Ser imprevisível pode ser a "arma" de Trump contra a Coreia do Norte

Isaac Chotiner

  • AFP

    Líder norte-coreano Kim Jong-Un em parada militar de Pyongyang

    Líder norte-coreano Kim Jong-Un em parada militar de Pyongyang

Entrevista por Isaac Chotiner

As crescentes tensões na Península Coreana, com o governo Trump ameaçando endurecer com o regime norte-coreano de Kim Jong-un (às vezes pelo Twitter) e o progresso rápido do programa nuclear norte-coreano, tem provocado medo de Seul até Washington. O presidente Obama disse ao seu sucessor que a Coreia do Norte provavelmente seria a ameaça mais séria na política externa por muitos anos. O próprio Trump reconheceu ter dado ouvidos ao discurso do líder chinês sobre o assunto e falou em oferecer à China termos comerciais mais favoráveis em troca da cooperação para limitação da ação norte-coreana.

Para discutir a situação coreana, eu conversei por telefone com Barbara Demick, atual chefe da sucursal do "Los Angeles Times" em Nova York e autora de "Nada a Invejar: Vidas Comuns na Coreia do Norte", um relato angustiante por seis desertores norte-coreanos. Ao longo de nossa conversa, que foi editada e condensada para fins de clareza, nós discutimos as razões para a grande influência da China sobre a Coreia do Norte, se o atual regime norte-coreano é racional e por que a vociferação de Trump (a jogada da "loucura") pode ser benéfica.

Isaac Chotiner - A Coreia do Norte está se tornando mais agressiva ou está agindo da mesma forma e apenas seus programas de armas estão se concretizando?

Barbara Demick - Bem, obviamente a liderança mudou. Kim Jong-un é mais jovem e menos previsível, mas acho que o comportamento norte-coreano é basicamente o mesmo. Eles continuam fazendo ameaças exageradas sobre transformar Seul em um mar de fogo e iniciar uma guerra termonuclear. O que difere é que estão mais próximos de ter a capacidade de realmente fazê-lo.
 

Isaac Chotiner Mas a postura do regime não parece diferente para você?

Barbara Demick - Acho que é mais do mesmo. Há novas pessoas chegando e um novo governo em Washington dizendo: "Estamos chocados, chocados em descobrir que a Coreia do Norte está desenvolvendo armas nucleares". Ela está fazendo isso há algum tempo e está conseguindo progressos constantes, e isso não é exatamente novidade. Acho que há muita agitação sendo feita, especialmente com as reportagens dos canais por assinatura dizendo que uma guerra nuclear está prestes a ocorrer. Estou vendo isso desde 2002. Essas crises nucleares são notavelmente semelhantes. Há uma espécie de aspecto "Feitiço do Tempo" nelas.

Eu fiz uma entrevista com (o ex-secretário de Defesa) Bill Perry e conversamos sobre a crise de 1994, quando o governo Clinton queria eliminar a instalação de reprocessamento de Yongbyon, a principal instalação nuclear deles. Foram realizadas simulações por computador e o prognóstico do que aconteceria é que os norte-coreanos realizariam algum ataque pequeno com artilharia convencional em retaliação, mas que os sul-coreanos, apoiados pelos Estados Unidos, também retaliariam. Há uma grande probabilidade de que isso levaria a escalada e que os norte-coreanos, caso sentissem o risco de perder seu país, teriam todo o incentivo para enlouquecer (a teoria do "último golpe da cauda do dragão") e realmente causar grandes estragos na região. Esse cálculo é mais ou menos o mesmo que o de 1994. Mas em 1994 eles sabiam exatamente o que atingir. Desta vez, o que vão atacar? Eles contam agora com instalações nucleares por todo o país. Elas estão escondidas. São subterrâneas. Não é tão fácil realizar um ataque aéreo eficaz.

Isaac Chotiner A propaganda norte-coreana mudou recentemente?

