Opinião: Como Trump deixou os EUA menos seguros em cem dias

Phillip Carter

  • THE WHITE HOUSE

    Presidente dos EUA, Donald Trump, em reunião com a Segurança Nacional, em Mar-a-Lago

    Presidente dos EUA, Donald Trump, em reunião com a Segurança Nacional, em Mar-a-Lago

Se a única medida de sucesso na segurança nacional durante os primeiros cem dias de um presidente fosse evitar a catástrofe, então ótimo, o presidente Trump conseguiu. Não houve ataques aos EUA, nem novas guerras ou o Armagedon nuclear --tudo isso é bom, e no momento podemos respirar aliviados.

No entanto, esses resultados provavelmente devem mais à máquina de segurança nacional construída pelos antecessores de Trump do que a alguma decisão do 45º presidente. Por qualquer outro parâmetro, Trump falhou na segurança nacional e na política externa. Os fracassos de Trump em pessoal, processo e política se combinaram para criar uma tempestade perfeita de insegurança.

Há um antigo clichê em Washington: "Pessoal é política". O ditado reflete a sabedoria de que a agenda de qualquer presidente depende de seus nomeados políticos para refinar e implementar aquela visão. A Casa Branca de Trump falhou primeiro e mais espetacularmente nesse requisito, tanto por construir uma Casa Branca e um Conselho de Segurança Nacional (CSN) disfuncionais, como por deixar de equipar seus órgãos de segurança nacional com o pessoal necessário para supervisionar e dirigir a política externa.

A intriga palaciana que sai da Casa Branca de Trump poderia encher volumes. Ela inclui a atual guerra entre o lado populista liderado pelo estrategista Steve Bannon e os lados do establishment comandados pelo chefe de Gabinete Reince Priebus, o assessor econômico Gary Cohn e o genro Jared Kushner. O establishment parece ter ganhado os primeiros rounds, tirando Bannon do CSN e contratando os antigos profissionais da segurança nacional H.R. McMaster, Dina Powell, Tom Bossert e Nadia Schadlow para conduzir a pasta de segurança de Trump. Entretanto, esses novos profissionais trazem consigo suas próprias ideias sobre política externa, contrastando com o nacionalismo dos "EUA primeiro" que levou Trump à Presidência. Por enquanto, a mistura de favoritos políticos de Trump com seus novos profissionais do establishment provavelmente significa incoerência na frente de segurança nacional durante algum tempo, em que a Casa Branca tropeça de crise em crise, com atos e palavras desconectados de uma doutrina mais ampla.

As más decisões pessoais também prejudicaram o governo Trump em seus primeiros cem dias. Michael Flynn e K.T. McFarland não foram nada bem na condução do CSN em suas breves temporadas lá. Contratações de escalão mais baixo também se saíram mal, das constantes lutas de Sebastian Gorka com supostos laços com nazistas às batalhas frequentes do assessor de inteligência Ezra Cohen-Watnick com a comunidade de inteligência. O efeito líquido foi privar Trump de um CSN funcional em um momento em que ele precisava desesperadamente de algo ou alguém para desenvolver, articular e coordenar a política de segurança nacional.

No nível de agência, a máquina de indicações políticas da Casa Branca de Trump foi incrivelmente disfuncional, supostamente por causa das brigas entre facções da Casa Branca por escolhas pessoais. Isso esgotou o Pentágono, o Departamento de Estado, o Departamento de Justiça e outros órgãos de subsecretários, secretários-assistentes, vice-secretários-assistentes e assistentes especiais, que realmente implementam a agenda presidencial.

Na falta de uma equipe Trump, a liderança militar uniformizada e os funcionários públicos de carreira dessas agências seguiram em frente --mas com atritos significativos, diante do desprezo pessoal declarado de Trump por essas pessoas durante a campanha e depois.

Essas falhas de pessoal agravaram a segunda categoria de falhas de Trump: as de processo. O CSN foi codificado em 1947 --juntamente com o moderno Departamento de Defesa, a CIA e o Estado-Maior Conjunto-- para corrigir processos considerados falhos durante a Segunda Guerra Mundial.

A grande ideia por trás da Lei de Segurança Nacional foi criar um processo capaz de suportar funcionários fracos, garantindo que a instituição da Presidência fosse bem servida por seus órgãos de segurança nacional e pudesse assim tomar decisões mais bem informadas.

Apesar de sua aspiração a dirigir a Casa Branca como uma "máquina bem regulada", o governo Trump falhou de maneira uniforme em implementar processos para servir à sua agenda.

De fato, às vezes, como em sua corrida de 63 horas para atacar a Síria com mísseis de cruzeiro, ou seu anúncio de um plano fiscal antes que os detalhes fossem definidos, a Casa Branca parece em guerra com a própria ideia de processo --como se orçamentos, planejamento e coordenação fossem características tóxicas do pântano de Washington, a ser rejeitadas a todo custo.

