Opinião: Coreia do Norte era problema para o futuro, mas Trump trouxe para hoje

Fred Kaplan

  • KCNA/Handout via Reuters

    Imagem de um míssil sendo disparado na Coreia do Norte. A foto foi divulgada pela Agência Norte-Coreana de Notícias e pode ser do míssil lançado em teste no dia 12 de fevereiro

    Imagem de um míssil sendo disparado na Coreia do Norte. A foto foi divulgada pela Agência Norte-Coreana de Notícias e pode ser do míssil lançado em teste no dia 12 de fevereiro

A Coreia do Norte é um problema complicado, mas não há motivo para a histeria que o presidente Trump e seus assessores vêm incitando nos últimos dias, de forma que é hora de baixar o tom, antes que alguém se machuque.

A preocupação (por sinal legítima) é que, em breve, os norte-coreanos testarão outro míssil balístico ou arma nuclear que violaria, de novo, uma resolução das Nações Unidas e os deixaria um passo mais próximos de ameaçarem tropas americanas e aliados no Leste da Ásia e, talvez, daqui alguns anos, os próprios Estados Unidos. Mas não há uma crise imediata, nenhuma ameaça que precise ser eliminada agora ou nunca. Mas o presidente Trump está enviando um porta-aviões e um submarino armado com mísseis para a costa norte-coreana. Ao mesmo tempo, ele convocou todos os 100 senadores americanos para um briefing confidencial sobre o assunto, que será realizado na Casa Branca, na quarta-feira, pelos secretários de Defesa e Estado, pelo diretor nacional de inteligência e pelo chefe do Estado-Maior das Forças Armadas.

Os exercícios militares americanos na região são rotineiros, assim como briefings confidenciais para um grupo seleto de legisladores. Mas a realização de um briefing para todos os senadores, por parte das mais altas autoridades de segurança do governo, é incomum. Sua realização na Casa Branca (ou, mais precisamente, no Prédio do Gabinete Executivo ao lado da Casa Branca), em vez de no Capitólio, é sem precedentes. E fazê-lo enquanto os navios de guerra mais mortíferos da frota não nuclear da Marinha americana seguem para o país em questão, bem, os líderes na região não precisam ser paranoicos para deduzirem que Trump pode estar se preparando para lançar um ataque contra a Coreia do Norte.

Mesmo assim, é improvável que Trump pretenda de fato lançar um ataque. Segundo todos os relatos, sem principais conselheiros, aliados americanos na região (especialmente os líderes da Coreia do Sul e do Japão) e seu mais novo melhor amigo, o presidente da China, Xi Jinping, estão aconselhando contra uma ação militar. Mas quem sabe o que pode passar pela cabeça de Trump de um momento para outro? Sua imprevisibilidade e impulsividade podem ter um efeito dissuasivo, como uma versão acidental da "teoria do louco" de Richard Nixon. Precisamente por não saber como Trump reagirá, o líder norte-coreano Kim Jong-un pode baixar o tom de suas provocações, até mesmo adotar certa cautela.

Mas digamos que Kim ignore a apunhalada inconsciente de Trump no estratagema e arrisque outro teste de míssil ou nuclear. Será que Trump, irritado com a persistência de Kim ou sentindo a necessidade de demonstrar "determinação" e "credibilidade", lançaria uma salva de mísseis ou mais contra os locais de testes, ou contra algumas instalações nucleares, ou mesmo contra os locais onde Kim costuma estar em Pyongyang?

A maioria dos observadores da Coreia do Norte está convencida de que, nesse cenário, Kim retaliaria com um ataque, possivelmente um ataque do tipo "todos cairão comigo", contra bases americanas e aliados, não necessariamente com armas nucleares, mas com uma barragem de artilharia. As forças armadas norte-coreanas possuem milhares dessas armas posicionadas na fronteira com a Coreia do Sul (cuja capital, Seul, fica apenas a 56 km de distância) assim como em sua costa leste (tendo o Japão ao seu alcance). Os testes de artilharia de longo alcance da Coreia do Norte na terça-feira sem dúvida visavam "sinalizar" o que Trump deve esperar caso cumpra sua própria ameaça.

Ninguém deseja um conflito militar, com centenas de milhares, possivelmente milhões, de vítimas em ambos os lados. Mas uma mistura de blefe mútuo, beligerância, ego e insegurança, alimentados por poder de fogo pesado e um comichão em um ou dois dedos no gatilho, pode levar potencialmente a um resultado letal. Nos anais da história, guerras foram iniciadas por situações menos inflamáveis.

'Se Trump ordenar um ataque desafiando os protestos da Coreia do Sul e do Japão, então diga adeus a eles como aliados, entre outros.'

