Revelação de informação confidencial revela despreparo e improviso de Trump, diz autor

Isaac Chotiner

  • Chancelaria da Rússia/AP

    10.mai.2017 - O presidente dos EUA, Donald Trump, o chanceler russo, Sergei Lavrov, e embaixador russo, Sergei Kislyak, conversam na Casa Branca, em Washington

    10.mai.2017 - O presidente dos EUA, Donald Trump, o chanceler russo, Sergei Lavrov, e embaixador russo, Sergei Kislyak, conversam na Casa Branca, em Washington

Na tarde de segunda-feira (15), o jornal "The Washington Post" publicou uma reportagem de grande repercussão, afirmando que o presidente Trump revelou informações altamente secretas durante uma reunião com o ministro das Relações Exteriores e o embaixador da Rússia nos EUA.

A matéria, que foi confirmada por outras fontes noticiosas, pintava uma imagem verossímil de um presidente sem noção e inconsciente ou desinteressado pelas transgressões que estava cometendo. Segundo uma autoridade citada pelo "Post", o presidente "revelou mais informação ao embaixador russo do que nós compartilhamos com nossos aliados".

Para discutir a reportagem do "Post" e o que ela significa para a política externa dos EUA --afinal, o presidente fará sua primeira viagem internacional nesta semana--, falei por telefone com Daniel W. Drezner, professor de política internacional na Escola Fletcher da Universidade Tufts e autor de "The Ideas Industry: How Pessimists, Partisans, and Plutocrats Are Transforming the Marketplace of Ideas"  (A indústria de ideias: como os pessimistas, partidários e plutocratas estão transformando o mercado de ideias, em tradução livre).

Durante nossa conversa, que foi editada e condensada aqui por razões de clareza, falamos sobre o hábito de Trump de falar sem pensar nas consequências, sobre sua primeira viagem ao exterior e o que James Mattis e H.R. McMaster poderão fazer para interromper o "empalhaçamento" da Casa Branca.

Slate: O que o senhor acha mais importante na reportagem do "Post"?

Daniel Drezner: Eu diria que é o total despreparo com que Donald Trump parece ter ido a esse encontro, o que aliás reflete como ele lida com a maioria de suas interações em política externa. De certa maneira, a maior força de Trump é também sua maior fraqueza: ele improvisa, fala sem pensar.

Se você assistir aos debates presidenciais, a única coisa pela qual tem de dar certo crédito a Trump é que ele realmente não parece dar respostas programadas. Isso não quer dizer que ele tenha a resposta certa, mas claramente sabe interagir de maneira vívida, em tempo real. O problema é que, como presidente, há certas coisas que ele deve ou não deve dizer, e ele não entende isso. [Risos.] E se a reportagem do "Post" for acurada, parece que ele basicamente falou sobre os segredos de segurança nacional porque estava se gabando.

Slate: Já tivemos algum presidente que conduziu a política externa de maneira tão improvisada? Sei que ele é sui generis, mas alguém se aproximou de seu estilo?

Drezner: Preciso pensar, porque parte disso é que a política externa americana nesse nível realmente remonta apenas a 1945. Antes disso, mesmo que houvesse política externa de improviso --e em certa medida Teddy Roosevelt fez isso--, você poderia dizer que as apostas eram muito menores, porque os EUA não eram a principal potência.

Estou tentando pensar se na era da Guerra Fria ou depois poderíamos indicar alguém, e estou desenhando um alvo. Estou tentando pensar se há alguém assim e... não. Talvez alguém mais embaixo, um embaixador que deu um fora ou algo parecido.

Slate: Alger Hiss. Brincadeira. Falando sério, se você fosse um assessor de Angela Merkel ou Emmanuel Macron, que conselho daria a seu chefe na reunião de segurança nacional amanhã?

Drezner: Acho que a coisa principal que você tem de decidir é que tipo de relacionamento você terá com Trump, em oposição a que tipo de relacionamento terá com autoridades de política externa.

E talvez seja o caso hoje que estamos em uma situação em que alguém como o secretário da Defesa Mattis realmente recebe informação de melhor qualidade dos aliados do que a Casa Branca consegue, porque os aliados esperam que se disserem algo a Mattis ele terá o bom senso de não necessariamente dar a origem da informação.

Por outro lado, se estou entendendo isso corretamente, Trump conseguiu o que ele contou em um relatório da inteligência. Então provavelmente vai afetar o modo como a comunidade de inteligência dos EUA faz as coisas, como os memorandos de informação e assim por diante. Você pode entender por que eles seriam incentivados a dizer o mínimo possível sobre fontes e métodos.

