Análise: Relação secreta do governo JFK com a Rússia ajudou a impedir uma guerra

Tim Naftali

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    John F. Kennedy em seu escritório em Washington

    John F. Kennedy em seu escritório em Washington

Em um dia no início de dezembro, um dos agentes de Moscou nos Estados Unidos, trabalhando disfarçado como jornalista do jornal "Izvestia", relatou uma reunião particular com o "conselheiro mais próximo" do presidente eleito. O conselheiro, que se encontrou de modo privado com o espião russo, foi franco e esperava uma melhora nas relações em comparação ao governo anterior. Ele "destacou que não estava apenas expressando sua opinião pessoal, mas a posição do futuro presidente". Os dois homens se encontraram sozinhos e não há registro americano do encontro.

Não se trata de um relato sobre o general de exército Michael Flynn, cujas atividades durante a transição agora estão sendo investigadas. Nem é sobre Jared Kushner, que, segundo noticiou o jornal "The Washington Post" na sexta-feira, abordou o embaixador russo, Sergey Kislyak, em dezembro passado para propor um canal secreto de comunicações. A reunião descrita acima ocorreu em 1960, e o "conselheiro próximo" era o irmão do presidente eleito, Robert F. Kennedy.
Não é incomum para os russos quererem estabelecer contatos com o governo de um presidente que está chegando, especialmente quando há tensão entre os dois países.

Também não é incomum um governo americano usar canais secretos para sondar as intenções de poderes adversários. Mas dezembro de 1960 não era como dezembro de 2016. O encontro com Robert Kennedy provavelmente ocorreu a pedido dos russos, não dos americanos. Não foi mantido em segredo, já que foi anotado no registro telefônico de Robert Kennedy. E o irmão do presidente, apesar das palavras em geral encorajadoras, não fez promessas, não sugeriu a próxima ação e não estava trabalhando contra o governo Eisenhower que estava chegando ao fim.

Os russos foram inteligentes em focar a atenção no irmão do presidente eleito. Ele posteriormente se envolveria em uma atividade histórica envolvendo o canal secreto, mas bem depois da posse. E tantos anos depois, essas comunicações provaram ser uma iniciativa inteligente e patriótica por parte do governo Kennedy.

'John F. Kennedy não era apenas menos linha-dura que sua retórica pública, mas também menos linha-dura que o povo americano.'

Nesta segunda-feira, John F. Kennedy completaria 100 anos e foi preciso quase todo esse tempo para se desenvolver um quadro completo de sua presidência: quanto mais sabemos a respeito, mais impressionante ela se torna. Grande parte do trabalho biográfico até recentemente era preencher as lacunas criadas pelos censores, principalmente aliados próximos e familiares, que não queriam que a imagem do líder caído fosse manchada pelo seu vício por sexo e suas fragilidades físicas.

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3.jun.1961 - John F. Kennedy se encontrou com o líder soviético Nikita Khrushchev, em Viena

Mas o que mais dramaticamente poderia mudar a forma como vemos sua presidência é a enxurrada de novas informações (e parte delas não novas, mas não devidamente apreciadas dos registros russos) sobre como ele realizou seu trabalho. Kennedy tinha um sistema de gravação instalado na Casa Branca uma década antes de Nixon, mas essas gravações só foram plenamente liberadas a partir do final de 2012.

Diferente do tecnófobo Nixon, cujo sistema de gravação era ativado a qualquer fala, o de Kennedy era controlado por um botão geralmente pressionado apenas por ele. As gravações de Kennedy e a crescente divulgação dos documentos de segurança nacional daquela época estão provocando uma revisão do quadro de um momento muito criativo na política externa americana.

A conspiração russa de JFK não teve início durante sua campanha. Em meados de 1960, o ministro das Relações Exteriores soviético e a KGB (o serviço secreto soviético) dependiam principalmente de informações disponíveis publicamente para imaginar como seria Kennedy como presidente caso vencesse. Eles não contavam com informantes próximos do círculo do líder jovem, os homens da "Nova Fronteira". Os diplomatas soviéticos desdenhavam Kennedy ainda mais que a KGB, considerando "improvável que (ele) possua as qualidades de uma pessoa proeminente".

Ambas as instituições temiam que ele seria excessivamente influenciado por seu pai, Joseph, o multimilionário conservador e ex-chefe da Comissão de Valores Mobiliários. A inteligência soviética inicialmente suspeitava que Kennedy poderia ser mais positivamente inventivo nas relações entre os Estados Unidos e a União Soviética. Mas nenhum lado aparentemente teve qualquer ajuda para testar suas teorias por parte dos Kennedys ou de seus conselheiros até novembro.

Após a vitória eleitoral apertada de Kennedy, os diplomatas soviéticos e a KGB abordaram separadamente pessoas ligadas a Kennedy para conhecer melhor o futuro líder do Mundo Livre. O encontro do espião disfarçado com Robert Kennedy em 1º de dezembro de 1960 parecia ser um esforço da KGB para obtenção de um convite para uma cúpula por parte do presidente eleito e entregá-lo em uma bandeja de prata ao Kremlin.

Apesar dos Kennedys serem novos nas atividades da Casa Branca, eles não se impressionaram facilmente com a atenção soviética e trataram essas abordagens com cuidado, sendo encorajados apenas sob as circunstâncias certas. O presidente eleito se recusou a prometer um encontro de cúpula, apesar de não descartar um. "Em princípio", a KGB relatou Robert Kennedy como tendo dito naquele encontro em dezembro:

"Kennedy gostaria de se encontrar com o senhor (o líder soviético Nikita Khruschov) e espera que suas relações com o líder soviético sejam melhores do que com Eisenhower. Entretanto, ele não concordará com uma cúpula caso duvide que leve a resultados positivos. Nos primeiros três ou quatro meses de sua presidência, antes que apresente seu programa doméstico ao Congresso, Kennedy não poderá participar de uma cúpula."

E os Kennedys também misturaram abertura com alerta. A KGB informou que Robert Kennedy avisou Moscou a não testar o novo governo a respeito de Berlim, um símbolo do compromisso do governo com a defesa do Ocidente. JFK aguardaria até tomar posse e então fez uso dos canais formais do Departamento de Estado para marcar uma cúpula com Khruschov.

Após o fiasco da Baía dos Porcos em abril, entretanto, somado com a profunda preocupação de Kennedy com a estabilidade do Laos, o país do Sudeste Asiático, durante uma insurreição apoiada pelos soviéticos, os irmãos Kennedy decidiram explorar o amor russo por canais secretos. A partir do final de maio de 1961, Robert se encontraria pelo menos 35 vezes (um número extraordinário) ao longo de 19 meses com um oficial de inteligência soviético chamado Georgi Bolshakov (do serviço de inteligência militar, na época chamado de GRU) para expressar a esperança de seu irmão de um relaxamento das tensões entre as superpotências.

Sem causar surpresa, a imprensa e o público não tiveram conhecimento desses encontros. Mas Kennedy também manteve a maioria deles em segredo até mesmo do restante de seu governo. O conselheiro de Segurança Nacional, McGeorge Bundy, só teria conhecimento da extensão desses encontros três décadas depois.

O mais influente biógrafo de Kennedy, Arthur M. Schlesinger Jr., e seu assessor mais próximo e redator de discursos, Theodore Sorensen, sabiam pouco sobre esses contatos na época. Robert com frequência se encontrava com o agente soviético em seu gabinete no Departamento de Justiça.

O FBI (Birô Federal de Investigação, a polícia federal americana) pode ter tido uma vaga noção desses encontros, mas a CIA (Agência Central de Inteligência) foi mantida no escuro.

O que sabemos agora sobre esses esforços é que John F. Kennedy não era apenas menos linha-dura que sua retórica pública, mas também menos linha-dura que o povo americano. Ele certamente era anticomunista e não confiava nos revolucionários pró-Kremlin, mas acreditava, como revelaria publicamente em seu discurso na Universidade Americana em junho de 1963, que os americanos tinham um medo irracional dos russos e que ambos os povos compartilhavam uma aversão à guerra nuclear.

Seria preciso a aclamação pública de sua liderança após a Crise dos Mísseis de Cuba, em outubro de 1962, para Kennedy sentir que contava com capital político para dizer ao povo americano o que este não estava preparado para ouvir antes. Mas muito antes disso, como agora mostram os registros históricos, ele estava disposto a permitir que os soviéticos soubessem de seus pontos de vista privados e a explorar a possibilidade de uma distensão para reduzir o risco nuclear, ao mesmo tempo mantendo firmes as obrigações americanas com a segurança global.

'A conspiração russa de Kennedy não visava benefício pessoal, mas sim, sob um risco pessoal, evitar a aniquilação mútua.'

Os Kennedys adoravam manter segredos e eram bons nisso. Eles mantiveram esses encontros em segredo porque JFK tentava um avanço nas posições de negociação como balões de ensaio, que ele sabia que seriam abatidos caso revelados prematuramente a Washington. No assunto importante das várias inspeções locais de eventos sísmicos suspeitos na sismicamente ativa União Soviética (uma questão que impedia os dois lados de negociarem seriamente uma proibição de testes nucleares nos anos Eisenhower), Kennedy revelou a Moscou sua posição particular de 10 inspeções, enquanto a posição pública do governo americano era de 20 inspeções.

"Os Estados Unidos fariam uma concessão", Robert Kennedy disse ao seu contato soviético, "se isso fosse em resposta a uma proposta soviética". Ao mesmo tempo, o irmão do presidente ressaltou que um acordo de controle de armas só ocorreria se os soviéticos parassem de subestimar o poder americano e a causar problemas na Berlim dividida e no Sudeste Asiático. Os Kennedys também se recusaram a abrandar sua linha dura em relação a Fidel Castro ou até mesmo discuti-la com Moscou. "Cuba é um assunto encerrado", explicou Robert Kennedy.

Parte disso era ingenuidade (Khruschov não queria um acordo de controle de armas tanto quanto Kennedy e suspeitava do gesto do presidente) e tudo isso era politicamente perigoso para JFK em casa. Caso essas discussões secretas viessem a público, Robert Kennedy, assim como seu irmão, poderiam ser acusados de ser pró-soviéticos. Não eram, mas na Washington da época, não havia diferença aceitável entre buscar um acordo e ser visto como mole com os soviéticos.

Olhando para trás, entretanto, é difícil argumentar que não valia a pena correr esses riscos no auge da Guerra Fria. Os encontros secretos de Robert Kennedy podem não ter tornado um grande acordo de controle de armas mais provável, mas com certeza ajudaram a tornar menos provável uma guerra acidental. E em seu único encontro de cúpula em Viena, em junho de 1961, Kennedy e Khruschov concordaram em um Laos neutro, um novo status para o país dividido pela guerra que JFK propôs anteriormente, via canal secreto.

Poucos meses depois, durante a Crise de Berlim, quando tanques soviéticos e americanos estiveram em um impasse no Checkpoint Charlie, o canal secreto de Robert Kennedy pode ter sido o motivo para a retirada pelo Kremlin de seus 30 tanques sem incidentes. No final de 1962, quando os irmãos Kennedy suspeitaram que o interlocutor de Robert Kennedy poderia ser uma fonte da desinformação sobre as atividades de mísseis soviéticos em Cuba, eles transferiram o canal secreto de Bolshakov para o embaixador soviético, Anatoly Dobrynin.

Esse contato secreto, como muitos agora sabem, seria influente para obtenção de um fim pacífico para a Crise dos Mísseis de Cuba. A conspiração russa de Kennedy não visava benefício pessoal, mas sim, sob um risco pessoal, testar os limites do desejo soviético de evitar a aniquilação mútua que parecia tão plausível na época.

JFK há muito é uma espécie de enigma. Ele foi um liberal que arrastou o pé na questão dos direitos civis até seu terceiro ano de governo, e depois abraçou a luta como um imperativo moral, ignorando conscientemente a base do Partido Democrata no sul segregacionista. No mosaico de novas informações sobre sua presidência, podemos ver padrões. Kennedy buscava resultados liberais, ao mesmo tempo abominando instabilidade e incerteza.

Mas, no final, ele podia assumir riscos e assumia. Ele presumiu que sua abertura russa teria que permanecer em segredo, não apenas para satisfazer os soviéticos de que não se tratava de um golpe de publicidade, mas para lhe dar tempo para convencer a opinião pública americana a respeito de qualquer futuro acordo.

Seis décadas depois, o FBI acredita que há causa provável para investigação de relacionamento potencial, ou sua negação, entre a Rússia e o vencedor da mais recente eleição presidencial. É muito humano (e às vezes politicamente útil) ver paralelos na história. Mas qualquer comparação entre os dois casos exige primeiro fazer uma pergunta simples: quem se beneficia?

Dados os enredamentos financeiros e conflitos de interesse que cercam o atual presidente, tal relacionamento, caso exista, provavelmente se revelará como sendo muito diferente do encorajado pelos Kennedys anos atrás. Nos anos 60, sabemos agora, um presidente e seu conselheiro mais próximo deram passos criativos e audaciosos para tornar o mundo um lugar mais seguro. Feliz 100º aniversário, JFK.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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