Como foi aguardar a morte com um dos homens executados nos EUA

Ibby Caputo

  • Slate

Pouco antes de sua execução no Arkansas, em 24 de abril, Jack Jones fez uma última refeição de frango frito, batata frita com molho tártaro, palitos de carne-seca, três barras de chocolate, um milkshake de chocolate e ponche de frutas --ou pelo menos foi o que saiu no noticiário. Mas não é verdade.

Segundo a única pessoa que esteve com Jones enquanto esperava para morrer, o que ele realmente comeu foi uma pequena porção de batatas e o milkshake de chocolate --relato confirmado pelo registro da execução pelo oficial de assuntos internos. Não houve frango. Jones tinha pedido, mas não ganhou.

"Ele fez uma última refeição muito pequena e apressada. Diziam-lhe a todo instante para acabar logo", disse Morgan Holladay, que serviu como conselheira espiritual de Jones em seus últimos dias --um relacionamento de final da vida permitido pela lei do Arkansas aos condenados que estão no corredor da morte.

Para muitos americanos, as execuções praticadas nos últimos meses no Estado, de Jones e outros três homens, resumem o grande debate sobre a pena capital. Houve a pendente expiração do midazolam, uma das drogas usadas na injeção letal; diversas suspensões pelos tribunais; e uma votação de desempate pelo juiz Neil Gorsuch, da Suprema Corte, que abriu caminho para a série de execuções. Mas enquanto esse drama se desenrolava Holladay ajudava Jack Jones a se preparar para morrer.

Holladay, 30, nunca tinha visto alguém morrer antes da execução de Jones. Ela dirige uma organização, a Compassion Works for All [Compaixão funciona para todos], que ensina meditação e solução de conflitos nas prisões do Arkansas, por isso estava acostumada a ficar perto de detentos, mas nunca sozinha com um deles e no corredor da morte.

Na prisão, Jones, um estuprador e assassino confesso, tornou-se budista. Seu mestre zen-budista, Harada Roshi, estava dirigindo um retiro na Europa e não podia estar na execução, por isso Holladay, uma praticante de budismo tibetano e assistente social formada, assumiu, com hesitação. Como ela acredita que Jones queria que o mundo, e as famílias de suas vítimas, soubessem que ele tinha mudado, ela concordou em compartilhar sua experiência.

Os budistas trabalham para dominar a mente e superar o medo e o ódio. A ideia é reduzir o sofrimento e aumentar a compaixão. Como conselheira espiritual, Holladay acreditava que seu papel era estar presente com Jones como ele estava no momento e suspender o julgamento de quem ele fora no passado.

Ela se encontrou com Jones duas vezes. Na primeira visita, cinco dias antes da execução, Holladay esperou sozinha em uma cela da prisão. Havia sido informada de que Jones era um pouco ranzinza e talvez fosse difícil de trabalhar com ele. "Parecia que muita coisa poderia dar errado", disse-me ela.

Jones era diabético, e enquanto esteve na prisão uma de suas pernas foi amputada. Finalmente ele chegou, em uma cadeira de rodas. "Assim que eu vi Jack, todo o meu medo desapareceu", disse Holladay. "Ah, ele é uma pessoa, tudo bem." Mas Jones ficou surpreso com a juventude de Holladay. "Ele meio que pirou", explicou ela. "E disse: 'Não quero que você passe por isto'." Holladay lhe agradeceu por sua preocupação.

A segunda vez que eles se encontraram foi no dia em que Jones morreu. Quando ela chegou, ele olhava fotos de sua filha em um álbum. Tinha conhecido a filha, já adulta, na véspera, embora eles se correspondessem havia anos. Jones e sua primeira mulher deram a filha para adoção quando ela era pequena. "Eles pensaram que não poderiam sustentá-la e lhe dar uma boa vida", explicou Holladay.

A maior parte do que ela sabe sobre Jones aprendeu nos dias que passou com ele, que só queria falar sobre sua vida. "De certa forma, contar-me sua experiência foi como um pedido de desculpas prolongado", disse ela. Jones contou sobre o trauma de sua juventude, as pessoas que moldaram sua vida, seus crimes horríveis --quando ele estuprou e matou uma mãe e espancou sua filha de 11 anos--, e depois violentou e matou outra mulher na Flórida.

Holladay ficou sentada, escutando tudo o que ele disse.

***

Em seu livro "Old Path White Clouds" [Caminho antigo nuvens brancas], o monge zen-budista vietnamita Thich Nhat Hanh escreve sobre o encontro de Buda com um assassino em série. Um dia, enquanto Buda estava caminhando, um assassino violento se aproximou dele e lhe disse para parar, mas Buda continuou andando à vontade. Isso frustrou o assassino, e ele exigiu saber por que Buda não parou. Buda lhe disse: "Eu parei muito tempo atrás. Foi você quem não parou". O assassino, confuso, olhou nos olhos de Buda e percebeu que nunca tinha visto tamanhas serenidade e compaixão. Foi nesse dia que o assassino parou de matar e prometeu nunca mais fazer mal a outro ser vivo.