Mas de certa maneira é pior que isso. A única coisa que a Casa Branca está dizendo agora que parece muito veemente é que Trump não falou sobre fontes e métodos. Mas se a reportagem do "Post" for acurada, estes foram revelados incidentalmente, porque Trump deu informação sobre a qual seria fácil adivinhar de onde veio, a fonte. Por isso, mesmo que ele não a tenha dado diretamente, o fez indiretamente.

Portanto, se você é uma agência de inteligência e quer fornecer informação ao presidente, tem de se preocupar que se você obteve a informação de uma única fonte ele poderá contar algo e queimar essa fonte. Então você poderia relutar mais em fornecê-la, a menos que a tenha obtido de diversas fontes.

Slate: Fiquei um pouco surpreso de que ele tivesse ouvido essa informação em um briefing, tivesse lembrado dela e a transmitido.

Drezner: É difícil saber exatamente o que aconteceu; é revelador que o "Washington Post" pareça estar lidando com informação secreta melhor que o presidente nesta altura, o que é uma perspectiva terrível se você pensar bem. Mas eu desconfio que ele provavelmente tem informação sobre os detalhes porque ele acha bacana.

Ele é o presidente e tem acesso, e tenho certeza de que ele entra numa viagem de poder ao falar com outras pessoas a respeito.

Slate: Qual foi sua visão sobre a ética de ir trabalhar para este governo em uma capacidade de política externa em 20 de janeiro, e alguma coisa mudou desde então?

Drezner: Minha sensação na época foi que era muito importante para qual diretor de política externa você estava trabalhando. Assim, você certamente podia ver que se fosse trabalhar para Mattis poderia ir de cabeça erguida. E com tudo o que Michael Flynn demonstrou você provavelmente não iria se destacar trabalhando para ele.

Em termos de onde estamos hoje: não tenho certeza se a situação melhorou. É inegável que McMaster tem uma reputação muito melhor e é uma pessoa muito mais capaz que Flynn no que se refere ao processo de segurança nacional. O problema é que nunca vi um empalhaçamento da Casa Branca da maneira como estamos presenciando hoje.

Slate: Um quê?

Drezner: Empalhaçamento.

Slate: Não sabia que essa palavra existisse.

Drezner: Não tenho certeza de que é uma palavra, mas já a usei em um título.

Slate: Qual é sua sensação sobre Mattis e McMaster trabalharem para Trump?

Drezner: Tenho certeza de que Mattis acha que ele realmente tem uma força significativa. Parece que foi ele quem convenceu Trump a desistir de legalizar a tortura, o que você poderia dizer que foi uma contribuição ética importante. Quanto a McMaster, estava em uma situação mais bizarra desde que foi um general na ativa. As reportagens que li sugerem que ele achava que não tinha realmente capacidade para dizer não.

Slate: Se o senhor fosse um desses homens, o que diria a Trump sobre o que ele deve tentar conseguir em sua próxima viagem à Arábia Saudita, a Israel e a Roma? Percebo que até perguntar é tolice.

Drezner: Você sabe quem é Loren Schulman?

Slate: Não.

Drezner: Ela está no Twitter e foi uma autoridade do governo Obama. Ela teve uma grande tempestade no Twitter sobre os rigores de uma viagem ao exterior, sobre o fato de que você fica isolado de suas fontes de informação tradicionais, seu sono é interrompido e assim por diante. Se eu fosse Mattis ou McMaster, toda essa viagem seria dedicada apenas a mitigar qualquer dano que Trump possa causar. Você já o está retirando de seu elemento e restringindo-o em termos da informação que ele pode receber. Além disso, ele estará em reuniões das quais não poderá sair. Você vai querer garantir que ele não "apareça" em algum momento especialmente mal programado. Esse é o nível básico.

Fora isso, o que você realmente espera é maior cooperação da Arábia Saudita e de Israel em termos do combate ao Estado Islâmico.

Slate: Alguma coisa o surpreendeu sobre a política externa na era Trump?

Drezner: O que me deixou realmente surpreso --e não tenho certeza de como devo dizer isso-- é que o mundo não acabou. Trump cometeu uma série de gafes e gols contra, e afinal seus defensores podem afirmar de modo plausível que nada ainda foi fundamentalmente transformado. Se você realmente olhar bem, e esquecer a retórica, não houve tantos desvios da política externa do governo anterior.

Slate: Últimas palavras famosas, Dan.

Drezner: É, eu sei. Eu sei. Houve diferenças óbvias em comércio, e ainda temos três anos e muitos meses pela frente. Por isso há muito tempo para estragar tudo. Mas o que me marcou é o grau em que os aliados estiveram dispostos a lidar com a Casa Branca, e países como a China também se dispuseram a tratar com a Casa Branca. Embora no último caso eu ache que eles sabem que podem ludibriá-lo.
 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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