O plano equivocado de Rex Tillerson de administrar o Departamento de Estado como uma corporação

Daniel Gross

  • REUTERS

    Secretário de Estado dos EUA, Rex Tillerson, em coletiva de imprensa nas Nações Unidas, em Nova York

    Secretário de Estado dos EUA, Rex Tillerson, em coletiva de imprensa nas Nações Unidas, em Nova York

O governo Trump está servindo como um extenuante exemplo de como uma administração —mesmo uma repleta de CEOs— não consegue conduzir um governo "como uma empresa", não importa quanta eficiência ele prometa ter. O exemplo mais recente vem do Departamento de Estado.

O secretário de Estado Rex Tillerson, ex-CEO da ExxonMobil, está tentando lidar com a queda nas receitas através da ferramenta mais fácil conhecida pelos administradores —enxugar a folha de pagamento. Circulam relatos de que o Departamento de Estado, através da não reposição de funcionários que saem e algumas demissões, quer reduzir sua equipe em 2.300 como parte da proposta orçamentária do governo Trump (que aumentaria os gastos com defesa às custas de todo o resto, e que o Congresso provavelmente não aprovará).

Uma das formas como grandes multinacionais cortam custos com mão de obra —além de simplesmente demitir pessoas— é substituindo trabalhadores americanos caros por estrangeiros baratos. E o secretário de Estado de fato parece irritado com o alto custo de se empregar diplomatas. Como a Bloomberg noticiou, "Tillerson ficou surpreso, ao assumir o cargo, de ver quanto dinheiro o Departamento de Estado estava gastando com moradia e escola para as famílias de diplomatas que vivem no exterior, de acordo com uma pessoa familiarizada com sua opinião".

Bem, grandes empresas são, de fato, similares ao Departamento de Estado. Steve Coll observou que a ExxonMobil realmente tem sua própria política externa. Suas operações, seus clientes e acionistas provavelmente estão mais em outros países do que em casa. Para grandes empresas americanas como a Coca-Cola, a Intel, a IBM e o McDonald's, os Estados Unidos são cada vez mais uma operação secundária. Então eles mantêm operações de tamanhos e escopos diversos no mundo inteiro, dependendo de como essa área geográfica se encaixa em sua estratégia geral. Em alguns países, a presença é pequena e simbólica. Em outros, as empresas mantêm uma presença maciça.

Essa é a semelhança. Mas existe uma diferença imensa. As operações do Departamento de Estado precisam ter como funcionários cidadãos americanos, desde os grandes chefes regionais (embaixadores) até os administradores de nível médio (adidos, representantes consulares, gerentes de programa), passando por funcionários de serviços (seguranças). Que decididamente não é como empresas americanas fazem.

Na verdade, as melhores práticas de administração corporativa muitas vezes ditam que CEOs de grandes organizações locais façam exatamente o contrário. Sim, empresas americanas enviam seus próprios executivos e pessoal para fora. Mas isso nem sempre faz sentido do ponto de vista empresarial e econômico. Quando ele opera no exterior, o Departamento de Estado está literalmente operando em solo americano.

Quando uma empresa da lista da Fortune 500 opera no exterior, ela está operando dentro da economia local. Ela pode ter de contratar milhares de locais para suas operações, negociar a cultura e a burocracia locais, e lidar com os segredos do governo. Você precisa de pessoas que entendam as nuances de como vender fast food na Índia, oferecer serviços profissionais na Alemanha e negociar o regime regulado de telecomunicações da Indonésia. É do seu interesse fazer com que pareça que você é parte do cenário local.

Essa não é a única razão pela qual você possa querer usar locais. É uma generalização, mas americanos não dão bons expatriados. Em geral somos bem provincianos e ruins em dominar idiomas estrangeiros (o que pode ser um pré-requisito para se trabalhar em muitos lugares). Achamos difícil nos adaptar a outras culturas. Estamos acostumados com altos padrões de vida, o que torna caro nos manter quando estamos instalados no exterior. E não são somente os salários.

Quando você envia um americano para trabalhar para você em outro país, especialmente em um mercado emergente, você paga um bônus considerável. Eles só podem viver em certos tipos de moradias e certos tipos de vizinhança. Eles podem precisar de segurança extra ou de um motorista. Eles esperam poder viajar de volta aos Estados Unidos, e seus filhos provavelmente precisarão frequentar uma escola particular especializada e cara. E lidar com os impostos e benefícios deles é mais complicado.

E é por isso que empresas americanas cada vez mais colocam suas operações estrangeiras nas mãos de estrangeiros, e não necessariamente dos países em questão. Eles têm a experiência, o temperamento e a habilidade para navegar entre mercados estrangeiros melhor do que os americanos. O CEO da Yum China Holdings, as operações derivadas chinesas do KFC e da Pizza Hut, é indiano. O presidente da unidade Europa, Oriente Médio e África da Starbucks, baseado em Londres, é holandês. A pessoa que dirige a divisão das Filipinas da IBM é um filipino que foi criado e se formou nos Estados Unidos.

E, cada vez mais, o caminho para o topo das multinacionais americanas se dá através dessas operações internacionais que vêm crescendo rapidamente. O CEO do McDonald's, Steve Easterbrook, entrou para a empresa em sua Inglaterra natal, nos anos 1990. Ou veja a Coca-Cola, talvez a mais icônica empresa americana. Seu CEO atual, James Quincey, é de origem britânica, e fez carreira nas operações latino-americanas e europeias da empresa.

Ele substituiu Muhtar Kent, que começou na empresa na Turquia e passou a maior parte de sua carreira na Turquia e na Europa. Kent substituiu E. Neville Isdell, um nativo da Irlanda que entrou para a Coca-Cola na Zâmbia e subiu na carreira através das operações europeias e britânicas.

Então eis aqui um exemplo onde a norma nos Estados Unidos corporativos simplesmente não pode ser a norma no governo. Você não pode contratar estrangeiros para serem os representantes públicos de suas operações estrangeiras ou administrá-las. Por questões de normas, você literalmente precisa ser um cidadão americano para trabalhar no Serviço Diplomático. É possível delegar a condução da política externa às Forças Armadas. Mas é impossível delegar a tarefa do Departamento de Estado para trabalhadores estrangeiros mais baratos.

Se Tillerson está tentando poupar dinheiro em sua folha de pagamento, a única coisa que ele pode fazer é simplesmente demitir as pessoas e reduzir o número de funcionários bruscamente em todo o setor.

O que nos leva à diferença final e significativa entre negócios e governo. Quando as empresas reduzem bruscamente o número de funcionários, muitas vezes elas reduzem as operações em uma quantia proporcional, fechando lojas, restaurantes ou fábricas. Mas Tillerson também está limitado nesse sentido. Por mais que os membros do governo Trump queiram, o Departamento de Estado simplesmente não tem de onde sair.

Tradutor: UOL

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