"Como muçulmano americano, nunca me senti aceito em meu próprio país - até o governo Trump"

Aymann Ismail

  • Kathy Willens/NYT

    2.fev.2017 - Muçulmanos e iemenitas protestam contra o presidente Donald Trump, que suspendeu temporariamente a entrada de alguns países de maioria muçulmana nos EUA

    2.fev.2017 - Muçulmanos e iemenitas protestam contra o presidente Donald Trump, que suspendeu temporariamente a entrada de alguns países de maioria muçulmana nos EUA

Para os americanos muçulmanos, a presidência de Donald Trump foi desanimadora, mas não um choque. Pode ser fácil esquecer que seu governo está longe de ser a primeira ameaça aos direitos civis dos muçulmanos nos EUA, e provavelmente não será a última. A eleição de Trump me horrorizou, mas meu pai disse: "Eles são todos iguais". Eu lhe falei sobre as declarações de Trump contra os muçulmanos, o nacionalismo branco que alimentou sua candidatura. "É só um teatro de bonecos", insistiu meu pai.

Não estou tão tranquilo sobre os danos que Trump pode causar aos americanos muçulmanos, mas entendo a tese de meu pai. Ele não espera que as coisas piorem, principalmente porque para nós as coisas nunca foram realmente boas.

Durante anos, a partir de meados da década de 2000, o Departamento de Polícia de Nova York adotou um amplo programa de vigilância encoberta nas comunidades muçulmanas, incluindo aquela onde eu cresci. Sem ter suspeitas de atos errados, a polícia declarou as mesquitas "empresas de terrorismo" para justificar o monitoramento de qualquer pessoa que passasse por suas portas e para segui-las em restaurantes, lojas e até em suas casas. Se eles queriam saber o que acontecia no interior da comunidade, bastava perguntar.

No relatório secreto que produziram sobre minha cidade natal, Newark, em Nova Jersey, reconheci muitos lugares que minha família e eu frequentávamos. Eles estavam vigiando a mesquita a que meu pai me levava às sextas-feiras antes de irmos a um restaurante chinês que também estava incluído no relatório da polícia. Às vezes eu sentia que estava sendo espionado. E não foi bom saber que eu estava certo.

Depois que o programa foi denunciado, houve algumas vozes importantes de reprovação, e após assumir o cargo de prefeito de Nova York Bill de Blasio desmontou a unidade secreta.

O programa resultou em zero pistas. Mas a polícia de Nova York não teve de responder por seus atos, definitivamente não em público. Não houve grandes marchas de americanos --ou mesmo só de nova-iorquinos-- em solidariedade com minha comunidade, nem sinais de protesto espertos com piadas surgiram nas minhas redes sociais.

Eu não esperava indignação, e não houve nenhuma. Aprendi há muito tempo que nem sempre podemos contar com nosso governo para nos proteger. Foi igualmente desanimador perceber que ninguém mais tampouco viria nos ajudar.

Nos EUA de Trump, porém, isso não é mais verdade. E foi o que mais me surpreendeu desde que ele assumiu o cargo. Obama falhou em sua promessa de fechar Guantánamo, aumentou drasticamente as capacidades de vigilância doméstica de nosso governo e conduziu uma guerra de drones no Oriente Médio.

Bush assinou a Lei dos Patriotas e lançou as duas guerras que permitiram a ascensão de grupos terroristas como o Estado Islâmico. Nenhum deles provocou as demonstrações de apoio aos direitos dos muçulmanos e a simpatia pela experiência muçulmano-americana que eu vi e senti desde 20 de janeiro.

É difícil saber se isso significa que alguma coisa mudou para valer, especialmente quando passei a vida inteira me sentindo como um estrangeiro que nunca seria aceito como um verdadeiro americano. Minha irmã mais velha ainda me adverte para tomar cuidado. Ela sabe que, como jornalista, eu gosto de me colocar em situações polêmicas. Na noite da eleição ela me pediu para ficar em casa, em vez de ir fazer reportagem na Trump Tower. Minha irmã, que usa um lenço hijab, já foi alvo de ódio suficiente para ser cautelosa.

Mas a geração mais velha de minha família parece insensível. A vida sob Trump não pode ser pior do que viver sob um verdadeiro ditador, como no Egito, dizem eles. "Não deixe que ele o incomode", diz meu pai. Segundo ele, todas as figuras de Trump são atores trabalhando em uma novela de TV. Mas não há como negar que a vida cotidiana com Trump é diferente, e não só de maneiras ruins.

Antes deste ano, eu associava o Aeroporto John F. Kennedy com ter de me preparar para uma checagem mais dura. Quando fui ao JFK fazer reportagem sobre os protestos à primeira proibição de viagem, fiquei surpreso ao ver a enorme demonstração de apoio aos muçulmanos. Foi emocionante para mim ver uma pessoa gritar: "Quando os muçulmanos são atacados..." e centenas de outras responderem: "Levante-se e lute!" Durante a maior parte da vida eu temi ir ao JFK. Agora vou lembrar dele como o lugar onde finalmente me senti americano.

Esta pode parecer uma declaração estranha para os que não tiveram sua identidade constantemente posta em xeque. Por que eu deveria deixar outros ditarem quem eu sou? Mas a certa altura, depois de ouvir muitas vezes que você é o inimigo, é difícil não se sentir constantemente suspeito de ser um.

É por isso que ver uma multidão em que nem todo mundo era parecido comigo, ou uns com os outros, colocar seus corpos em perigo para expressar seu apoio e simpatia por meu direito de estar aqui foi algo a que eu estava condicionado a não esperar.

Nunca senti tanto orgulho de ser americano como nos últimos cem dias. Isso não desconta o verdadeiro ataque ao islã que acontece em alguns canais de mídia e nos corredores do governo, nos conceitos errados que são disseminados sobre a religião e o perigo que ela representa para a vida americana.

Mas, no que me parece a primeira vez desde o 11 de Setembro, os direitos dos muçulmanos nos EUA estão sendo tratados pelo público como uma questão de direitos humanos e não de segurança nacional. E essa sensação de inclusão pode ser nossa melhor arma para impedir o terrorismo doméstico de que tanto nos advertem.

Detesto pensar em Trump, falar sobre ele ou assistir ao noticiário hoje dominado por Trump. Se eu pudesse escolher, manteria minha identidade em particular e passaria o tempo fazendo o que gosto com minha família e meus amigos.

Mas sinto que não tenho opção, e embora tenha sido tranquilizador me sentir mais reconhecido como um americano, também lamento que minha identidade tenha se tornado mais exposta. Preciso defender o islamismo, porque protegê-lo significa proteger a mim mesmo.

O islã me lembra constantemente para ser calmo e confiar nos planos de Deus. Não sou mais tão pessimista sobre o que quatro anos de um regime Trump significarão para mim e para os muçulmanos americanos. Ele precisa manter nossa gente amedrontada, mas eu vi pessoas se recusarem a ter medo. Uma coisa de que fui lembrado desde que Trump venceu é que a identidade é especialmente complexa no Ocidente.

Eu me considero um rapaz que cresceu em Newark, que é obcecado por música e arte e sempre usa grandes fones de ouvido. Trump quer que eu pense em mim mesmo apenas como um muçulmano. Ele quer que os outros me vejam só como um muçulmano. Mas hoje eu sei que a maioria das pessoas não vai me ver como ele quer.

*Aymann Ismail é um produtor/editor de vídeo de Slate.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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