Que fim levou o plano de Trump para derrotar o Estado Islâmico?

  • Felipe Dana/AP

No dia 28 de janeiro, o presidente Trump mandou que o secretário da Defesa James Mattis elaborasse um plano, dentro de 30 dias, para derrotar o Estado Islâmico. Mattis entregou seu relatório no dia 27 de fevereiro e, de acordo com autoridades de alto escalão, ele ainda está parado na Casa Branca. Nos 70 dias desde que foi parar em sua mesa, Trump não reagiu a ele, não o modificou nem o aprovou como uma política.

Em outras palavras, apesar da afirmação de Trump durante a campanha eleitoral de que ele tinha um plano para derrotar o Estado Islâmico, e sua afirmação posterior de que perguntaria aos generais se eles tinham uma ideia melhor e pediria que a pusessem em prática caso tivessem, o governo não tem plano nenhum, nenhuma estratégia abrangente, para derrotar os combatentes e propagandistas do Estado Islâmico.

O plano de Mattis, de acordo com autoridades que o viram, é um "esforço de todo o governo", que trata não somente da guerra na Síria e no Iraque, mas também da necessidade de uma estabilidade política após a derrota do EI e de um acordo diplomático, que inclua ajuda humanitária em toda a região.

A ausência de uma decisão presidencial no plano pesa bastante uma vez que os combatentes têm lutado arduamente na rodada final —e de certa forma, a mais brutal— de combates em Mosul. Mesmo antes de Mattis concluir seu relatório, Trump afrouxou o controle sobre os comandantes dos Estados Unidos em campo, deixando que eles decidissem sozinhos se jogavam bombas sobre alvos em áreas povoadas. As "regras de engajamento" não foram alteradas, e os comandantes tampouco começaram a ignorar as leis da guerra. Mas enquanto o presidente Obama sempre decidia se bombardeava ou não caso houvesse uma chance de um ataque aéreo matar civis, Trump deixou que os comandantes em campo calculassem as probabilidades e decidissem se elas eram altas ou baixas demais para ordenar um ataque.

Esse pode ser um dos motivos do aumento recente de baixas civis em Mosul. Nessa última fase de combates, milicianos do EI muitas vezes agruparam moradores —os que ficaram— em um prédio e depois colocaram um atirador de elite no telhado. A ideia é ou dissuadir soldados iraquianos e caças americanos de bombardearem o prédio, sabendo que dezenas de civis morreriam, ou atrai-los para destruir o prédio, na esperança de que os sobreviventes e os parentes dos que foram mortos culpem os iraquianos e os americanos pelo massacre, reacendendo a oposição contra o governo de Bagdá e as forças armadas americanas.

Os comandantes do EI parecem estar prestes a serem derrotados no Iraque; a batalha por Mosul é seu último ato de resistência. Mas eles também entendem que a guerra está mudando para uma nova fase: a luta por quem controlará o Iraque (e a Síria) depois que eles tiverem sido diminuídos ou derrotados no campo de batalha. E eles estão lutando de uma forma que tem a melhor chance de sustentar o caos e a instabilidade, condições nas quais sua rebelião prospera.

Na verdade, todos os combatentes locais estão se posicionando para a próxima fase. Os combates em Mosul estão muito intensos em grande parte porque um dos líderes da coalizão anti-EI, as Forças de Mobilização Popular (FMP), quer que eles sejam intensos. Na teoria, as FMP —que incluem mais de um terço dos combatentes aliados de Mosul— foram incorporadas ao Exército iraquiano, mas na prática elas permanecem verdadeiras às suas origens como uma milícia xiita, apoiada pelo Irã e leal a ele.

Durante a preparação para a batalha por Mosul, consultores militares americanos quiseram manter uma rota livre, de forma que as milícias do EI pudessem desocupar a cidade. Primeiro, porque seria mais fácil atacar as milícias em um espaço aberto do que enfrentá-las em um combate urbano porta a porta. Segundo, porque menos civis presos na cidade seriam mortos, e menos casas seriam destruídas.

Mas, de acordo com um oficial de alto escalão envolvido nessas discussões, os líderes das FMP rejeitaram o conselho. O objetivo delas esse tempo todo era estabelecer uma dominância xiita em todo o Iraque, especialmente na província de Níneve, da qual Mosul é a capital. Eles querem punir Mosul, uma cidade de maioria sunita. E eles querem enfraquecer as Forças de Segurança Iraquianas, o Exército do país, que assumiram o impacto das baixas da guerra urbana de exaustão, deixando assim as FMP como a força militar dominante do Iraque.

Então a forca foi enrolada totalmente em torno de Mosul, sem rotas de fuga, e o Estado Islâmico se pôs a lutar intensamente. A abordagem do Exército iraquiano para esse tipo de batalha é perfeita para o desejo das FMP por um máximo de destruição. Como mostraram em batalhas anteriores ao longo dos anos —Ramadi,  Fallujah, Bayii e Sinjar— oficiais iraquianos não se dão ao trabalho de executar a delicada tarefa de esvaziar os prédios que o inimigo ocupa. Em vez disso, eles destroem os prédios e depois ocupam os escombros. Foi o que aconteceu em Mosul: isso tornou os combates mais intensos, e tornarão a recuperação mais demorada e difícil.

A pressa dos combatentes em se posicionarem para a era pós-queda do EI —seja ela uma era de negociações ou de mais conflitos— também explica os ataques aéreos recentes da Turquia contra as milícias curdas que têm sido as aliadas mais eficientes dos Estados Unidos na luta contra o Estado Islâmico no lado sírio da fronteira.

Os turcos veem o EI como um inimigo, mas enxergam os curdos como uma ameaça existencial. Essa é a coisa mais importante que Trump não entende e que poucos líderes ocidentais percebem até que eles olhem para esse conflito de perto. "Para todos, exceto nós", me contou um oficial militar de alto escalão, "a derrota do EI é o objetivo menos importante".

É por isso que, à medida que a derrota do EI vai se aproximando, a falta de uma estratégia coerente dos Estados Unidos —ou, mais precisamente, a hesitação ou recusa de Trump em aceitar, adaptar ou fazer algo com o plano de Mattis —vai se tornando uma fonte de tanta ansiedade. Todos os outros atores dessa luta político-militar —os líderes do Iraque, da Síria, do Irã, da Rússia, da Turquia, dos países do Golfo, as potências sunitas (especialmente a Arábia Saudita), e as diversas milícias, sejam elas jihadistas ou anti-jihadistas— sabem quais são seus interesses e como eles querem que o jogo termine.

Só os Estados Unidos não sabem, ou não expressaram claramente, seus interesses e desejos. Um oficial de alto escalão disse para mim francamente: "Não existe um objetivo final claramente articulado". No entanto, é disso que trata uma estratégia: alinhar os interesses de uma nação-Estado com os recursos que ela quer empregar para atingir esses interesses. Trump está intensificando o envolvimento militar americano em todas as batalhas da região, mas sem uma estratégia —sem um "objetivo final articulado"— a escalada não tem sentido.

Assim como Trump descobriu a respeito do sistema de saúde e todas as outras questões para as quais ele tem olhado, a luta contra o EI é muito mais complicada do que ele havia pensado. Mattis tem ideias, mas nem ele, nem ninguém no governo pode colocá-las em prática até que o presidente decida exatamente o que ele quer fazer. Pode ser que tenhamos de esperar muito tempo até que isso aconteça, enquanto o caos continua a aumentar e as bombas continuam a cair.

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