Como tratar a violência armada como uma epidemia pode nos ajudar a combatê-la

Danielle Ofri

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Uma epidemia é tradicionalmente definida como o surto de uma doença infecciosa em um local e um momento específico. A epidemia do ebola. A epidemia da Aids.

A palavra epidemia tem sido usada de forma mais generosa na medicina ultimamente, e se conversa normalmente sobre a epidemia de obesidade e sua companheira, a epidemia de diabetes. Sabemos que estas não são causadas por um agente infeccioso, mas existe uma qualidade explosiva, exponencial a respeito delas que faz com que a metáfora pareça apropriada.

A violência armada também tem sido caracterizada como uma epidemia, na maioria das vezes como uma técnica midiática para remeter à urgência. Nos últimos anos, pesquisadores têm usado uma definição mais literal de epidemia para analisar a violência armada, mas imaginando se um modelo comparável de contágio poderia ajudar a prever futuras vítimas e possivelmente protegê-las.

Com uma doença infecciosa como o ebola ou a sífilis, os epidemiologistas geralmente constroem um modelo baseado nas características da doença. A questão mais importante é: como a doença é transmitida? Através do sangue? Ela se espalha por tosse e espirro? É sexualmente transmissível? É relacionada ao ambiente físico (por exemplo, mosquitos reproduzindo-se perto de um lago)? Isso ajudaria os pesquisadores a preverem quem poderia ser o próximo a ser infectado e poderia oferecer um plano para intervenção.

É claro, armas não são micróbios, e pode ser um abuso da metáfora dizer que elas são "contagiosas" como uma gripe ou uma tuberculose. Mas a violência armada certamente tem um índice de mortalidade e ferimentos que a coloca lado-a-lado com grandes problemas de saúde pública que provocam o interesse de epidemiologistas. A cada dia nos Estados Unidos, as armas matam 92 pessoas e ferem outras 224. (Para termos de comparação, cerca de 137 americanos morrem de pneumonia todos os dias).

O mais comum modelo de contágio usado para a violência por armas é a localização. Os bairros em cidades que são mais desfavorecidas do ponto de vista social e econômico têm os índices mais altos de violência armada. Isso seria o equivalente ao lago onde se proliferam mosquitos, e todos nas proximidades estão igualmente sujeitos a serem picados.

Um estudo publicado recentemente pela "JAMA Internal Medicine" examina essa questão de uma forma um pouco diferente, focando nessas comunidades para avaliar quem é e quem não é afetado pela violência por armas. Os pesquisadores estudaram as redes sociais, ou seja, analisaram as pessoas com quem você entra em contato, mais do que onde você está fisicamente localizado. Se a conexão social importa mais do que a localização, a violência armada poderia ser mais comparável à catapora, na qual o contato de pessoa para pessoa é o modo de infecção e você pode traçar linhas diretas de um caso para o próximo.

Ao olhar para a cidade de Chicago entre 2006 e 2014, os pesquisadores examinaram todos os episódios registrados de violência armada e todas as prisões relacionadas com armas. Eles criaram então redes sociais de todos os indivíduos envolvidos (pessoas eram consideradas como conectadas se elas tivessem sido presas ao mesmo tempo, recebendo a nomenclatura de "co-infratores").

Ao estudarem mais de 11 mil tiroteios, os pesquisadores concluíram que 63% dessas ocorrências poderiam ser previstas através de redes sociais. Nessas redes, eles descobriram que a violência armada de fato se espalha de forma muito parecida com a da catapora: quanto mais perto você está de alguém envolvido com violência armada, maior a probabilidade de que você seja uma futura vítima.

Então isso significa que deveríamos estar pondo em isolamento os indivíduos em maior risco de "infectar" os outros com violência por armas? Não. Na verdade, isso, seria bastante problemático, uma vez que crimes futuros não podem ser previstos com certeza. É possível imaginar que uma política como essa poderia permitir que a abordagem policial com base na raça redobrasse.

Andrew Papachristos, o principal autor do estudo, sugere que mudemos o foco para vítimas futuras, mais do que para perpetradores em potencial. Assim como ocorre com a catapora, é de suma importância alertar as pessoas em contato próximo que estejam em maior risco de contrair a doença, por assim dizer.

"Queremos triar quem esteja em risco imediato", diz Papachristos. "Do quê elas precisam naquele momento?" Isso poderia permitir uma ação mais precisa e efetiva dos serviços sociais e dos programas de prevenção de violência.

Poderia se prever uma equipe de base comunitária que conseguisse avaliar do quê uma pessoa em alto risco precisaria naquele momento para evitar ser baleada. Talvez um assistente social para ajudar em uma crise familiar, ou um programa extracurricular para orientar um adolescente problemático, ou um conselheiro para ajudar na procura de emprego, ou um vale-moradia que permitisse uma mudança de casa.

Uma assistência construtiva para aqueles que se encontram em maior risco de serem alvo de violência por armas poderia ser um meio mais eficaz de se minimizar tiroteios do que simplesmente tentar prender mais gente.

Papachristos reconhece que o uso do termo "co-infratores" no estudo significa que todas as futuras vítimas foram em algum momento perpetradoras também. Essas vítimas não atraem tanta simpatia pública (ou manchetes) quanto inocentes que estão de passagem, mas a realidade numérica é que a maioria das vítimas de tiroteios recai nessa categoria.

A História oferece uma lição dolorosa em torno dessa mentalidade. Durante a epidemia de Aids, a sociedade virou as costas porque as vítimas não se encaixavam na definição que a sociedade tinha na época do que era aceitável ou digno de compaixão. Não havia pressa para se intervir a favor de usuários de drogas intravenosas, homens gays ou bissexuais, mulheres transexuais, trabalhadores do sexo ou imigrantes. Mas, graças aos esforços de ativistas comunitários, a classe médica e a sociedade acabaram assumindo a responsabilidade. Duas décadas de esforços assíduos transformaram um assassino implacável em uma doença crônica tratável.

Assim, o resultado mais importante de estudos como esses é que ele dá mais força à ideia de que a violência armada é uma questão de saúde pública, e não meramente de segurança pública. E assim como estamos cientes de que campanhas de saúde pública e mudanças em nível social são necessárias para ajudar a combater desafios médicos tais como a obesidade, também reconhecemos o papel crítico de envolvimentos pessoais entre indivíduos e seus médicos, enfermeiras e nutricionistas.

Com a prevenção da violência armada, existe uma necessidade similar tanto de esforços sociais quanto de esforços pessoais dentro da classe médica. É claro, estes últimos dependem do fato de que seja legal médicos conversarem com pacientes sobre armas, algo que, surpreendentemente, era oficialmente proibido por lei na Flórida até muito recentemente.

A natureza excessivamente politizada da abordagem sobre a violência armada é o maior impedimento para se resolver essa crise de saúde pública. Assim como a indústria do tabaco antes dela, a Associação Nacional do Rifle usou de sua influência sobre o Congresso e sobre as legislaturas de cada Estado para frustrar qualquer pesquisa mais básica que fosse sobre a questão.

Mas o objetivo da medicina --seja por pesquisas, por políticas públicas ou por cuidados individuais entre médicos e pacientes-- é melhorar a saúde das pessoas. Vidas são salvas por cintos de segurança e regulamentações anti-fumo da mesma forma que são salvas por pesquisas sobre o câncer e por aconselhamento individual sobre pressão alta. Vidas são salvas quando surtos de sarampo são contidos e quando fontes contaminadas de água são limpas. E não há dúvida de que vidas serão salvas se começarmos a investir mais recursos na epidemia da violência armada.

Tradutor: UOL

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