Opinião: Militarismo de Trump mostra que os EUA precisam de um imposto de guerra

Noah Berlatsky

  • Nicholas Kamm/ AFP

    O presidente dos EUA, Donald Trump (dir.), cumprimenta o general de exército H.R. McMaster

    O presidente dos EUA, Donald Trump (dir.), cumprimenta o general de exército H.R. McMaster

O enorme míssil balístico que os EUA despejaram no Afeganistão no início deste mês --a "mãe de todas as bombas"-- criou uma cratera enorme no que deveria ser o movimento contra a guerra neste país. Antes da eleição, pacifistas de esquerda como Glenn Greenwald e isolacionistas de direita como Justin Raimondo se convenceram de que as declarações contraditórias de Trump sobre política externa significavam que ele derrubaria o consenso bipartidário de política intervencionista em Washington.

Está claro que essas esperanças eram, para ser delicado, tolas. No primeiro trimestre, Trump lançou ataques de mísseis contra a Síria, atirou uma bomba no Afeganistão e se envolveu em disputas verbais com a Coreia do Norte, que tem armas nucleares. Trump entende pouco de política externa e se importa ainda menos, mas gosta de atos dramáticos e da ilusão de possuir uma capacidade de decisão muito masculina. Ele também é facilmente influenciado por qualquer coisa que apareça na televisão enquanto está assistindo. O presidente parece contente em despejar bombas onde quer que o establishment militar sugira, desde que ache que ele vai sair bem na TV a cabo.

Mas a fé anti-intervencionista em Trump não foi apenas um simples caso de mau julgamento. É sinal de um sério fracasso estratégico. A oposição à guerra desde o 11 de Setembro, e mesmo antes, concentrou-se em guerras específicas e personalidades específicas. O sentimento antimilitarista --e a oposição particular à beligerância de George W. Bush e Hillary Clinton-- se uniu atrás de Obama e o ajudou a ganhar a primária em 2008, e depois a eleição.

Afinal, Obama expandiu os programas de drones e ajudou a mudança de regime na Líbia, para decepção de seus apoiadores. Os ativistas antiguerra atacaram Clinton como um "falcão" na primária contra o vagamente não intervencionista Bernie Sanders, e continuaram avisando sobre a beligerância de Hillary em geral enquanto ela ganhava o apoio de neoconservadores como David Frum e Max Boot. E qual foi o resultado da derrota dessa partidária da guerra? Os EUA escalaram a ação na Síria e no Afeganistão --e estão enviando sinais de advertência terríveis à Coreia do Norte.

O problema não é que Obama, Clinton e Trump e quem quer que seja sejam todos traidores pérfidos do movimento anti-intervenção. Tanto os republicanos quanto os democratas consideram a intervenção uma política séria, importante e valiosa dos EUA (e até meio divertida, se a comemoração que cercou a MOAB servir de indício). Há também um enorme establishment militar para defender a guerra. Não há um establishment equivalente que defenda a paz.

Isso não é motivo para que os anti-intervencionistas se desesperem. Mas é um motivo para tentar encontrar novas táticas. Os movimentos por mudanças bem sucedidos não escolhem simplesmente um herói e esperam que ele ou ela produza a paz em vez de mísseis. Os ativistas precisam realmente apresentar políticas concretas, tanto para que possam medir o progresso quanto para que possam medir a fidelidade. Objetivos como um salário mínimo de US$ 15 por hora ou faculdade grátis não bastam para dar origem a um paraíso socialista. Mas eles estabelecem um parâmetro na direção do qual trabalhar e permitem que os partidários avaliem o envolvimento dos candidatos.

Então quais poderiam ser as mudanças estruturais em cujo sentido os anti-intervencionistas poderiam trabalhar? Que políticas concretas poderiam diminuir a probabilidade de os EUA despejarem bombas no exterior ou invadir países estrangeiros?

Para Rajan Menon, autor de "The Conceit of Humanitarian Intervention" [A arrogância da intervenção humanitária], a principal barreira à paz é o fato de que "a sociedade não se envolve no jogo de guerra neste país". Não há recrutamento forçado, o que significa que "a probabilidade de que o americano médio em idade de lutar seja recrutado, especialmente os que pertencem à classe média e média-alta, não existe". Os gastos militares geralmente têm autorização para inchar o deficit, por isso as pessoas também não sentem visceralmente a guerra como um problema em seu bolso.

Pedir que o Congresso pagasse pelos gastos militares diretamente, por meio de um imposto especial, com certeza enfocaria a atenção dos eleitores.

