O Facebook deve ter responsabilidade por seus vídeos ao vivo?

Will Oremus

  • Reprodução/Facebook

    Steve Stephens afirma ter matado outras 12 pessoas; ele é acusado de matar um homem em plena rua escolhido aleatoriamente e postar um vídeo do assassinato no Facebook

    Steve Stephens afirma ter matado outras 12 pessoas; ele é acusado de matar um homem em plena rua escolhido aleatoriamente e postar um vídeo do assassinato no Facebook

No domingo, em Cleveland, um homem aparentemente atirou em um estranho de 74 anos de idade à queima-roupa matando-o, gravou em seu celular e subiu o vídeo no Facebook. Ele fez então uma transmissão de si mesmo no Facebook

Esse assassinato brutal foi o mais recente de uma série de atos violentos que foram parar no Facebook desde que a empresa lançou sua função de vídeo ao vivo, um ano atrás. Mas não podemos realmente culpar uma plataforma de mídia social pelos usos chocantes que pessoas perturbadas dão a suas ferramentas —ou podemos?

Neste caso, o Facebook foi criticado por não conseguir remover prontamente o vídeo, que permaneceu na página do atirador suspeito Steve Stephens por várias horas, de acordo com a "Verge". Desde então ele removeu tanto o vídeo quanto a conta de Stephens, dando a seguinte declaração:

Este é um crime horrível e não permitimos esse tipo de conteúdo no Facebook. Trabalhamos arduamente para manter um ambiente seguro no Facebook, e entramos em contato com a polícia em emergências quando há ameaças diretas à segurança física.

Tudo bem o Facebook dizer que não "permite" que pessoas transmitam assassinatos a sangue frio no site, no sentido de que é contra as regras. O fato é que seu serviço permitiu exatamente isso, pelo menos por tempo suficiente para que muita gente assistisse ao vídeo e até interagisse com o suspeito antes que a empresa o removesse.

Agora que atirar em pessoas ao vivo no Facebook (ou, neste caso, com um ligeiro atraso por ser uma gravação) virou algo aparentemente popular —juntamente com agredir pessoas ao vivo no Facebook, levar um tiro da polícia ao vivo no Facebook e cometer suicídio ao vivo no Facebook —parece razoável dizer que a empresa tem alguma responsabilidade nisso. Mas vale a pena olhar mais de perto para o que seria exatamente essa responsabilidade, e que ações o Facebook poderia tomar para assumi-la.

Um ponto de vista extremo seria achar que o Facebook tem total responsabilidade por aquilo que seus usuários publicam, e merece ser criticado ou talvez até mesmo punido por qualquer papel que seu produto exerça em incentivar ou amplificar comportamentos hediondos. Segundo esse ponto de vista, o Facebook Live seria essencialmente insustentável como produto, porque não há como o Facebook policiar cada vídeo no mundo em tempo real com perfeita precisão.

No outro extremo estaria a alegação de que o Facebook Live e os vídeos do Facebook são simples ferramentas, e não cabe à empresa controlar como as pessoas as usam. Há um rico histórico de startups de internet alegando ignorância, impotência ou neutralidade em relação ao comportamento de seus usuários. Segundo esse ponto de vista, Stephens mataria de uma forma ou de outra e encontraria um meio de divulgar a ação. O fato de ele ter optado por postar suas maldades no Facebook no lugar do YouTube ou do Snapchat não é culpa do Facebook.

Contudo, isso seria meio conveniente demais. Qualquer plataforma de transmissão pode ser usada para amplificar mensagens ofensivas. Mas elas se prestam a diferentes equilíbrios entre uma vigilância editorial e uma autonomia editorial. Um canal de TV pode exercer um controle relativamente rígido sobre o que transmite, ainda que não total, como vimos quando uma dupla de repórteres morreu vítima de tiros ao vivo em uma transmissão na Virgínia, em 2015. Em compensação, a moderação de conteúdo é um problema muito mais espinhoso se você tem um serviço de microblogging anônimo, global e em tempo real. O Twitter diz ter removido cerca de 377 mil contas relacionadas a terrorismo só na segunda metade de 2016, mas ele continua sendo acusado regularmente de não conseguir policiar adequadamente sua rede.

