norte do muro (isto é, o que é voltado para os EUA) deve ter uma cor esteticamente agradável".

Bonito pelo lado de dentro e feio para o resto do mundo.

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