Opinião: Por que um pequeno protesto de supremacistas brancos é muito significativo

Jamelle Bouie

  • AP Photo/Mike Stewart

    23.abr.2016 - Membros da seita racista Ku Klux Klan incendeiam cruz e uma suástica em um culto ao 'orgulho branco' em uma área rural no Estado da Geórgia

    23.abr.2016 - Membros da seita racista Ku Klux Klan incendeiam cruz e uma suástica em um culto ao 'orgulho branco' em uma área rural no Estado da Geórgia

Há pouco mais de uma semana em Charlottesville, Virgínia, o nacionalista branco e bacharel pela Universidade da Virgínia Richard Spencer se juntou a cerca de outros 100 companheiros em um protesto noturno contra a decisão da cidade de remover a estátua proeminente do general confederado Robert E. Lee e rebatizar o parque onde ela se encontra.

Segurando tochas improvisadas e permanecendo em frente à estátua de Lee, esses manifestantes cantaram "a Rússia é nossa amiga", "sangue e solo" (uma referência à ideologia nazista) e "não seremos substituídos", uma referência à ideia relacionada de que uma mudança demográfica tornará os americanos brancos uma minoria "ameaçada" no país "deles". 

É tentador tratar esse chamado protesto como uma piada por parte de algumas poucas pessoas vulgares e à margem da sociedade, um espetáculo no final sem sentido visando chocar e inflamar. Afinal, Spencer é uma figura marginal, e seus apoiadores estão longe de representar Charlottesville e seus moradores, como comprovado pela grande contramanifestação realizada na noite seguinte.

Ryan M. Kelly/The Daily Progress via AP
Manifestantes pedem a retirada de monumentos dos Confederados em em Charlottesville

Mas apesar de Spencer ser pouco conhecido, seu ponto de vista básico, de que os Estados Unidos são um país branco, que seu governo pertence aos brancos e que diversidade é uma ameaça existencial à sua identidade, é basicamente popular, a visão do presidente dos Estados Unidos, de seus conselheiros e de muitos de seus eleitores. 

Esse é precisamente o motivo para Spencer realizar sua manifestação diante de um monumento confederado: não como uma defesa da "história", mas como uma declaração simbólica cuja força se encontra na celebração da supremacia branca, assim como a posição política elevada daqueles que apoiam a política racial de Trump.

O protesto de Spencer foi incomumente ousado, de acordo com a crescente atividade dos supremacistas brancos por todo o país, porque ele agora age em um ambiente político muito mais favorável, onde o espaço público para o nacionalismo branco é maior do que em muitos anos e onde a reação branca ocupa um lugar preeminente na vida política. 

Vale a pena olhar mais de perto a história de Charlottesville para um contexto maior. O monumento da cidade a Robert E. Lee foi encomendado em 1917 e erguido sete anos depois, em 1924. Apresentado como parte de uma celebração confederada, a parada e cerimônia envolveram veteranos confederados, os Filhos dos Veteranos Confederados e as Filhas Unidas da Confederação, assim como 100 cadetes do Instituto Militar da Virgínia, decorada em cores confederadas. 

De nosso ponto de vista, o que torna isso estranho é a posição de Charlottesville na história da Guerra Civil, ou melhor, sua falta de posição. Diferente de cidades vizinhas como Richmond e Fredericksburg, Charlottesville não tem participação significativa na Guerra Civil. Fora algumas poucas escaramuças e um pequeno hospital confederado, a cidade na região central da Virgínia em grande parte ficou de fora da guerra. A estátua de Lee (e seu irmão, o memorial igualmente grande a Thomas "Stonewall" Jackson) foi erguida menos como um marco da história e mais como símbolo de algo mais insidioso. 

Especificamente, nos anos durante os quais a estátua de Lee foi encomendada, esculpida e construída também foram um ponto alto da violência racial e da ideologia racista nos Estados Unidos.

O épico de três horas de D.W. Griffith, "O Nascimento de uma Nação", uma dramatização racista da Guerra Civil e da história da "Causa Perdida", ainda lotava cinemas em 1917 e 1918. O verão de 1919 viu uma epidemia de "pogroms" antinegros por todos os Estados Unidos, o que James Weldon Johnson, na época secretário de campo da Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor, chamou de "Verão Vermelho" devido ao seu terror sangrento.

Em seu livro sobre esse período, "Red Summer: The Summer of 1919 and the Awakening of Black America" ('Verão Vermelho: o verão de 1919 e o despertar da América negra', em tradução livre, não lançado no Brasil), o jornalista Cameron McWhirter estima que "ocorreram pelo menos 25 grandes distúrbios e ações por turbas e pelo menos 52 pessoas negras foram linchadas". Centenas de pessoas foram mortas e dezenas de milhares foram forçadas a fugir de suas casas. 

'É impossível dissociar a estátua de Lee em Charlottesville dessa história maior' 

O lançamento e popularidade de "O Nascimento de uma Nação" revigorou a há muito dormente Ku Klux Klan. Em meados dos anos 20, essa ordem fraternal (dedicada à supremacia branca, religião fundamentalista e liderança patriarcal) contava com milhões de membros por todo o país, incluindo legisladores estaduais e federais, além dos governadores da Geórgia, Indiana e Colorado.

Na Virgínia, a atividade da Klan era mais intensa nos centros comerciais e manufatureiros do Estado, incluindo as cidades vizinhas de Charlottesville, Staunton e Richmond. 

No mundo acadêmico, eugenistas e teóricos raciais também estavam no auge de sua popularidade. Homens como Madison Grant, nascido em Nova York, e Lothrop Stoddard, nascido na Nova Inglaterra, dedicaram centenas de páginas a "provar" a superioridade dos "anglo-saxões" e a alertar sobre o declínio deles pelas mãos de "raças inferiores".

"A maré imigrante deve ser detida a todo custo para que a América tenha uma chance de estabilizar seu perfil étnico", escreveu Stoddard em seu tratado de 1920, "The Rising Tide of Color Against White World Supremacy" ('A maré ascendente da cor contra a supremacia branca mundial', em tradução livre). "Se a América não for fiel a sua própria raça-alma, ela inevitavelmente a perderá." Longe de obscura, essa retórica foi repetida pelo presidente, Warren Harding, que endossou o livro do Stoddard. 

É impossível dissociar a estátua de Lee em Charlottesville dessa história maior. Igualmente, é impossível separar os monumentos confederados em Nova Orleans (recentemente removidos pelo prefeito da cidade, Mitch Landrieu) de sua herança como celebrações do vigilantismo branco e violência. De fato, assim como a estátua de Lee, as estruturas em Nova Orleans também foram foco recente de mobilização por supremacistas brancos, com defensores cuja retórica evoca a era mais sombria da história de nossa nação.

REUTERS/Jonathan Bachman
19.mai.2017 - Estátua do general Robert E. Lee, herói dos Confederados na Guerra Civil Americana, é retirado de monumento em Nova Orleans

O contexto é o motivo para o presente impulso para remoção dessas estátuas ser tão urgente: esses monumentos fixam na memória a violência, a intolerância e a repressão, e tornam mais concreta uma "história" propagandeada, onde senhores de escravos se tornam modelos de virtude e onde o terrorismo antinegro é visto como luta pela liberdade. E por sua vez, servem de pano de fundo para o ódio atual: Corey Stewart, da Virgínia, elaborou sua campanha para governador em torno de imagens neoconfederadas. 

O contexto também tem contexto. Devemos olhar para essas controvérsias, seja em Charlottesville, Nova Orleans ou qualquer outra cidade, e as metadiscussões em torno da história e da memória com um olho voltado para o ambiente político atual.

O atual presidente dos Estados Unidos foi eleito após um ano de campanha repleta de demagogia racista, durante a qual ele elevou e popularizou várias figuras da extrema direita. A mais proeminente dessas foi Steve Bannon, o conselheiro do presidente cuja principal contribuição para a vida americana é o site de notícias "Breitbart" e seu estábulo de vozes misóginas, antimuçulmanas, antissemitas e racistas.

Al Drago/The New York Times
Richard Spencer, nacionalista branco

Mas também há outras. A eleição de Trump energizou o movimento nacionalista branco, encorajando figuras como o já mencionado Spencer. Além de Bannon, assessores da Casa Branca como Michael Anton e Stephen Miller, sem falar no secretário de Justiça, Jeff Sessions, já expressaram temas nacionalistas brancos.

Miller foi uma figura chave por trás da "proibição de entrada de muçulmanos" que Trump emitiu no início de seu governo, enquanto Anton é famoso por um ensaio em apoio a Trump, no qual o saudou como a única figura capaz de preservar a república americana contra a "importação incessante de estrangeiros do Terceiro Mundo sem nenhuma tradição, experiência ou gosto pela liberdade". 

Noções de hegemonia branca, da ideia de que os americanos brancos têm maior direito sobre os recursos nacionais, de que de alguma forma são cidadãos mais legítimos, nunca estiveram fora de nossa política. Mas durante grande parte das últimas quatro décadas, eram expressadas em termos codificados, com um grau de negação. ("Rainhas do bem-estar social", os "47%", etc.)

A ascensão de Donald Trump, propelida pela mensagem de ansiedade branca e revolta branca, abriu espaço em nosso cenário político para a articulação explícita dessa visão. Ela é reforçada por uma mídia que dá sua maior atenção aos simpatizantes do presidente e trata seus ressentimentos (contra muçulmanos, imigrantes e os negros americanos) como expressões legítimas, dignas de atenção e de consideração política. 

Tendo isso como pano de fundo, é claro que os racistas mais explícitos se organizariam em torno do memorial à Confederação; é claro que seus simpatizantes começariam a inundar os campi universitários com folhetos e ameaças; é claro que veriam um espaço para sua retórica na vida pública americana. Por que estamos chocados com a manifestação de Spencer, quando seu slogan, "não seremos substituídos", apenas deixa claro o conteúdo racial da promessa eleitoral de Trump de "retomar nosso país"? 

O que estamos testemunhando nessas disputas ferozes em torno dos memoriais da Confederação são as consequências culturais da recente guinada em nossa política. As estátuas e monumentos podem ser removidos, mas os valores que refletem, a mensagem de exclusão e hierarquia que representam, não apenas resistem; eles estão vicejando.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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