O general reformado John Kelly, secretário de segurança interna, disse nesta semana que "no minuto" em que a Coreia do Norte tiver um único míssil nuclear com capacidade de atingir os Estados Unidos, "nós, como uma nação, estaremos sob grave risco". É verdade? Os Estados Unidos sobreviveram a três décadas de Guerra Fria, quando a União Soviética tinha mais de 1.000 mísseis desse tipo; e apesar de Kim, assim como seu pai e avô, que reinaram em Pyongyang antes dele, parecer mais volúvel e propenso a risco do que os comissários que comandavam o Kremlin, seu imperativo principal é preservar seu regime. Não há evidência de que torne obsoletos os princípios básicos da dissuasão nuclear.

Ao menos Kelly reconheceu que o espectro de um míssil balístico intercontinental norte-coreano ainda está alguns anos no futuro. Alguns de seus colegas parecem estar mais afoitos. O vice-presidente Mike Pence, durante sua visita na semana passada à Coreia do Sul, disse que a "era da 'paciência estratégica' acabou". Ele se referia à frase do presidente Obama para uma política que reconhecia os limites do poder militar americano contra a Coreia do Norte e que se concentrava, em vez disso, em sanções e contenção como ferramentas para minar o regime de Kim com o passar do tempo. Paciência estratégica pode ter dado poucos frutos até agora, mas qual é a alternativa de Pence, a impaciência não estratégica?

Trump não vai ordenar um ataque contra solo norte-coreano, nem mesmo em retaliação a outro teste de míssil ou nuclear, enquanto a Coreia do Sul ou o Japão tiverem algo a dizer a respeito. Se ele ordenar um ataque em desafio aos protestos deles, então diga adeus à Coreia do Sul e ao Japão, entre outros, como aliados, e esse seria o melhor resultado. (O pior é o fim da aliança, mais um número imenso de mortes.)

Por outro lado, se a Coreia do Norte testar outro míssil ou arma nuclear, e se Trump de forma sábia não responder com força militar, então seus alertas belicosos da última semana (os tweets ameaçadores, o briefing e a mobilização da Marinha) pareceriam, olhando para trás, como um rugido de tigre de papel.

Provavelmente é verdade que o problema norte-coreano não acabará sem o fim do regime de Kim, mas uma intervenção militar não é a única rota para mudança do regime e ataques aéreos americanos provaram ser inadequados para isso. Não há dúvida, como argumentado na mais recente edição da revista "Foreign Affairs" (em um artigo intitulado "Endurecendo com a Coreia do Norte"), que a família Kim explorou todos os esforços de engajamento diplomático e ajuda econômica, devolvendo confiança e favor com auto engrandecimento e logro.

Mas há algum retrospecto de sucesso nesse jogo. A Estrutura de Acordo de 1994, negociada pelo governo de Bill Clinton, desmontou a usina de reprocessamento de plutônio da Coreia do Norte, instalou inspetores internacionais e quase abriu caminhos adicionais, como a proibição de teste de mísseis, até o colapso da diplomacia, em parte porque o Congresso americano não financiou a ajuda em energia prometida pelo acordo, em parte porque a Coreia do Norte começou a enriquecer urânio (um caminho alternativo para armas nucleares que o acordo não proibia), em parte por George W. Bush ter abandonado o acordo quando se tornou presidente.

Também pode-se argumentar que pressões econômicas, especialmente o conjunto de sanções secundárias que Obama implantou ao final de sua presidência, começaram a surtir algum efeito sobre a disposição da China em pressionar Kim. O regime de Kim também começou a permitir mercados protocapitalistas para fornecimento de bens de consumo. Isso levou a uma abertura da Coreia do Norte a exposição e influência ocidentais, o que, apesar de muito limitado no momento, poderia prenunciar rupturas em um futuro próximo.

Finalmente, gostemos ou não, não temos escolha a não ser lidar com a Coreia do Norte diplomaticamente. A Coreia do Sul provavelmente está prestes a eleger um presidente muito mais disposto a dialogar com a Coreia do Norte e bem mais resistente a um confronto. A China, o país com maior capacidade de pressionar Kim, não aplicará pressão demais a ponto de causar um colapso repentino do regime, provocando uma crise de refugiados e uma tomada sul-coreana (que seria, digamos, apoiada pelos Estados Unidos) de toda a península. Logo, não há alternativa para a diplomacia. Deverá ser uma diplomacia complexa, consistindo de coerção tanto quanto de concessões. Mas algo que a mistura não deve incluir, a coisa que mais provavelmente impediria o progresso desejado, é a ameaça de uso de força militar que ninguém deseja e que pode resultar em consequências catastróficas. Esse parece ser o caminho que Trump está trilhando no momento e os adultos ao redor dele devem tirá-lo dali.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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