O Facebook Live vem atraindo atenção porque ele está próximo da extrema vanguarda desse espectro. É em tempo real; qualquer um pode usá-lo a qualquer momento; a mídia do vídeo pessoal é a mais íntima possível; e o público em potencial para uma transmissão popular é tremendo, graças aos algoritmos do Facebook. Sua única vantagem em relação ao Twitter no que diz respeito à moderação é o fato de que suas contas não são anônimas, o que significa que você não pode usá-las com impunidade. Ao fazer a transmissão pelo Facebook, Stephens aumentou em muito a probabilidade de ser pego, e no meio tempo o Facebook pode lhe negar o uso de sua página.

Fora isso, é difícil imaginar uma plataforma mais oportuna para abuso de usuários, ou mais difícil de monitorar de forma eficaz.

Então, embora possa ser errado culpar o Facebook pelos tiros em si, é justo esperar que a empresa tivesse pensado bem sobre as formas como suas ferramentas de transmissão ao vivo poderiam ser usadas para o mal, e tivesse se dedicado a encontrar formas de mitigar os danos antes de lançá-las.

É seguro dizer a esta altura que o Facebook não fez isso. Aliás, a empresa parece ter recebido bem o potencial para o drama como uma forma de permanecer relevante entre os jovens diante de concorrentes como Snapchat e outros. Em uma entrevista exclusiva para Mat Honan, do BuzzFeed, para anunciar o Facebook Live em abril de 2016, o CEO Mark Zuckerberg usou repetidas vezes e com empolgação as palavras "cru" e "visceral" para descrever o potencial do produto. Suas citações dessa entrevista assumem uma dimensão bastante sinistra, considerando o assassinato de domingo:

Nós construímos essa grande plataforma de tecnologia para dar um apoio a quaisquer que sejam as formas mais pessoais, emocionais, cruas e viscerais como as pessoas queiram se comunicar com o passar do tempo...

Por ser ao vivo, não há como ter uma curadoria. E isso liberta as pessoas para serem elas mesmas. É ao vivo; ela não pode ser planejada com perfeição antecipadamente. De uma forma um tanto contraintuitiva, é uma ótima mídia para se compartilhar conteúdos crus e viscerais.

Em nenhuma parte da entrevista ele expressa uma preocupação séria sobre a possibilidade de que alguém possa transmitir um assassinato, um suicídio, um tiroteio policial, uma agressão sexual ou um confronto armado. Então não é de se surpreender que, à medida que cada uma dessas situações foi aparecendo só no primeiro ano da existência do produto, o Facebook tenha parecido lamentavelmente despreparado para lidar com elas.

Não é só uma questão de demora para remover o conteúdo ofensivo. Como deixa claro o resumo feito por Mathew Ingram, da "Fortune", a empresa parece vir ajustando suas políticas à medida que se mostra necessário, tropeçando em cada novo episódio de diferentes formas a cada vez.

Zuckerberg disse recentemente em uma entrevista à "Fast Company": "Acredito mais do que nunca que dar o máximo possível de voz ao maior número possível de pessoas será uma força positiva na sociedade". Ele não demonstrou nenhuma ciência de que os ataques sangrentos no Facebook Live desafiaram essa ideia repetidamente e, sim, de forma visceral.

O fato de que seria extremamente difícil para o Facebook evitar que as pessoas abusassem de seu incrível novo produto não é desculpa. É um aspecto do sistema que o Facebook construiu. E se a reputação da empresa está sofrendo porque ela não consegue encontrar formas melhores de se lidar com isso, a culpa é toda dela.

Tradutor: UOL

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