Opinião: Europa acredita que Trump confirma o senso de superioridade do continente

Yascha Mounk

  • Jonathan Ernst/Reuters

As imagens da passagem de Donald Trump pela Europa, que mostram um longo desfile de líderes políticos e espirituais parecendo visivelmente desconfortáveis na presença dele, ou até mesmo rindo em silêncio enquanto ele falava, confirmam de forma mais vigorosa do que mil artigos de opinião: a maioria dos europeus está horrorizada com o presidente. Eles não suportam sua ignorância ou sua belicosidade, seus modos plebeus ou o constante se gabar de sua riqueza. Porém, apesar de toda a indignação proclamada, o segredo mal escondido é que Trump os deixa felizes.

Ao representar tudo o que os europeus odeiam a respeito dos Estados Unidos, Trump simultaneamente confirma tudo o que querem acreditar a respeito de si mesmos. Afinal, os europeus sempre desprezaram os americanos da mesma forma que um tio culto não consegue esconder sua inveja do sobrinho banqueiro com uma tremenda gata a tiracolo. Em outras palavras, eles sofrem do que os psicólogos chamam de complexo de superioridade.

Por um lado, os europeus estão profundamente convencidos de que o mundo seria um lugar muito melhor se países horríveis como o Irã, Zimbábue e os Estados Unidos pudessem ser um pouco mais como a Alemanha ou a Suécia. Esse esnobismo se expressa na arena da política internacional: por exemplo, os europeus tendem a pensar que o mundo seria muito mais seguro se todo país gastasse tão pouco em suas Forças Armadas como a Dinamarca, esquecendo convenientemente que foram as Forças Armadas americanas que mantiveram seu continente seguro nos últimos 70 anos. Mas também se expressa no reino da cultura e da culinária: quando uma amiga americana desavisada ousou comer pipoca em uma festa de jardim dada por minha mãe na Itália, certo verão, por exemplo, cinco convidados diferentes foram até ela em rápida sucessão: "Modo de vida americano", cada um deles zombou.

Essa crença profunda na superioridade do continente torna ainda mais enfurecedor aquilo que até mesmo os mais patrióticos dos europeus precisam admitir, que é sua inferioridade em vários pontos. Há aquele pequeno assunto incômodo de duas guerras mundiais, é claro. Mas a inveja e embaraço vão mais fundo que isso: os Estados Unidos são mais ricos e mais poderosos. É o centro mundial da moda e da ciência, da cultura pop e do progresso tecnológico. O passado pode pertencer à Europa. Mas o futuro, como pareceu durante grande parte da era pós-guerra, sem dúvida pertencia aos Estados Unidos.

E isso é precisamente por que a eleição de Trump foi um bálsamo para a alma europeia. Quem poderia negar seriamente que os europeus são mais cultos que os americanos ao se ver diante do mais feio dos americanos feios? Quem pode dizer que os problemas políticos da Europa são mais profundos que os dos Estados Unidos ao se deparar com o caos em Washington? E quem, hoje, ainda pode estar tão certo que o futuro da república americana será mais brilhante que o da democracia europeia?

Suponho que não haja nada de errado em ter um pouco de prazer travesso com as falhas e humilhações dos amigos. Contudo, o prazer com a desgraça alheia que muitos europeus sentem quando veem Trump é perigoso, pois isso ajuda a tornar o continente ainda mais complacente em relação a quanto a liberdade e a democracia no momento estão ameaçadas tanto na Europa quanto nos Estados Unidos.

A Europa, é claro, precisa lidar com sua própria parcela de populistas autoritários. E apesar dos líderes populistas da Polônia, Hungria, Sérvia, Macedônia e Rússia serem reconhecidamente mais competentes do que Trump, a habilidade política superior deles dificilmente nos causaria alívio. Pelo contrário, o fato de Trump ser um ideólogo por instinto, não por ideologia, pode ser um dos melhores motivos para a esperança de que a democracia americana sobreviva de alguma forma aos próximos quatro anos.

Os populistas na Europa Central e Oriental, por sua vez, já conseguiram comprometer as instituições em seus países em tal grau que é duvidoso que possam ser removidos por eleições livres e justas. E um grande número de aspirantes na Europa Ocidental já está de prontidão para tentar seguir o manual deles.

Há outro paralelo entre a Europa e os Estados Unidos: a colaboração dos políticos que alegam ser democratas impecáveis é grande parte do motivo para os populistas conseguirem entrar no governo. Nos Estados Unidos, essa colaboração assumiu a forma vergonhosa dos líderes do Partido Republicano, que de forma privada atacam Trump, mas publicamente ficam a seu lado. A maioria dos líderes europeus não é tão grosseira; de fato, foi precisamente pela direita tradicional ter apoiado o centrista Emmanuel Macron em vez de Marine Le Pen, da extrema-direita, que os franceses conseguiram evitar o desastre em suas eleições presidenciais há poucas semanas. Mas os líderes de vários países europeus, incluindo a Áustria e Dinamarca, fizeram pactos com o demônio ao estilo dos Estados Unidos, entrando em coalizões desconfortáveis com populistas de extrema-direita para chegar ao poder.

De modo geral, a direita europeia tem se mostrado disposta a trabalhar estreitamente com populistas desde que estejam do outro lado da fronteira, especialmente no leste do continente. Como resultado, os líderes europeus não se mostraram apenas vergonhosamente passivos enquanto Viktor Orbán desmontava a democracia húngara e começava a fechar a Universidade Centro-Europeia; de modo ultrajante, ainda não expulsaram o partido Fidesz de Orbán do Grupo do Partido Popular, um grupo de partidos de centro-direita no Parlamento Europeu, entre os quais os democratas-cristãos da Alemanha. Em outras palavras, por covardia ou conveniência, a mesma Angela Merkel que é amplamente saudada como a nova líder do mundo livre permanece aliada de um homem que está em processo de destruir a democracia húngara.

Finalmente, muitos europeus veem a retórica extremista de Trump contra os muçulmanos e sua promessa de construir um muro ao longo da fronteira mexicana como confirmação da antiga suspeita de que os Estados Unidos são muito mais racistas que a Europa. Mas essa também é uma forma conveniente demais de esquecer que centenas de ataques a lares de refugiados ocorreram na Alemanha por ano nos últimos anos; que o afluxo de refugiados diminuiu em parte porque os governos europeus construíram centenas sobre centenas de quilômetros de fortificações de fronteira; ou de estarem tão desesperados para impedir a entrada de refugiados que enviam vastas somas ao presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, outro inimigo jurado da democracia, para barrar os sírios e iraquianos desesperados à porta da Europa.

É tentador se envolver no narcisismo das pequenas diferenças entre a Europa e os Estados Unidos. Talvez eu mesmo tenha sido indulgente nesse prazer em partes deste ensaio (e, sendo cidadão tanto americano quanto europeu, espero ter conseguido distribuir igualmente a ambos os lados). Mas nossa concorrência amistosa não deve nos distrair de um ponto muito mais sério: os cidadãos estão profundamente desencantados com as instituições democráticas em ambos os lados do Atlântico. Como resultado, a democracia agora está sob ameaça em ambos os lados. Finalmente, mesmo nesta hora tão grave, as elites políticas estão fracassando em defender seus princípios em ambos os lados do Atlântico. Na única medida que realmente importa no momento, a Europa e os Estados Unidos são, infelizmente, muito parecidos.

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