Dois anos depois, finalmente sabemos por que as pessoas viam "O Vestido" de forma diferente

Pascal Wallisch

  • Reprodução/Wired

Uma das contribuições mais duradouras do psicólogo Robert Zajonc à ciência é o "efeito da mera exposição", ou a observação de que as pessoas tendem a gostar das coisas quando são expostas a elas com maior frequência. A maioria das propagandas se baseia nessa noção. Ela foi intensamente testada no final de fevereiro de 2015, quando "o vestido" quebrou a internet. Em questão de dias, a maioria das pessoas estava cansada de ver e falar a respeito. Mas posso presumir que agora, dois anos depois, você tenha um interesse bastante limitado em estar aqui. (Assim, obrigado por estar aqui.)

Mas o fenômeno continua sendo extremamente fascinante para cientistas da visão como eu, e por um bom motivo. A simples existência do "vestido" desafia todo nosso entendimento da visão das cores. Até o início de 2015, uma leitura atenta da literatura poderia sugerir que não havia nada de novo no campo, que basicamente sabíamos como a visão das cores funcionava, mais ou menos.

O vestido virou essa noção de cabeça para baixo. Ninguém tinha ideia do motivo para algumas pessoas verem "o vestido" de modo diferente de outras. Nós ainda não entendemos isso plenamente. Foi como a descoberta de um novo continente. Além disso, o estímulo surgiu na natureza (ainda mais na Inglaterra), o tornando ainda mais impressionante. (A maioria dos estímulos usados na ciência da visão geralmente são criados em laboratório.)

Mesmo fora dos cientistas da visão, a maioria das pessoas presume que todos veem o mundo da mesma forma. Esse é o motivo para ser desajeitado quando surgem discordâncias, pois sugere que uma parte seja ignorante, maliciosa, tenha uma motivação ou seja louca. Nós acreditamos no que vemos com nossos próprios olhos mais do que qualquer outra coisa, o que poderia explicar as contendas que ocorreram quando "o vestido" despontou e a ciência carecia de uma clara explicação para o que estava acontecendo.

"O cérebro preenche de forma confiante as lacunas de conhecimento fazendo suposições."

Passados dois anos, temos uma melhor ideia de qual pode ser o motivo para as percepções diferentes: a forma como as pessoas percebem a cor também é informada por sua percepção da iluminação. E a imagem do vestido, registrada em um celular, continha muita incerteza em termos das condições de iluminação. Foi uma foto tirada em recinto fechado ou ao ar livre? Isso importa, pois implica em luz artificial ou natural. O vestido estava iluminado de frente ou por trás? Isso importa, pois se a luz veio de trás, ele estaria em uma sombra, caso contrário não.

O cérebro não pode ser acusado de modéstia epistêmica. É de conhecimento que em uma situação como essa, onde ele enfrenta uma profunda incerteza, ele preenche de forma confiante as lacunas de conhecimento fazendo suposições. Geralmente, suas suposições são baseadas naquilo que encontrou com mais frequência no passado. Por exemplo, se a informação sensorial é mais incerta, os observadores farão uma estimativa das velocidades do objeto como sendo menores do que são de fato, presumivelmente porque objetos lentos são muito mais comuns no ambiente do que velozes. (De fato, a maioria dos objetos em qualquer campo de visão não se move.) Cor e iluminação não são exceções.

Como as condições de iluminação são impossíveis de avaliar claramente na imagem do vestido, as pessoas fazem suposições sobre quais são. Pessoas diferentes fazem isso de formas diferentes, o que leva às diferentes interpretações da cor. Ao menos, é isso o que minha pesquisa mostra, graças a 13 mil pessoas, incluindo muitos leitores da "Slate", que responderam às entrevistas sobre o que viram quando viram o vestido e também forneceram outras informações sobre como percebiam a foto e o mundo de modo geral.

Lembre-se, o vestido é na verdade azul e preto, apesar de que a maioria das pessoas o viam como sendo branco e dourado, ao menos à primeira vista. Minha pesquisa mostrou que se você presumisse que o vestido estava em uma sombra, era maior a probabilidade de vê-lo como branco e dourado. Por quê? Porque as sombras super-representam a luz azul. Subtraindo mentalmente a luz de comprimento de onda curto (que pareceria azulada) da imagem a faria parecer amarelada.

A luz natural tem um efeito semelhante; as pessoas que achavam que ela era iluminada por luz natural também o viam como branco e dourado. Por quê? Porque o céu é azul, a luz do dia também super-representa os comprimentos de onda curtos, em comparação com o comprimento de onda relativamente longo da luz artificial (até recentemente, geralmente incandescente). Assim como a subtração mental da luz azul deixa a imagem parecendo mais amarela, a subtração da luz amarela na imagem a deixa parecendo mais azulada, que foi o que descobri de forma empírica.

Agora, por que algumas pessoas presumiriam determinado conjunto de condições de iluminação e outras um conjunto diferente? Isso provavelmente depende do histórico de visão do observador individual. Como alguém estudaria isso? É difícil perguntar para as pessoas se foram mais expostas a mais luz de comprimento de onda curto ou longo. As chances são de que a maioria das pessoas não saberia dizer e nem seria capaz de avaliar como seus históricos de percepção de luz diferem em relação aos de outras pessoas.

Mas pude fazer uma previsão confiante: sendo tudo mais igual, as pessoas que acordam cedo e dormem cedo ("cotovias") devem ficar mais expostas à luz do dia do que aquelas que acordam tarde e dormem tarde ("corujas"). Por sua vez, as corujas devem experimentar relativamente mais luz incandescente do que as cotovias.

É importante notar que tudo mais provavelmente não é igual. Assim, eu esperaria encontrar um efeito sutil exigindo dados de milhares de observadores para ser estabelecido. Por exemplo, mesmo que uma pessoa fosse uma coruja radical, ele ou ela poderia ser forçado pelas circunstâncias a ter um emprego que obrigasse ele ou ela a acordar cedo.

E foi exatamente isso o que encontrei: o efeito é sutil, mas estatisticamente confiável e dependente de dose; em outras palavras, quanto mais alguém se identifica como sendo cotovia, mais provável ele ou ela verá a imagem como sendo branca e dourada. Além disso, para amarrar tudo, as corujas apresentavam maior probabilidade de presumir que a luz era artificial, não natural.

"Essas pessoas são raras. Elas precisam ser encontradas e estudadas em laboratório."

Já que o efeito é sutil (não se deve esperar que um substituto para o histórico de exposição a iluminação apresente uma correlação perfeita), não se deve esperar que seja válido para cada observador individual. Mesmo se alguém passar grande parte de seu horário desperto à noite, ele ou ela pode não usar luz incandescente. Mas na média, esse grupo será mais exposto à luz incandescente do que as cotovias.

De fato, posso legitimamente ser acusado de ser uma coruja extrema, porém vi inicialmente "o vestido" como sendo branco e dourado. Entretanto, eu presumi que estivesse em uma sombra, de modo que essa suposição pareceu se sobrepor à outra. Além disso, o histórico de visão pode mudar. Reconhecidamente, vi mais imagens de vestidos (especificamente aquele) nos dias que se seguiram ao "vestido" do que em toda minha vida antes disso somada. E então mudou abruptamente para uma percepção de preto e azul após quatro dias, e nunca mais o vi de novo como sendo branco e dourado.

É claro, também soube qual era a verdadeira cor do vestido nesse intervalo, e minha pesquisa sugere que as pessoas apresentam maior probabilidade de passar para a verdadeira cor do vestido do que o contrário. Algumas pessoas provavelmente têm suposições tão bem equilibradas a ponto de quaisquer fatores poderem resultar em uma mudança rápida de percepção. Essas pessoas são raras. Elas precisam ser encontradas e estudadas em laboratório.

De qualquer forma, esse ponto sobre os efeitos sutis sob condições complicadas é importante. Alegar que um autoidentificado tipo circadiano pode influenciar a percepção é incomum. E eu queria fazer isso da forma certa, de modo que fiz uma reprodução interna dessas conclusões antes de buscar uma publicação, o que a adiou em mais de um ano. (Eu contava com 97% dos dados do espaço de um mês após a divulgação do vestido e poderia ter publicado na ocasião.)

Isso me leva ao motivo final para o vestido ser importante: já se passaram dois anos desde "o vestido", mas este artigo e outro que acabou de ser publicado representam os primeiros estudos realmente rigorosos sobre seu efeito.

Boa ciência exige tempo. Desejo estar confiante de que minhas conclusões são verdadeiras antes de publicá-las, de modo que resistam ao teste do tempo. Mas essa abordagem é notavelmente incomum. Dado nosso atual ambiente científico, todos os incentivos estão alinhados para acelerar a publicação e priorizar a quantidade em detrimento da qualidade dos trabalhos. Se esse é o caso, não deveria causar surpresa que escândalos (colocando corpos inteiros de trabalhos em questão e possivelmente invalidando décadas de trabalhos) ocorram com certa regularidade.

De fato, grande parte da ciência está atualmente atolada em uma "crise de replicação", com apenas 1 entre 4 conclusões publicadas resistindo ao teste do tempo em psicologia social. A situação é provavelmente ainda pior em campos como biologia de câncer ou genômica.

Tudo isso sugere que precisamos mudar a forma como realizamos ciência. A civilização necessita de ciência de alta qualidade para avançar ainda mais. Por mais improvável que possa parecer visto de fora, a pesquisa em torno do "vestido" pode liderar o caminho.

A propósito, por favor, participe desta breve pesquisa (cinco minutos) no espírito de #citizenscience (ciência do cidadão). Para não influenciar os resultados, não podemos falar muito sobre o que estamos testando aqui, mas o propósito é tratar de algumas questões persistentes a respeito do efeito do vestido e estímulos relacionados. E, por favor, tenha paciência comigo e com meus colegas, falando a respeito disso ainda por muitos anos.

 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos