Chance de vitória de candidatos cria cenários de pesadelos na eleição francesa

Yascha Mounk

  • Bob Edme/AP

    Cartazes da campanha presidencial francesa são colados, em Baiona, na França

    Cartazes da campanha presidencial francesa são colados, em Baiona, na França

"O herói do jogo? Ora, sou eu", gaba-se o candidato presidencial francês Jean-Luc Mélenchon em um vídeo no YouTube sobre o videogame Fiscal Combat, jogado por milhões de eleitores franceses nas últimas duas semanas. "Você enfrenta oligarcas, é uma batalha. Você os captura, os chacoalha, e isso faz cair euros de seus bolsos."

O vídeo corta rapidamente de Mélenchon para mostrar seu diretor de campanha debruçado sobre um notebook, pulverizando mais um oligarca sob uma trilha de música eletrônica sintetizada. "Aqueles euros?", pergunta Mélenchon quando a câmera volta a ele. "Você pode usá-los para o bem comum!"

Durante muitos anos, Mélenchon foi uma figura política quase tão marginal quanto poderia sugerir seu apreço pelo Fiscal Combat. Depois de romper com o Partido Socialista do presidente François Hollande (de centro-esquerda), ele defendeu um imposto de 100% sobre as rendas superiores a 400 mil euros (cerca de R$ 1,32 milhão) e apoiou ditadores como Hugo Chávez. No entanto, as últimas pesquisas veem Mélenchon em disputa acirrada com o centrista Emmanuel Macron, com o conservador François Fillon e com a populista de extrema-direita Marine Le Pen. Qualquer dupla formada por eles poderia sair à frente no primeiro turno das próximas eleições francesas.

Em outras palavras, menos de uma semana antes do primeiro turno e menos de três semanas antes da decisão entre os dois principais candidatos sobre quem será o próximo morador do Palácio do Élysée, o futuro político do país está completamente no ar. A França poderá em breve ser governada por um autodenominado comunista, por um centrista sem experiência cujo movimento político foi fundado há menos de um ano, por um conservador tradicional investigado por práticas corruptas ou pela líder de extrema-direita de um partido com profundas raízes fascistas.

Para explicar o quão aterrorizante é esta situação, darei uma rápida visão dos quatro candidatos que poderão em breve moldar o futuro da França.

Jean-Philippe Ksiazek/ AFP
A candidata da Frente Nacional, Marine Le Pen, durante comício em Pierrelatte, na França

Marine Le Pen

Desde que o Reino Unido votou pela saída da União Europeia e os EUA elegeram Donald Trump, os comentaristas temeram que Le Pen vencesse a eleição presidencial e completasse a trinca populista. Se esse resultado se concretizar, as consequências serão desastrosas: a eleição de Le Pen não apenas ameaçaria o futuro da UE, como também poria em dúvida a sobrevivência da democracia francesa.

Le Pen é a líder da Frente Nacional. O partido fundado pelo pai de marine, Jean-Marie Le Pen, há muito demonstra simpatia pelo regime de Vichy, que colaborou com os nazistas na Segunda Guerra Mundial; praticou todas as formas de racismo e antissemitismo; e projetou dúvidas sobre a legitimidade da ordem constitucional francesa.

Desde que assumiu o partido, Marine --uma mulher de fala simples, com sotaque proletário, gestos vívidos e humor considerável-- pôs no centro de sua retórica as críticas constantes à minoria muçulmana da França. Mas ao mesmo tempo ela tentou "desintoxicar" o partido posicionando-se como defensora da República e, às vezes, até dos gays ou dos judeus. Essa estratégia recompensou: muito mais popular do que seu pai jamais foi, ela há muito chegou ao topo das pesquisas sobre o primeiro turno.

Embora Le Pen tente abrandar as arestas de seu partido, porém, suas crenças e posições centrais continuam radicais. Ela quer que a França saia da UE, aventou uma proibição de viagens aos muçulmanos no estilo da de Trump e recentemente voou a Moscou para prometer fidelidade a Vladimir Putin. Até o verniz que ela colocou no partido parece estar ficando ralo: em uma recente aparição de campanha, por exemplo, Le Pen se recusou a aceitar a responsabilidade da França por deter mais de 13 mil judeus franceses que afinal foram entregues aos nazistas e levados para Auschwitz.

Joel Saget/ AFP
François Fillon, candidato da direita nas primárias para as eleições presidenciais na França em 2017

François Fillon

No início das primárias para os Republicanos, de centro-direita, havia duas grandes perguntas: quem conseguiria o segundo lugar na disputa com Le Pen? E quem teria a melhor chance de vencê-la? Para a maioria dos observadores, essa pessoa provavelmente seria Alain Juppé, um moderado e popular ex-primeiro-ministro que provavelmente conseguiria atrair o apoio de muitos centristas e esquerdistas em uma final com Le Pen. Mas algumas semanas antes da primária Juppé perdeu força e foi superado por Fillon.

Além da base dos Republicanos, Fillon nunca seria especialmente popular. Social e fiscalmente conservador, ele votou contra o casamento homossexual, posicionou-se como um inimigo do Estado do bem-estar social no molde de Margaret Thatcher e manteve relações extremamente amigáveis com a Rússia. Não admira, portanto, que os observadores franceses estivessem muito temerosos de uma potencial disputa entre Fillon e Le Pen. Muitos eleitores de esquerda, temiam eles, se recusariam a votar em Fillon no segundo turno, potencialmente entregando a Le Pen as chaves do Élysée.

E isso foi antes do escândalo de corrupção. Fillon, como revelou "Le Canard Enchaîné", havia empregado sua mulher e seus filhos como assistentes parlamentares, canalizando o equivalente a R$ 3 milhões de dinheiro do contribuinte para membros de sua família. Para piorar as coisas, nenhum deles parece ter realmente trabalhado. Sob uma pressão crescente para deixar a indicação do partido, Fillon prometeu que abandonaria a campanha se fosse investigado formalmente. Ele foi, mas não saiu.

A perspectiva de que Fillon possa enfrentar Le Pen no segundo turno é aterrorizante por dois motivos: primeiro, há todas as razões para se pensar que ele pode perder. E segundo, mesmo que vencesse, seria um péssimo presidente --próximo do Kremlin, reacionário em questões sociais, propondo uma série de cortes sem investimento em economia e entrando no cargo sob a nuvem malcheirosa de uma investigação por corrupção.

Eric Feferberg/AFP Photo
Emmanuel Macron, candidato na eleição presidencial da França

Emmanuel Macron

No rastro do escândalo de corrupção de Fillon, a paisagem política parecia desolada: Le Pen estava no alto, Fillon derrubado pelo escândalo e o Partido Socialista do presidente François Hollande tinha nomeado Benoît Hamon, um peso-leve nada carismático que mal conseguia manter a fidelidade de seu próprio partido. Nessa hora sombria, Macron apareceu como o possível salvador do centro político --e da República Francesa.

Aos 39 asnos, Macron é de longe o candidato mais jovem, mas já conquistou um currículo impressionante: formado na Escola Nacional de Administração, de elite, ele foi banqueiro de investimentos, funcionário público sênior, assessor presidencial e ministro da Economia da França. Depois de deixar o governo Hollande e o Partido Socialista de modo dramático, Macron montou seu próprio movimento político, En Marche (Avante).

Enquanto Macron manteve deliberadamente vagas suas posições políticas, é claro que seus instintos gerais são de centro sobre questões econômicas e liberais sobre questões sociais. Um crente do Estado assistencialista e da livre empresa, Macron defendeu cortes mais moderados no serviço público francês, enquanto prometeu modernizar os programas sociais da França seguindo os exemplos da Dinamarca e da Suécia. Um eloquente defensor de uma sociedade multiétnica, Macron também se opôs a pedidos de mais restrições ao véu muçulmano, defendeu o direito de casais homossexuais adotarem crianças e convidou cientistas do clima americanos cujo trabalho é ameaçado pelas políticas de Trump a se mudarem para a França.

"Ser um patriota", disse ele em um comício em Marselha, lar de centenas de milhares de imigrantes, "não é a Frente Nacional, o ódio que levará à guerra civil. Ser patriota é querer uma França forte, aberta para a Europa e voltada para o mundo. E quando eu olho para Marselha vejo uma cidade francesa, marcada por 2.000 anos de história, de imigração, de Europa.... Eu vejo armênios, italianos, argelinos, marroquinos, tunisianos, malienses.... Mas o que eu vejo realmente? Vejo a população de Marselha. Vejo a população da França."

A mistura de competência e carisma de Macron, de juventude e flexibilidade ideológica, o impulsionou de modo inesperado ao topo das pesquisas. Nos últimos meses tornou-se senso comum que ele se qualificará para o segundo turno --onde venceria Le Pen com facilidade. É graças a Macron que o sentido de catástrofe iminente nas eleições francesas que prevaleceu depois da vitória de Trump gradualmente se dissipou e até deu lugar à complacência nos primeiros meses do ano.

Mas então, durante as últimas semanas, Macron gradualmente começou a cair nas pesquisas. Depois de desempenhos médios em debates na TV, seu apoio --que sempre foi brando-- começou a escorregar. Hoje Macron mantém de longe as melhores chances de derrotar Le Pen se ele se qualificar para o segundo turno, mas parece cada vez menos certo que isso aconteça.

REUTERS/Jean-Paul Pelissier
Jean-Luc Mélenchon, candidato da esquerda radical na França, durante comício em Marselha

Jean-Luc Mélenchon

O que nos traz de volta ao protagonista do Fiscal Combat.

Até seus inimigos políticos admitem que Mélenchon é um homem de verdadeiro talento. Inteligente e culto --um adjetivo que ainda conta como capital político na França--, ele fala com grande eloquência e uma vitalidade refrescante. Poucos políticos franceses podem falar contra a injustiça com as frases interessantes que parecem sair naturalmente dele.

Nunca o líder centrista de um movimento político recém-fundado chegou remotamente perto de conquistar o Élysée.

Embora Mélenchon adore os pedidos de justiça em um tom de barítono, porém, as verdadeiras políticas que ele prefere seriam provavelmente um desastre para a economia e a democracia francesas. Seus críticos se concentraram compreensivelmente na ideia infactível de limitar os salários em 400 mil euros anuais (R$ 1,32 milhão). Mas isso é meramente um sintoma de um fracasso muito maior: Mélenchon não tem a menor visão de como tornar a economia da França mais vibrante ou como sustentar os empregos que financiam o admirável Estado assistencialista francês. A política, para Mélenchon, é realmente como um jogo gigante de Fiscal Combat: desde que o líder do povo consiga bater em muitas pessoas ricas, o dinheiro para os projetos públicos aparecerá como mágica.

Mas é no reino da política externa que a plena extensão da ferocidade de Mélenchon fica aparente. Seu antiamericanismo deve ser esperado, suponho. ("Os ianques", disse ele certa vez, "representam tudo o que eu detesto. Um império pretensioso e arrogante, composto de caipiras incultos e cozinheiros lamentáveis.") Igual é sua admiração por ditadores de extrema-esquerda, de Hugo Chávez a Fidel Castro. Mas seu círculo de simpatia ditatorial parece se estender além dos suspeitos de sempre. E tudo o que ele vê na Síria é um governante justo, Bashar al Assad, que está sendo derrubado em um jogo cínico por petróleo e gás. Tudo o que ele vê na Ucrânia são as ambições imperiais do Ocidente. Tudo o que vê na China é a admirável capacidade de duas dúzias de membros do Politburo do Partido Comunista de manter 1,2 bilhão de pessoas sob controle. E tudo o que ele vê no Tibete são os supostos perpetradores da "xariá budista".

A maioria dos franceses acharia detestável a maior parte do programa de Mélenchon. Mas como sua ascensão ocorreu tarde no jogo suas políticas mal serão examinadas antes do primeiro turno --e agora ele tem uma chance pequena, mas real, de se esgueirar para o segundo turno, possivelmente enfrentando Le Pen em uma batalha de radicais sem precedentes em qualquer lugar da Europa Ocidental desde a Segunda Guerra Mundial.

***

A eleição de Emmanuel Macron seria uma sensação. Durante meio século, a Presidência francesa se alternou entre o representante do principal partido de centro-esquerda e o representante do principal partido de centro-direita. Nunca o líder centrista de um movimento político recém-fundado chegou remotamente perto de conquistar o governo.

Se Macron vencer, sua Presidência não seria de modo algum uma proposta fácil. Sem o apoio de um grande partido político, é improvável que Macron consiga apoio suficiente nas eleições legislativas em junho. E assim ele enfrentará grande dificuldade para colocar sua agenda modernizadora em prática, mesmo que vença o cargo supremo: embora sua eleição fosse radical, provavelmente abriria a porta para maior impasse.

Mas as alternativas a Macron são muito piores. A eleição de Fillon reforçaria a mão de Putin, daria aos eleitores franceses razão ainda melhor para concluir que a classe política de seu país é controlada pelos corruptos e egocêntricos e aprofundaria a decepção com a democracia. Enquanto isso, a eleição de Le Pen ou de Mélenchon causaria o caos imediato, poria em dúvida a participação da França na UE e minaria as proteções mais básicas à democracia liberal. É improvável que Macron preencha as expectativas exageradas de seus seguidores mais ardentes. Mas sua eleição é a única maneira realista de evitar o desastre.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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