Barbara Demick - Na verdade, não. Ela permanece notavelmente consistente. Acho que há mais mudanças em Washington do que em Pyongyang. Eles estão nesse túnel do tempo, realmente desde a Guerra da Coreia. Eles usam a ameaça de Washington, usam esse estado constante de guerra para se escorarem. É a desculpa que dão para seu próprio povo para a economia não estar melhor. As tensões, na verdade, lhes servem muito bem.

Isaac Chotiner Tendemos a interpretar líderes estrangeiros pelo prisma americano. Como você acha que Trump é visto pelo prisma norte-coreano?

Barbara Demick - Isso é interessante, porque os norte-coreanos sempre bancaram os loucos. Agora é Trump quem banca o louco. Não estou julgando aqui se ele é ou não louco de fato, mas acho que eles o veem como bastante imprevisível, o que talvez não seja algo ruim. Ao ser impetuoso e tuitar todo tipo de ameaças implícitas, ele os está assustando e também aos chineses. Como eu disse, essa costumava ser a jogada deles, a favorita no manual. O fato dele tê-la roubado ou está-la empregando os desconcerta. Eles não sabem como interpretar isso.

Isaac Chotiner Fazer uso de uma jogada é algo que você faz de forma consciente. Isso implica que o regime norte-coreano, em algum nível fundamental, é racional ou mais racional do que lhe damos crédito, não é?

Barbara Demick - A maioria dos observadores da Coreia do Norte acredita que o regime, mesmo sob Kim Jong-un, é bastante racional. Trata-se de um país pobre, fraco e pequeno, e estão usando essas armas nucleares, que são com frequência tratadas como as armas dos fracos, por não serem convencionalmente fortes para se manterem à tona. Acho que eles sabem muito bem o que estão fazendo. Além disso, apenas por serem paranóicos e acharem que alguém pretende matá-los não significa que estão errados.

Isaac Chotiner Acho que a frase é, "até mesmo os paranóicos têm inimigos".

Barbara Demick - Sim. Eles viram o que aconteceu com Gaddafi após abrir mão de suas armas. Eles citam com frequência a Líbia. A Líbia é o principal exemplo que usam. Eles sentem que sem suas armas, eles estão totalmente a mercê dos americanos, dos sul-coreanos, também dos chineses, apesar dos chineses serem seus supostos aliados. Eles também temem ser engolidos pela China. Um motivo para terem desenvolvido essas armas de destruição em massa é não quererem ser completamente dependentes da China para sua segurança.

Isaac Chotiner A análise habitual da Coreia do Norte é de que os americanos precisam fazer com que os chineses pressionem os norte-coreanos. Se houvesse uma verdadeira mudança em Pequim em torno do que querem da Coreia do Norte, qual seria? E é possível?

Barbara Demick - Eu acho que é possível. Eles podem bloquear qualquer dinheiro norte-coreano nos bancos chineses. Acredita-se que empresas comerciais controladas pelos norte-coreanos usem o Banco de Dandong e também o Banco da China indiretamente. Eles poderiam impedir voos de Pequim para Pyongyang. Acho que atualmente os únicos voos para Pyongyang passam pela China. Pequim controla quase todo o óleo combustível que entra na Coreia do Norte. Eles relutam em cortá-lo, em parte porque afetaria a distribuição de alimentos.

Tenha em mente de que quase tudo o que entra na Coreia do Norte passa pela China, seja uma escova de cabelo e guarda-chuva até uma peça de míssil. O acesso se dá pela China. Há a Zona Desmilitarizada ao sul. Há o Mar do Japão ao leste e não há muito que chegue pelo Japão atualmente. A uma fronteira minúscula com a Rússia. Então tudo chega pela China e acho que a China tem muito poder. Acho que a China poderia facilmente provocar o colapso do regime norte-coreano. Eles têm dificuldade em fazê-los se curvarem à sua vontade, mas contam com muito poder.

Isaac Chotiner  um potencial real de os chineses mudarem sua abordagem?

Barbara Demick - Acho que há um potencial para mudança. As ameaças implícitas de Trump visam não apenas assustar os norte-coreanos, mas também assustar os chineses. Os chineses querem estabilidade em sua fronteira. Os chineses são meio que alérgicos a mudanças. Acho que se eles estiverem convencidos de que o governo Trump fará algo radical, eles podem mudar de postura. Acho que vou tentar ser um pouquinho otimista, porque ninguém mais está. Acho que os interesses americanos e chineses não são muito diferentes no momento.

Os chineses não gostam do desenvolvimento de armas de destruição em massa pela Coreia do Norte. Eles querem que a Coreia do Norte promova uma reforma de sua economia, porque não querem ter 22 milhões de pessoas passando fome do outro lado da fronteira. Acho que os Estados Unidos certamente não querem uma Coreia do Norte nuclear. Eles não querem uma Coreia do Norte altamente armada, armada com mísseis. Eles também não querem pessoas passando fome. Os Estados Unidos são mais inclinados a uma mudança de regime, mas acho que, falando de forma prática, no momento o mundo está muito bagunçado. Não precisamos de outro regime fracassado. Acho que todos desejam manter a Coreia do Norte em seu lugar: uma Coreia do Norte sem armas. Não acho que estamos muito distantes em termos do que queremos.

Isaac Chotiner Logo, me parece que você está dizendo que a "loucura" de Trump pode, na verdade, ser útil aqui, em relação tanto à Coreia do Norte quanto à China.

Barbara Demick - Bem, acho que sim. Acho que Trump assusta os norte-coreanos e acho que assusta ainda mais os chineses. Os chineses têm aversão a risco. Como eu disse, o Partido Comunista chinês realmente deseja estabilidade naquela fronteira e, caso esteja convencido de que Trump pode fazer algo sério, acho que serão mais cooperativos.

Isaac Chotiner O medo é de que não seja uma jogada, em nosso caso.

Barbara Demick - Bem, você sabe que para que fazer papel de louco funcione, é preciso ser convincente.

Isaac Chotiner Esse não é um pensamento tranquilizador.

Barbara Demick - Ele tentou várias técnicas com os chineses e ofereceu concessões no comércio. Acho que ele está deixando claro que está falando sério a respeito. Oh meu Deus, aqui estou eu, defendendo Donald Trump.

Isaac Chotiner Tempos desesperados. Finalmente, como você descreveria a vida das pessoas na Coreia do Norte? Elas estão melhores ou piores do que nos últimos anos?

Barbara Demick - Desde que Kim Jong-un assumiu em 2011, acho que a situação melhorou um pouco para as pessoas comuns, presumindo que você não seja uma autoridade do governo que foi, sabe como é, expurgada ou executada. Acho que na esfera popular, uma das primeiras coisas que Kim Jong-un fez foi reverter algumas das restrições de seu pai ao mercado. Acho que no dia a dia, isso tornou a vida mais fácil para as pessoas comuns. Não é ótimo, mas acho que mais fácil. Kim Jong-il travava essa guerra constante contra os mercados: proibindo a venda de produtos chineses, soja, quaisquer tipos de grãos, sendo muito rígido a respeito do horário de funcionamento dos mercados, que é a forma como as pessoas ganham a vida e se sustentam. Kim Jong-un relaxou algumas dessas restrições. Ele também lançou um programa de construções em Pyongyang, para construção de tudo, desde apartamentos melhores até seu Delfinário e seus parques de diversões, de modo que acho que ele está tentando, ao menos superficialmente, facilitar para que a elite permaneça leal a ele.

Por outro lado, há intolerância a qualquer tipo de, eu nem chamaria de dissensão, qualquer tipo de desaprovação ou resistência, de forma que o preço passou a ser maior, em geral, e os direitos humanos não estão melhores. Com certeza qualquer pessoa na elite, no governo, que não acompanha a vontade dele, foi expurgada.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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