"Essa ideia de que devemos ficar parados, ou devemos fixar as pessoas em um lugar e dizer: 'Você não pode se mover emocional e espiritualmente' é totalmente louca", disse-me Holladay. "Todos fizemos coisas terríveis, e às vezes elas são ilegais, às vezes são apenas terríveis e não ilegais."

O modo de ela entender isso é que quando Jones cometeu os estupros e homicídios estava dominado por transtorno bipolar e se automedicava com drogas e bebida alcoólica. "Ele estava descontrolado" e perpetuava o mal que havia sofrido quando criança, disse ela. Existem graus diferentes, é claro. Assassinar alguém é pior que roubar ou vender drogas, o que é pior que cruzar um sinal vermelho. Mas Holladay possui uma capacidade incomum de ver esses atos não em termos da culpa ou indignidade da pessoa, e sim em termos de sua necessidade de cura.

Jones disse a Holladay que estava enojado de seus crimes. "Não posso acreditar que fiz aquilo, mas eu fiz." Holladay disse que ele fazia questão de assumir a responsabilidade, mas ela não sabia como ele suportava viver. "Só posso relatar o que ele me contou em seus últimos dias", afirmou. E ela sentiu que seu desejo de não fazer mal aos outros era verdadeiro. "Ele tinha essa intenção, e era assim que ele se via."

Ela só viu Jones chorar uma vez. No dia de sua execução ele estava deitado, quando o capelão da prisão segurou um celular junto do seu ouvido e tocou uma gravação de 12 minutos do professor de zen-budismo dele, Harada Roshi. A gravação era em japonês, e apesar de Jones não entender as palavras ele chorou ao escutar a voz do mestre. Depois, Holladay leu para ele uma tradução. "Fizemos confissão, penitência e prostrações na cela da prisão juntos. Fizemos o que tinha de ser feito. Então chegou a hora." Seu mestre disse que todos os seus alunos sabiam sobre Jones, e que se ele quisesse recolheriam suas cinzas para que fossem colocadas ao lado de Roshi quando ele morrer.

Mais tarde, Jones foi conduzido à enfermaria. Ele tinha concordado que alargadores fossem colocados em suas veias, "para tornar aquilo o mais fácil possível para o Estado".

"Ele sabia que sua morte estava provocando comoção entre as famílias das vítimas", disse Holladay. "Ele também tinha um sentido muito forte de que sua morte seria dolorosa e potencialmente traumática para todos os envolvidos" --o carrasco, os profissionais médicos que colocaram a sonda intravenosa, o diretor do departamento correcional do Arkansas-- "todo mundo era cúmplice em sua morte, e ele sabia que não era bom para eles. Como alguém que tinha matado, ele sabia disso".

A operação demorou mais do que se esperava. Jones foi levado na cadeira de volta à cela com Holladay uma hora e meia antes da execução. Nesse tempo ele deveria comer, vestir calças e camisa brancas e escrever suas últimas palavras. Mas a anestesia da operação não tinha passado.

"Ele mal conseguia ficar acordado", contou Holladay. "Ele começava a falar comigo e então suas palavras se embaralhavam e ele desmaiava.

"O que eu mais pensava era: onde está a dignidade?", disse ela.

Holladay ficou aborrecida mais tarde, quando leu o relato de uma última refeição que parecia glutônica, o que na sua opinião confirmava a narrativa de que Jones era um monstro. "Por algum motivo as pessoas ficam obcecadas pelo que as outras comem em sua última refeição", disse-me ela. "É um fascínio meio doentio. E é errado."

Quando chegou a hora, Holladay foi escoltada até uma sala pouco iluminada, com uma cortina preta cobrindo uma grande janela. Todas as cadeiras estavam voltadas para a janela.

"Parecia um teatro distorcido, mas quando a cortina foi aberta o quarto parecia esterilizado", disse Holladay. "Parecia que estávamos assistindo a algum tipo de procedimento médico."

Jones estava deitado na maca, de olhos fechados, e antes que as drogas fossem aplicadas ele falou suas últimas palavras. "Sinto muito", disse ele à moça que tinha agredido, chamando-a pelo nome. "Tente compreender que eu amo você como se fosse minha filha."

Quando ficou novamente só, Holladay conseguiu refletir. O que Jones fez foi algo realmente difícil de se entender.

Ela me disse: "Poderíamos andar em círculos durante muito tempo, para sempre, mas em certo ponto temos de tomar a decisão consciente de acordar e começar a curar, em vez de continuar causando mal.

"Todas as pessoas sedentas por sangue, essa é a sombra delas. Qual é a diferença de você querer ver alguém assassinado de Jack assassinar alguém? É a mesma coisa. É a mesma semente."

E ela continuará crescendo, enquanto não pararmos.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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