Análise: Gays devotos lidaram melhor com sua sexualidade ao se tornarem padres

Ross Benes

  • TIZIANA FABI/AFP

    Padre Krysztof Olaf Charamsa, que trabalha no escritório do Vaticano, revelou a sua homossexualidade em entrevista para a imprensa

    Padre Krysztof Olaf Charamsa, que trabalha no escritório do Vaticano, revelou a sua homossexualidade em entrevista para a imprensa

Em março passado, o papa Francisco provocou uma onda de manchetes quando sugeriu a possibilidade de ordenar homens casados como padres. Já que não há evidências de que a prática da Igreja Católica mudará de fato, as reações aos comentários de Francisco foram prematuras. Mas os especuladores ignoraram um ponto interessante: abrir o sacerdócio a homens casados provavelmente reduziria a alta porcentagem de padres.

Enquanto pesquisava para meu livro "The Sex Effect" [O efeito do sexo], encontrei muitos acadêmicos que sugeriram que impedir que os padres se casassem alterou a composição do sacerdócio ao longo do tempo, inadvertidamente oferecendo um abrigo para alguns homens devotos esconderem sua orientação sexual. Ao continuar desqualificando as mulheres e os homens casados, o sacerdócio atrai homens que desejam se abster de sexo pelo resto de suas vidas na tentativa de aproximar-se de Deus. Como a igreja denuncia todo o sexo homossexual, alguns gays devotos procuram o sacerdócio celibatário como um incentivo para evitar o sexo com homens, o que pode ajudá-los a evitar a suposta condenação.

É claro que muitos fatores influenciam uma pessoa a decidir entrar para o clero; não é que a sexualidade somente determine as vocações. Mas é desonesto desprezar a influência da sexualidade, já que sabemos que existe um número desproporcional de padres gays, apesar da hostilidade da igreja em relação à identidade LGBT. Como disse um padre gay à série de documentários "Frontline", em um episódio de fevereiro de 2014, "não entendo essa atitude esquizofrênica da hierarquia contra os gays, já que muitos padres são gays".

Quantos padres gays existem na verdade? Embora haja um grande volume de textos homoeróticos de padres que remonta à Idade Média, é difícil ter uma conta precisa. Mas a maioria das pesquisas (que, devido à delicadeza do assunto, admitidamente sofrem de amostragens limitadas e outros problemas de modelo) conclui que entre 15% e 50% dos padres americanos são gays, o que é muito mais que os 3,8% de pessoas que se identificam como LGBT na população em geral.

No último meio século, também houve um crescente "engayzamento" do sacerdócio no Ocidente. Durante os anos 1970, várias centenas de homens deixaram o sacerdócio a cada ano, muitos deles para se casar. Conforme os padres héteros trocavam a igreja pela felicidade doméstica, aumentava a proporção dos gays que ficavam. Em uma pesquisa com milhares de padres nos EUA, o jornal "Los Angeles Times" descobriu que 28% dos padres entre 46 e 55 anos diziam ser gays. Essa estatística era mais alta que as porcentagens encontradas em outras faixas etárias e refletia o escoamento de padres héteros nos anos 1970 e 1980.

O grande número de padres gays também ficou evidente nos 1980, quando o sacerdócio foi duramente atingido pela crise da Aids que afligiu a comunidade gay. O jornal "Kansas City Star" estimou que pelo menos 300 padres americanos sofreram morte relacionada à Aids entre meados dos anos 1980 e 1999. O "Star" concluiu que os padres tinham duas vezes maior probabilidade que outros homens adultos de morrer de Aids.

Como a igreja chamou a orientação gay de "distúrbio objetivo" e o sexo gay de "um mal moral intrínseco", pode parecer estranho que um homem gay escolhesse essa profissão. Mas faz mais sentido depois de se perceber que a igreja encoraja a sublimação da homossexualidade por meio da oração. "As pessoas homossexuais são chamadas à castidade", declara o Catecismo da Igreja Católica. "Pelas virtudes do autodomínio que lhes ensina a liberdade interior, às vezes pelo apoio da amizade desinteressada, pela oração e a graça dos sacramentos, eles podem e devem gradual e resolutamente se aproximar da perfeição cristã."

A sublimação sexual é de longe a teoria mais comum na literatura sobre por que há tantos padres gays. Também houve especulações de que como um grupo minoritário discriminado os gays talvez sejam mais inclinados a sentir empatia pelas pessoas --um forte desejo de ajudar os outros leva alguns desses homens ao sacerdócio altruísta. Outro tema comum é que o celibato clerical é um bom disfarce para gays que querem ocultar sua orientação.

O Conselho Nacional de Revisão da Conferência dos Bispos Católicos dos EUA relatou que "certos homens homossexuais parecem ter sido atraídos ao sacerdócio porque erroneamente viam a exigência do celibato como um meio de evitar lutas com sua identidade sexual". Como disse o ex-padre gay Christopher Schiavone, "eu pensei que nunca precisaria contar meu segredo a outra pessoa, porque o celibato o tornaria irrelevante".

Não que a igreja não tenha consciência dessa questão. Um antigo presidente da Conferência dos Bispos se queixou de "uma luta em curso para garantir que o sacerdócio católico não seja dominado por homossexuais". E o papa Bento disse certa vez que a homossexualidade no sacerdócio era "uma das misérias da igreja" e que a igreja precisava "evitar uma situação em que o celibato dos padres praticamente acabaria sendo identificado com a tendência à homossexualidade".

Permitir mais homens casados no sacerdócio provavelmente traria mais homens héteros para a instituição, o que reduziria a porcentagem de padres gays. Como o número mundial de diáconos permanentes (que podem se casar e podem praticar quase todas as tarefas exigidas de um padre, exceto consagrar a Eucaristia ou ouvir confissões) aumentou em quase 40 mil nos últimos 40 anos, parece haver um grande grupo de homens casados abertos à vida clerical.

Mas só porque algumas autoridades da igreja gostariam de ver menos padres gays não significa que uma mudança na disciplina beneficiaria a instalação. Uma grande porcentagem de padres gays não equivale automaticamente a uma crise ou indica que a igreja deva mudar seus ensinamentos. Embora outras denominações tenham mostrado que mulheres, homens casados e pessoas LGBT sexualmente ativas podem ser totalmente competentes como pastores, há séculos o modelo da Igreja Católica de depender de homens solteiros e abstinentes de sexo em geral serviu à instituição. E a maioria dos padres católicos é psicologicamente ajustada e satisfeita com sua vida e ocupação.

O aumento da quantidade de gays no sacerdócio denota sobretudo um fenômeno complexo que deixa muitas pessoas pouco à vontade, um exemplo de regulamentos sexuais que produzem consequências indesejadas. Para a maior parte, a igreja continua desprezando a mudança de contextos culturais e preferindo aderir a leis de renúncia sexual desenvolvidas por antigas comunidades escatológicas e ascetas do deserto que reagiam a um mundo incerto. A igreja também continua dependendo de estruturas religiosas que foram influenciadas pelas condições sociais e econômicas da Idade Média.

Ao fazê-lo, a hierarquia contribuiu para um fenômeno que preferiria que as pessoas ignorassem: políticas rígidas sobre homossexualidade e celibato clerical inadvertidamente conduziram muitos gays ao sacerdócio. "Os bispos estão apanhados no meio e ficando assustados", disse o padre e teólogo Richard McBrien ao repórter Jason Berry em seu livro "Lead Us Not Into Temptation" [Não nos deixe cair em tentação]. "Eles vivem em uma igreja com uma política muito dura sobre os homossexuais, mas percebem que estão atraindo essa população muito além de sua presença na sociedade, em geral."

Um paradoxo dessa magnitude parece surpreendente. E certamente o é para os padres gays que lutam com a dissonância cognitiva. Mas, como indica um trecho de "Human Sexuality in the Catholic Tradition" [A sexualidade humana na tradição católica], "a fé cristã proclama sua verdade mais profunda em paradoxos". O maior paradoxo da igreja contemporânea talvez seja que suas posições de autoridade continuam ser fortemente representadas por pessoas que, segundo ela, são afetadas por um "distúrbio objetivo".

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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