É difícil imaginar um movimento antiguerra fazendo um lobby entusiástico a favor do recrutamento. As pessoas que querem reduzir a intervenção são apaixonadas por reduzir o militarismo e o número de tropas no exterior. Anti-intervencionistas pedirem o recrutamento é um pouco como ativistas contra as prisões afirmarem que mais pessoas precisam se tornar carcereiros para ver em primeira mão as terríveis condições. Você pode pôr um argumento a favor disso em papel, mas é improvável que atraia emocionalmente os ativistas apaixonados que você espera que pressionem por mudança.

Menon sugere um possível substituto para o recrutamento, porém: um imposto de guerra. Exigir que o Congresso pague pelos gastos militares diretamente por meio de um imposto especial --talvez um imposto de valor agregado-- certamente enfocaria a atenção dos eleitores. E também obrigaria o Congresso a realmente votar sobre a ação militar, o que eles devem fazer segundo a Constituição --embora sempre tenham evitado de bom grado a responsabilidade nos últimos anos.

Outro especialista, Barry Posen, autor de "Restraint: A New Foundation for U.S. Grand Strategy" [Contenção: uma nova base para a grande estratégia dos EUA], sugeriu que uma meta concreta de política que poderia "jogar areia na engrenagem" da intervenção é eliminar o fundo de Operações de Contingência no Exterior (OCO na sigla em inglês). Esse é um fundo separado de cerca de US$ 60 bilhões fora do orçamento regular do Pentágono para operações de guerra. O Departamento da Defesa não precisa especificar antecipadamente em que o dinheiro será usado, e o fato de que é nominalmente rotulado como diretamente necessário às tropas durante a guerra torna muito improvável que o Congresso o investigue de perto.

O fundo aberto essencialmente permite que o Pentágono financie guerras sem ter de admitir ou estabelecer compensações. Se as tropas precisam de mais equipamento, os contribuintes deveriam saber exatamente qual é o equipamento e quanto custará, para podermos decidir se a guerra vale o custo, em vez de simplesmente despejar dinheiro indefinida e opacamente nos envolvimentos atuais. Livrar-se do OCO não nos impediria de fazer guerra, mas poderia forçar o governo e o Congresso a serem mais honestos sobre os custos. Poderia nos levar mais perto da contenção.

Posen também sugere ressuscitar a expressão "interesses vitais". De maneira ampla, disse ele, os EUA não deveriam ir à guerra a menos que enfrentem uma ameaça à segurança ou perigo reais. "É vital para os EUA derrubar o regime de Assad?", pergunta Posen. "Bem, não há nada que torne isso vital até que alguém esteja preparado para dizer que é vitalmente importante para nosso sentimento moral nacional."

É sempre possível encontrar alguma razão para que um interesse seja vital, se você for determinado. Mas no momento os políticos mal parecem sentir a necessidade de encontrar uma explicação. Por que despejamos uma bomba no Afeganistão? Como isso protege os EUA? Se houve alguma discussão, ela foi afogada no rumor de excitação sobre como é bacana o nome "a mãe de todas as bombas" [MOAB na sigla em inglês].

Nenhuma dessas sugestões é perfeita. Um imposto de guerra parece algo praticamente impossível de aprovar, e talvez tão difícil de se promover numa campanha quanto o recrutamento. Fechar o OCO talvez não tivesse muito efeito prático. Falar sobre "interesses vitais" provavelmente não energizará o pessoal para o qual a anti-intervenção é uma questão de paixão moral, e não irá explicar os marcadores necessários para os políticos. E, é claro, você poderia pensar em outros objetivos. Cortar os gastos de defesa em 15% ou 20%, digamos, para financiar escolas, talvez?

Encontrar uma meta política que energize as pessoas e seja factível provavelmente ainda não aconteceu porque não é especialmente fácil. Se a esquerda um dia se unir em torno de uma política específica e conseguir vendê-la ao público, poderá levar anos para implementar até mesmo uma parte dela. Mas é por isso que é importante mudar o foco de procurar o candidato certo para procurar as recomendações políticas certas o mais rápido possível. Os anti-intervencionistas precisam pensar em definir parâmetros; pensar em mudar estruturas específicas; pensar em como e que base para vender com sucesso esses objetivos ao público. Do contrário, você fica depositando sua fé em políticos aleatórios, e então sendo surpreendido, mais uma vez, quando eles afinal o traem.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos