Trump entra em rota de colisão com novo presidente sul-coreano sobre a Coreia do Norte

David E. Sanger

Em Washington (EUA)

  • Yao Qilin/Xinhua

Da última vez em que um presidente americano decidiu pressionar duramente a Coreia do Norte a abandonar seu programa de armas nucleares, cortando o acesso ao banco em Macau onde seus principais líderes guardavam seu dinheiro, o esforço funcionou de modo brilhante, até que o presidente da Coreia do Sul se queixou a George W. Bush que aquilo precisava parar.

Isso ocorreu há uma década, quando Moon Jae-in, que declarou vitória na eleição presidencial da Coreia do Sul, servia como alto funcionário em Seul e abraçava a "Política Luz do Sol" de aproximação com a Coreia do Norte. A resposta de Bush foi de que o governo sul-coreano tinha perdido a coragem e estava abrindo caminho para a Coreia do Norte se tornar um Estado de armas nucleares pequeno, mas significativo.

Muitos testes nucleares e de mísseis depois, a profecia de Bush se concretizou. E agora o presidente Donald Trump se vê em rota de colisão com  Moon, que insinuou uma abordagem "Luz do Sol 2" que contraria diretamente o caminho estabelecido por Trump para cumprir sua promessa de "solucionar" o problema nuclear norte-coreano, de um jeito ou de outro.

A estratégia de Trump é aplicar pressão máxima sobre o líder norte-coreano, Kim Jong Un (cortes financeiros, o posicionamento de novas defesas antimísseis e navios de guerra além da costa norte-coreana, assim como a aceleração da sabotagem digital de seu programa de mísseis) antes de oferecer uma saída. É uma abordagem que Trump tirou de sua experiência imobiliária: primeiro infligir o máximo de dor, depois ver se o outro sujeito deseja conversar.

Rex W. Tillerson, o secretário de Estado, descreveu a estratégia aos funcionários do Departamento de Estado na semana passada, como "uma campanha de pressão com um botão. Eu diria que o estamos regulando em 5 ou 6 no momento". Ele descreveu o próximo passo como pressionar os países de todo o mundo a "implantar plenamente as resoluções de sanções do Conselho de Segurança da ONU, porque ninguém as implantou completamente".

A estratégia de Moon é a oposta: primeiro estender a mão aos norte-coreanos, na esperança de reduzir as tensões com a promessa de integração econômica. Só porque esse esforço fracassou da última vez que foi tentado, ele argumentou durante sua campanha, não significa que fracassará de novo quando ele lidar com o errático líder de 33 anos em Pyongyang, cujo principal interesse é permanecer no poder.

À primeira vista, são "posições completamente divergentes sobre como lidar com Pyongyang", escreveu Duyeon Kim, uma estudiosa veterana da Coreia do Norte, na revista "Foreign Affairs" na segunda-feira.

Ela argumentou que Trump contribuiu para a vitória de Moon na eleição sul-coreana com sua insistência inoportuna de que a Coreia do Sul teria que pagar pelo custo da instalação de um novo sistema antimísseis construído pelos Estados Unidos, chamado Área de Defesa Terminal de Alta Altitude (Thaad, na sigla em inglês), algo visto com profundas reservas por Moon. Isso apenas alimentou a sensação na Coreia do Sul de que o país está de novo sendo empurrado por seu antigo protetor, do qual depende para defesa, mas que com frequência se ressente disso.

O que o público sul-coreano teme, escreveu Kim, é que a dependência de pressão de Trump e a vaga ameaça de ação militar estejam levando a aliança a um ciclo de erros de cálculo e escalada que poderia resultar na retomada da guerra que foi suspensa, sem um tratado de paz, em 1953.

Com a eleição de Moon, a Coreia do Sul e a China agora estão fundamentalmente em sintonia sobre como lidar com a Coreia do Norte: fazer o que for preciso para manter o status quo e evitar qualquer situação que possa resultar em hostilidades, que poderiam mergulhar o Leste da Ásia no caos e talvez provocar pânico financeiro. Os chineses, apesar de prometerem sanções mais duras contra a Coreia do Norte, esperam congelar os arsenais nuclear e de mísseis norte-coreanos no ponto em que estão e conduzir Trump até uma nova rodada de negociações, que provavelmente levaria anos.

Até o momento, Tillerson e Trump não foram claros sobre o que exigiriam para iniciar essas negociações. Em uma visita a Seul durante a campanha presidencial, Tillerson insistiu que a Coreia do Norte teria que primeiro abrir mão de todo seu arsenal antes de negociações começarem, apesar do desmonte desse arsenal ser a meta final dessas negociações. Ele modificou essa posição nas Nações Unidas, sugerindo que negociações seriam possíveis assim que a Coreia do Norte desse os primeiros passos para o desarmamento, apesar de não ter especificado quais. Depois Trump disse que ficaria "honrado" em se encontrar com Kim, sob as condições certas, que ele não definiu.

Se isso visava confundir tanto aliados quanto adversários, funcionou. Ninguém sabe ao certo quais seriam as condições do governo para negociações, e funcionários da Casa Branca disseram não desejar ser muito específicos.

Enquanto isso, Moon tem muita experiência em fazer o papel do policial bom para o policial ruim de Washington. Ele foi chefe de gabinete de Roh Moo-hyun, seu mentor político, cuja abordagem em relação à Coreia do Norte era vista por Washington como próxima da capitulação. Na verdade, a decisão de suspender a pressão sobre o Banco Delta Asia, o pequeno banco em Macau onde Kim Jong Il, pai do atual líder norte-coreano, mantinha os ativos usados para o pagamento da elite norte-coreana, ocorreu poucos meses após o primeiro teste nuclear da Coreia do Norte, em 2006. E ocorreu aproximadamente ao mesmo tempo em que a Coreia do Norte ajudava secretamente os sírios a construírem um reator nuclear, que os israelenses posteriormente destruíram em um ataque aéreo surpresa.

Durante a campanha, Moon disse que as sanções têm uma meta: trazer os norte-coreanos de volta à mesa de negociação. O governo Trump disse ter uma meta diferente: forçar a Coreia do Norte a abrir mão de todo seu arsenal. Trata-se de uma diferença significativa.

Moon tem muitas razões para buscar uma desescalada, e sua vitória na terça-feira provou que sua posição é, por ora, popular na Coreia do Sul. Ele acredita fundamentalmente que a "Política Luz do Sol" é a única opção para evitar um novo conflito. Mas ele também deseja colocar um fim ao boicote chinês a alguns produtos sul-coreanos, provocado pela instalação do sistema Thaad, que Pequim diz ser voltado contra seu próprio arsenal nuclear.

Até o momento, Moon tem sido cuidadoso em não ameaçar desmontar o sistema, que o Pentágono correu para colocar em operação preliminar na semana passada, antes da eleição, até que realize uma análise completa da questão. Ele parece estar permitindo alguma flexibilidade a si mesmo.

Trump tem algum tempo para tentar superar esse desacordo, mas não muito. Moon será empossado nesta quarta-feira. A Coreia do Norte até lá já terá decidido como responder, com uma oferta de negociação, um lançamento de míssil ou com o sexto teste nuclear.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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