As maiores falhas de processo foram as que afetam todo o governo. O fracasso de Trump em desenvolver orçamentos detalhados, e mais ainda em concordar com o Congresso sobre níveis e prioridades de financiamento, quase levou o país a um bloqueio do governo. Todos os indícios apontam que o impasse foi resolvido, mas o resultado será provavelmente uma "resolução continuada" que emperra todas as principais decisões de orçamento e mantém as agências no limbo sobre programas importantes --incluindo a aquisição de sistemas de armas, gastos em treinamento e exercícios importantes e despesas com membros em serviço e programas de famílias de militares.

Que Trump tenha proposto um aumento da defesa é quase irrelevante; sem um orçamento real, e um acordo com o Congresso sobre os detalhes, as propostas de Trump nada significam. Ao lado do orçamento, destaca-se a abjeta falta de coordenação no interior do governo Trump.

Repetidamente, por uma série de razões, o governo manteve seus círculos de decisão pequenos demais, excluindo dos processos políticos funcionários de carreira, líderes militares e outros interessados até a última hora (e nem isso às vezes).

A própria agenda de Trump sofreu --em alguns casos de modo espetacular. Uma das maiores promessas de campanha de Trump, a de construir um muro na fronteira dos EUA com o México, parou por falta de verbas, e as propostas provavelmente ficarão emperradas no processo de contratação do governo durante meses, ou anos.

Suas ordens de imigração foram consideradas inconstitucionais por causa de erros que seus advogados dos Departamentos de Justiça e de Segurança Interna teriam percebido e corrigido se tivessem a oportunidade. Em alguns casos, as falhas de processo tiveram consequências mais letais.

O presidente Trump ordenou durante um jantar com sua equipe sênior um ataque arriscado de operações especiais ao Iêmen, com pouco processo ou coordenação. O ataque deu errado, como ocorre às vezes com operações militares. Em vez de assumir a responsabilidade, Trump culpou os militares pelos fracassos substanciais em campo e pelo processo de decisão falho que colocou os SEALs lá.

Desconexões entre a Casa Branca, o Departamento da Defesa e o Comando do Pacífico resultaram em uma saga confusa sobre os movimentos de um porta-aviões americano, resultando na diluição de qualquer valor dissuasivo que as palavras do presidente Trump poderiam ter em Moscou ou Pequim.

Os fracassos de pessoal e de processo de Trump contribuem para fracassos políticos em todo o tabuleiro da segurança nacional. # A mais óbvia falha de Trump em política externa é que não há política, nem doutrina, nem estratégia que ligue os fins desejados pelo presidente Trump aos modos e meios do governo.

Em seus primeiros cem dias, Trump e seus principais assessores claramente falharam em articular sua visão de mundo e o papel dos EUA nele. Oráculos do pântano como eu só podem dar palpites sobre o que poderia ser a doutrina de Trump juntando partes das entranhas de atos particulares como o ataque de mísseis à Síria ou as declarações beligerantes em direção ao Irã, e deduzir o que Trump estaria pensando em uma escala maior.

Os substanciais fracassos das políticas do governo Trump formam uma longa lista --e foram só 99 dias. A Rússia paira poderosa, com o governo Trump oscilando entre o amor não correspondido por Vladimir Putin e seu regime e as corretas declarações de que os atos da Rússia na Síria e na Europa oriental (para não falar na espionagem ligada à eleição) constituem uma ameaça à segurança nacional dos EUA.

Sobre a China, o governo oscila entre ameaçá-la com a guerra econômica e declarar que a situação da relação EUA-China é "excelente" depois de uma cúpula com o presidente chinês, Xi Jinping. No Oriente Médio, o governo Trump continuou principalmente a campanha do governo Obama contra o Estado Islâmico no Iraque e na Síria.

No entanto, os primeiros passos do governo também minaram essa campanha, como a primeira ordem contra imigrantes que proibiu iraquianos de entrar nos EUA --alienando nosso principal aliado na luta contra o EI--, ou o relatado afrouxamento das regras de ataque aéreo que causaram mais baixas civis.

No Afeganistão, onde as tropas americanas continuam lutando nossa guerra mais longa, a situação piora, apesar do uso da "mãe de todas as bombas" em 13 de abril para matar algumas dezenas de combatentes do EI perto da fronteira do Paquistão.

Nossa política externa incoerente reflete os sentimentos diários de um presidente novato que até agora falhou em juntar as pessoas, os processos e as políticas para garantir o êxito de sua Presidência e da nação. Sem nomeados políticos no lugar, sem um orçamento, sem um processo significativo de segurança nacional, o presidente Trump dificilmente conseguirá conduzir o navio do Estado de forma a evitar o encalhe, quanto menos traçar uma rota na direção dos EUA que ele quer.

E até que a situação melhore estaremos todos destinados a viver em um estado de insegurança nacional.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos