Confusão sobre destino de porta-aviões revela quebra no comando militar dos EUA

Phillip Carter

  • REUTERS

    Porta-aviões USS Carl Vinson transitando na região da península norte-coreana

    Porta-aviões USS Carl Vinson transitando na região da península norte-coreana

Há uma grave realidade por trás da estranha história de "Onde está Wally?" com o USS Carl Vinson e seu grupo de ataque: durante certo período de tempo, houve uma confusão significativa sobre a localização do grupo de ataque de um porta-aviões dos EUA, uma das armas mais poderosas do arsenal americano, em um momento de alta tensão na península da Coreia.

Embora não seja (ainda) uma crise importante, esse incidente revela problemas profundos na Casa Branca, sua cadeia de comando e sua abordagem da segurança nacional. No mínimo, o episódio do Vinson sugere diferenças de políticas entre o presidente e seus principais assessores militares sobre como agir em relação à Coreia do Norte. Pior, parece que o presidente não estabeleceu um firme controle da cadeia de comando --ou que possivelmente delegou autoridade demais a seus generais e almirantes. Além disso, esse incidente envia sinais profundamente perturbadores aos aliados e aos adversários sobre o controle que o presidente tem dos militares e a credibilidade de suas declarações, diluindo o poder de dissuasão das palavras e atos americanos.

Vamos começar por duas premissas fundamentais das relações entre civis e militares nos EUA. Primeiro, o presidente é o comandante-em-chefe eleito dos militares; com exceção de declarar guerra, ele tem o poder de ordenar mobilizações e operações militares e ser responsabilizado por elas. Segundo, o presidente deveria saber com precisão a localização e a prontidão de grandes ativos militares americanos, e ter a capacidade de comandar essas forças conforme necessário para proteger o país.

Qualquer afastamento dessas normas representa uma potencial ameaça à segurança nacional. Em 2007, quando a Força Aérea perdeu a pista de armas nucleares e inadvertidamente permitiu que elas voassem sobre o território continental dos EUA montadas em um bombardeiro, o então secretário da Defesa, Robert Gates, acertadamente considerou o incidente uma abominação e demitiu a liderança da Força Aérea.

No caso do Vinson, qualquer movimento no sentido de uma prestação de contas desse tipo começa em total confusão. O presidente Trump e o secretário de imprensa, Sean Spicer, enganaram deliberadamente o público com suas declarações sobre o paradeiro do porta-aviões? Eles foram mal informados pelo Pentágono? Ou estavam descuidadamente jogando com seus comentários para ser mais beligerantes em relação à Coreia? Qualquer desses cenários é cheio de perigo; todos se afastam das normas estabelecidas de relações civis-militares que mandam o presidente falar com autoridade e precisão sobre as forças militares sob suas ordens. Também não está claro quem, exatamente, ordenou que o Vinson e seu grupo de batalha rumassem para a Coreia do Norte, quanto menos se isso foi plenamente coordenado com o Pentágono ou outras áreas do governo.

Uma possibilidade é que o Comando do Pacífico, liderado pelo almirante Harry Harris, tenha ordenado manobras do Vinson para criar opções para a Casa Branca, prevendo uma política mais dura para a Coreia. A sequência de eventos confirma isso, já que a declaração de Harris precedeu qualquer aviso da Casa Branca ou do Pentágono, sugerindo que houve pouca coordenação prévia. Isso está de acordo com a beligerância geral do Comando do Pacífico em questões relacionadas à China e à Coreia do Norte --posição muito diferente da do governo Obama.

Esse cenário se alinharia com o recente distanciamento do presidente Trump de seu papel na cadeia de comando, assim como as preferências de assessores graduados como Steve Bannon e McMaster, que, respectivamente, querem "desoperacionalizar" o Conselho de Segurança Nacional e implementar um estilo de direção de "comando de missão" para os militares. A recente delegação de autoridade aos comandantes que supervisionam a guerra no Afeganistão --que, por sua vez, decidiram despejar a bomba de "Massive Ordnance Air Blast" [explosão maciça de munição aérea] sobre combatentes do Estado Islâmico perto da fronteira entre Afeganistão e Paquistão-- também se enquadra nesse padrão.

Uma segunda possibilidade é que o governo Trump, talvez liderado pelo secretário da Defesa, James Mattis, tenha ordenado o deslocamento do porta-aviões. Nesse caso, isso não representa um problema de relações civis-militares por si só; ordenar a mobilização de porta-aviões é inquestionavelmente uma prerrogativa do presidente. No entanto, salienta as fraquezas na competência e expertise da Casa Branca no uso da força militar. As desconexões entre as declarações da Casa Branca e do Pentágono sugerem uma falta de coordenação próxima, e muito menos um acompanhamento substancial como a movimentação complementar de forças de ar e terra. (Embora as movimentações de tropas sejam geralmente mantidas em sigilo, medidas significativas como essas são difíceis de ocultar, e muitas vezes são divulgadas porque há um maior valor de dissuasão em fazer esses movimentos abertamente.)

Essa falta de coordenação não é ajudada pelas nomeações não preenchidas no governo Trump, nem a infância do próprio governo, o que faz todo o empreendimento funcionar como algo menos que "uma máquina bem regulada".

Em Moscou e Pequim, a palavra do presidente Trump hoje tem menos força.

De modo semelhante, não está claro se McMaster ou Mattis elaboraram totalmente o cenário em torno da mobilização do Vinson e o potencial envolvimento de dois outros porta-aviões nas águas próximas à Coreia. Enviar três porta-aviões ao Pacífico Ocidental priva a Marinha americana --com um total de 11 porta-aviões-- da capacidade de substituir porta-aviões em outras missões, incluindo o apoio a guerras que estão sendo travadas no Iraque/Síria e no Afeganistão.

Assim como o Exército e os Fuzileiros Navais cresceram no Iraque e no Afeganistão durante períodos de combates duros, a Marinha pode aumentar seus grupos de porta-aviões em uma crise --mas não pode manter essa posição indefinidamente. E embora o presidente Trump tenha prometido construir uma Marinha maior durante a campanha, não pode fazê-lo da noite para o dia, ou mesmo durante sua Presidência. O comprometimento impulsivo e aparentemente descoordenado de Trump de posicionar um porta-aviões aqui restringiria suas opções nos próximos anos.

O episódio do Vinson também ilustra, mais uma vez, como as dúvidas sobre a veracidade do presidente podem ter consequências estratégicas negativas. Nossos amigos e aliados, incluindo a Coreia do Sul, mal podem se reconfortar por saber que a cavalaria americana está chegando, quando o governo fala de modo tão cavalariano.

Por outro lado, os adversários dos EUA escutam cada palavra do presidente --quer ele pretenda ser ouvido literalmente, quer não. Eles também checam essas palavras com suas informações de inteligência, obtidas por seus próprios satélites, espiões e outros meios. Os russos e os chineses observam de perto os movimentos do Vinson, e certamente notaram a brecha entre as declarações do Comando do Pacífico, do Pentágono e da Casa Branca. O blefe funciona na política de Estado, mas só quando o adversário não pode ver suas cartas. Em Moscou e Pequim, a palavra do presidente hoje tem menos força, porque ele a desvalorizou ao fazer declarações que são demonstravelmente inverídicas sobre a mobilização de forças militares americanas.

Se a atual tensão com a Coreia do Norte se resolver por si só, o caso curioso do porta-aviões desgarrado talvez não importe muito. Mas se estivermos de fato rumando para uma grande crise como a dos mísseis cubanos em 1962 ou o impasse com a Coreia do Norte em 1994 sobre armas nucleares, então importa muito que a Casa Branca, o Pentágono e o Comando do Pacífico estejam marchando ao ritmo de tambores diferentes. Imagine se, durante a crise dos mísseis cubanos, os militares tivessem inadvertidamente deslocado forças da Europa para criar opções para o governo Kennedy, ou demonstrassem intenções hostis aos soviéticos. Essa crise poderia ter terminado de modo muito diferente, com consequências potencialmente catastróficas.

As responsabilidades de segurança nacional do presidente são complexas demais para ser tratadas como uma empresa imobiliária familiar ou um programa de TV-realidade. O presidente Trump e seus assessores precisam se comunicar com muito mais clareza entre si, e ele deve exercer pessoalmente maior controle das forças que comanda, ou sua Presidência (e possivelmente o mundo) acabará em desastre.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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