O romance de espionagem dos anos 1980 que misteriosamente previu a ascensão de Donald Trump

Ellin Stein

  • Kevin Lamarque/Reuters

Com a dissipação da Guerra Fria no final dos anos 1980, o auge dos romances de espionagem parecia ter passado. Mas, graças aos acontecimentos recentes vistos nos noticiários (e em várias temporadas de "The Americans"), de repente viramos todos especialistas em abrigos secretos, agentes duplos e até triplos, infiltrados, identidades falsas, troca de carros (ou de Ubers), kompromat e outros itens básicos da espionagem. John Le Carré, o mestre do gênero, está até mesmo trazendo de volta seu personagem mais famoso, o taciturno chefe de espionagem George Smiley, em um novo romance após uma ausência de 25 anos.

A renovada relevância do mundo de gato e rato da espionagem internacional foi misteriosamente relembrada por "The Twentieth Day of January" ("O vigésimo dia de janeiro", inédito no Brasil), um sólido exemplo do gênero originalmente escrito pelo autor britânico Ted Allbeury em 1980 e recém-reeditado nos Estados Unidos.

A trama, considerada improvável na época, é suficiente para causar a perturbadora sensação de que Allbeury teria sido uma espécie de Marty McFly da literatura, escrevendo para um futuro que só ele conhecia.

Um agente britânico, MacKay, reconhece o chefe de gabinete e ex-diretor de campanha do novo presidente americano de um antigo relatório sugerindo que ele poderia estar comprometido com um agente russo. MacKay prepara um dossiê que instiga o intrépido e ultraprofissional agente da CIA Peter Nolan a investigar discretamente conexões entre a equipe do presidente e os soviéticos e uma possível "conspiração para distorcer o processo apropriado de uma eleição".

Juntos, Nolan e MacKay reúnem cuidadosamente depoimentos e provas documentais que fundamentem seu caso ao mesmo tempo em que tentam, em graus variados de sucesso, proteger suas testemunhas e a si mesmos dos assassinos da KGB. Com o acúmulo das provas, o diretor da CIA, Harper, pondera sobre o que fazer com suas descobertas —quais políticos tentarão enterrar a investigação, quais ajudarão, e o que a revelação fará com a confiança nas instituições democráticas americanas.

Assim como seus colegas romancistas de espionagem Le Carré e Ian Fleming, o conhecimento de Allbeury sobre o funcionamento dos serviços secretos foi obtido do jeito mais difícil —exercendo a profissão. Ele serviu na Executiva de Operações Especiais (SOE) do Reino Unido durante a Segunda Guerra Mundial e na inteligência durante a Ocupação, e depois como agente no MI6, o equivalente britânico da CIA, comandando agentes entre a Alemanha Oriental e Ocidental. Em certo ponto ele foi acuado em uma casa de fazenda por agentes da KGB, que o deixaram pregado em uma mesa de cozinha. Depois seus filhos foram sequestrados e abduzidos para a América do Sul.

Allbeury, pronto para uma vida mais tranquila, compreensivelmente, entrou para a publicidade e só se lançou na escrita em 1973, aos 56 anos de idade —uma explosão tardia de produtividade que levou a 40 romances e uma bem-sucedida carreira literária até sua morte, em 2006. Ele evita as simplificações fáceis do "nós contra eles" de um Tom Clancy, preferindo explorar, como em "Homeland", as ambiguidades morais de todos os lados e os danos que esses limites éticos flutuantes causam nos agentes.

Há muitas passagens surpreendentes, mas a mais surpreendente delas é quando Allbeury descreve o novo presidente. Identificado pelo chefe de espionagem soviético como um homem que "deseja estar na política por interesses de negócios", o vaidoso e superficial Powell, diz uma pessoa bem informada de Washington, "surgiu simplesmente do nada. Ele era um dentre seis ou sete possíveis concorrentes. Uma zebra completa e, de repente, ele era o candidato dos republicanos", com o atrativo extra de não ser um político profissional. Enquanto isso, a mulher de Powell, que não gosta do mundo da política, e de quem ele leva uma vida separada, permanece na casa da família juntamente com o filho pequeno do casal em vez de se mudar para Washington.

O novo presidente, de acordo com seu diretor de campanha e agente dormente Andrew Dempsey, gosta das regalias do cargo "como uma criança em uma loja de brinquedos", mas é um tanto nebuloso quanto à sua linha de ação para além de suas promessas de "cortar impostos, acabar com o desemprego e conseguir a paz na Terra". De acordo com Dempsey, "ele não sabe como vai fazer isso, mas, juro por Deus que ele vai conseguir". Independentemente das prioridades de Powell, seus patrocinadores russos sabem o que eles querem dele, no caso "um acordo de paz, tropas retiradas da Europa, comércio bilateral", e logo o presidente eleito está aderindo ao isolacionismo.

"Durante muito tempo", diz Powell, "as pessoas esperaram que os Estados Unidos agissem como os bombeiros de todos os incêndios do mundo. Nós temos nossos próprios incêndios, como a inflação e o desemprego". Na semana passada mesmo, ao discursar na conferência da North American Building Trades, Trump disse praticamente a mesma coisa: "Eu não sou e não quero ser presidente do mundo. Sou presidente dos Estados Unidos, e a partir de agora será os Estados Unidos em primeiro lugar. Vamos trazer de volta nossos empregos". Isso não quer dizer que a bola de cristal de Allbeury tenha sido totalmente clara: diferentemente do presidente incumbente, Powell é jovial, atlético, bonito e ex-professor de Yale.

E como Allbeury prevê que tudo vá terminar? O que acontece se os obstinados agentes provarem que o presidente foi eleito com uma ajuda dos russos e que ele foi cúmplice, se não de forma geral, específica?

Isso seria impressionante, mas, como Nolan observa, "o Congresso viraria as costas para ele. Ele seria um inútil, e o país todo ficaria em um turbilhão durante quatro anos". Pior, "mesmo que...Powell sofra um impeachment", diz Harper, "esses desgraçados venceram. O povo americano nunca mais conseguirá confiar no sistema, não somente nos políticos, mas em toda a configuração". Precisamos esperar que a bola de cristal de Allbeury também estivesse nebulosa nesse sentido.

 

Tradutor: UOL

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