Opinião: Quem 'expõe' os velhos tuítes de Trump não está revelando quem ele realmente é

Katy Waldman

  • Carolyn Kaster/NYT

    Donald Trump discursando no Departamento do Interior, em Washington, nos EUA

    Donald Trump discursando no Departamento do Interior, em Washington, nos EUA

O Twitter tornou-se um sítio de escavação para arqueólogos que se especializam em Trump. Eles desenterram os antigos tuítes do presidente para expô-los em uma galeria de hipocrisias. A galeria é entediante e deprimente. E não acaba nunca.

Recentemente, apresentou postagens de anos atrás, declarando que Obama não deveria atacar a Síria (agora que Trump bombardeou a Síria), que Obama não tem transparência (depois que Trump acabou com o registro de visitantes à Casa Branca), que Obama emite ordens executivas inconstitucionais (depois que Trump tentou impedir que refugiados muçulmanos entrassem no país) e que Obama joga golfe demais (Trump pratica o esporte em quantidades prodigiosas).

Além disso, @realDonaldTrump, cujo homólogo no espaço físico perderia o voto popular, mas ganharia no colégio eleitoral em 2016, declarou em 2012 que a instituição era uma fraude. Como candidato, ele criticou Hillary Clinton quando cinco membros de sua equipe buscaram a imunidade do FBI.

Como presidente, ele incentivou o ex-assessor de Segurança Nacional Michael Flynn a buscar a imunidade do FBI. Depois de zombar dos democratas online por reclamarem das obstruções republicanas em 2012, ele pôs a culpa pelo fracasso de sua lei de saúde na esquerda intratável em 2017.

Os arqueólogos retuítam suas descobertas e periodicamente as compilam em longos artigos. "Os tuítes antigos de Trump estão se tornando um campo minado de hipocrisia", anunciou o jornal "The Washington Post" recentemente, sobre uma série de exemplos mais "infelizes". "Donald Trump está trolando Donald Trump no Twitter", proclamou a CNN.

Amigos, eu entendo. Eu também ouço a melodia encantadora das sereias do "te peguei". Mas eu gostaria de declarar que retuitar as antigas pérolas de Trump está fazendo mais mal que bem. Não digo isso porque acredito que devemos conceder uma certa medida de graça a todos os novos presidentes, um desconto de que ninguém sabe realmente qual é a melhor maneira de governar até que seu traseiro sente numa cadeira de couro do Salão Oval.

Talvez seja razoável que um empresário privado mude de ideia quando confrontado com o peso e os mecanismos intangíveis de sua nova função. Talvez seja cruel falar demais sobre ignorância. Mas se você não tem ideia do que é ser presidente, e depois você se candidata a presidente, e depois se torna o presidente, você ainda está possivelmente conseguindo o melhor lado do negócio, mesmo que as pessoas riam de você.

Não, o motivo pelo qual eu gostaria de fechar a galeria de hipocrisia para sempre é que esses velhos tuítes são uma perda de tempo. As pessoas parecem pensar que eles revelam o verdadeiro Trump, como ele realmente vê o mundo. Elas exumam suas descargas de tédio de 140 caracteres como que dizendo: "Ah! Aqui está quem você realmente é, idiota! Você não pode negar tão facilmente as teses que não servem ao seu presente político!"

Vamos abandonar a ficção de que Trump tem teses diferentes de seus atuais objetivos políticos. Suas posições e valores são e sempre foram 100% o produto de raciocínio motivado, e com isso quero dizer que eles se conformam a qualquer expulsão narcisista de ventos bombásticos que pareça boa na época. O feed de Trump no Twitter não é a janela para sua alma. Não é nada além de uma constante confusão de peidos performáticos.

Não precisamos colocar posts antigos ao lado dos atos ou declarações atuais de Trump para demonstrar o quanto eles são vazios.

A situação parece diferente para um político como Obama ou George W. Bush, alguém com ideias centrais que poderiam evoluir conforme os fatos em campo mudam de forma, e cujos pontos de vista mutantes poderiam ser de fato relevantes ao interesse público. Quando Bush começou a regulamentar as emissões de carbono das usinas energéticas do país, seu passado como homem do petróleo e um cético moderado do clima apropriadamente tornou-se parte da história. Está bem: arraste um candidato especialmente instável ou oportunista para cima das brasas.

No que hoje parece uma era política muito distante, as tentativas de Mitt Romney de impor suas ideias sobre o aborto lhe deram o rótulo de vira-casaca. As vacilações de John Kerry sobre a guerra no Iraque foram frequentes o bastante para matar suas esperanças presidenciais. Muitos políticos são retoricamente escorregadios, é claro, modificando suas mensagens de acordo com suas ambições.

Mas mesmo nesses casos as posições evasivas são muitas vezes uma janela para o caráter por si sós, material para se analisar a jornada de autopreservação dos políticos. Hillary Clinton costumava desconsiderar os cortes nos custos da Seguridade Social ao estrategicamente reduzir benefícios, até que ela se chocou com Bernie Sanders e decidiu que taxar os ricos era uma maneira melhor de preservar a rede de segurança. Autocontradição ou adaptação inteligente: a natureza dessa mudança era digna de se revelar.

Mas ninguém poderia imaginar a motivação por trás da inconsistência de Trump. Sua futilidade está tão bem documentada que hoje parece desnecessária. Nem mesmo ele se esforça para defender a constância ou coerência de sua visão de mundo. Agora, salientar cada hipocrisia traz apenas retornos mínimos. Ficou totalmente confirmado que a consciência e a política de nosso presidente estão à venda. Trazer à superfície mais provas em forma de posts antigos que são tão vazios quanto os novos pouco faz além de aumentar nossa pressão sanguínea coletiva, se tanto.

Você realmente acha que Trump se importava cinco anos atrás com os contribuintes que tinham de financiar as férias do presidente Obama? Ele foi moralmente afrontado pela recusa de Romney a divulgar seu imposto de renda até setembro de 2012? É claro que não! (E Romney divulgou seus IR atrasados em janeiro daquele ano.) 

Nos dias que antecederam sua ascensão ao cargo mais elevado do país, os tuítes de Trump eram apenas um outro tipo de teatro, dirigido por motivos ainda mais tênues e aleatórios do que atiçar as tensões partidárias ou reunir a base do eleitorado.

O homem não passa de um matreiro especialista em se inserir sob os holofotes por quaisquer meios necessários, e suas palhaçadas na mídia social foram historicamente implementos pelos quais ele projetou sua voz na esfera pública. Não precisamos colocar aqueles posts antigos junto dos atos ou declarações atuais de Trump para demonstrar sua futilidade. Basta olharmos no Twitter.

Você poderia retrucar que é importante aproveitar todas as oportunidades para lembrar às pessoas a falta de espinha vertebral ideológica e a hipocrisia de Trump. "Ele é sem vergonha", dirá você. "As pessoas devem salientar isso!" Não podemos permitir que ele seja normalizado. Não podemos simplesmente nos sentar sobre provas facilmente acessíveis de sua falta de caráter --e se alguém em algum lugar de algum modo esquecer por um segundo que o líder do mundo livre é um amoral ambulante?

E eu direi: claro! Se você quiser, vá em frente e continue gritando a grande notícia. Mas a inteligência da sua apresentação --os tuítes anteriores de Trump contrastam claramente com seus tuítes ou atos recentes-- simplesmente ajuda a fazer todo o empreendimento parecer menos um projeto jornalístico que um exercício contraproducente de indignação liberal pretensiosa. Eu continuo pensando naquela frase da canção de Bastille chamada "Things We Lost In The Fire" [Coisas que perdemos no incêndio], sobre reler os velhos diários de um amante e que diz: "Oh, eles não me disseram nada de novo/ Mas eu adoro ler as palavras que você usou".

É exaustivo imaginar que as pessoas estejam tratando esses fragmentos totalmente não reveladores de autoindulgência trumpiana, essas ejaculações idiotas do ego, com a reverência de historiadores ou arqueólogos. Os artefatos não nos ensinam nada, mas nós nos detemos, por causa de uma certa intuição de que eles são importantes por causa de quem os criou. Mas eu gostaria de propor que mantenhamos nosso interesse no instrumental de Trump.

Se pudermos usar algo que ele disse para resistir diretamente a ele, ótimo. Enquanto isso, se a coisa apenas prova um ponto conhecido, ou inflama a indignação que já sentimos, ou nos deixa um pouco mais mortos por dentro em nossa vida cotidiana, talvez seja melhor deixar que se transforme em cinzas. 

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