Opinião: Antagonismo de Trump em relação à Alemanha é estúpido e perigoso

Fred Kaplan

  • Jim Bourg/Reuters

Os resultados adversos da desastrosa viagem do presidente Trump à Europa continuam envenenando o clima transatlântico. Seus comentários a respeito da Alemanha foram particularmente tóxicos e, além disso, estúpidos, pois refletem uma falta de entendimento da importância estratégica do país ou sua temível história.

A chanceler Angela Merkel expôs o assunto claramente em um discurso no domingo, na Baviera. "Nós europeus devemos tomar nosso destino em nossas próprias mãos", ela disse, porque os "tempos em que podíamos contar com nossos aliados acabaram". Isso, ela acrescentou, "é o que notei nos últimos dias", uma referência ao comportamento de Trump em Bruxelas e Roma, onde, entre outros momentos de grosseria, ele se recusou até mesmo a defender, mesmo que apenas da boca para fora, o compromisso segundo o Artigo 5º do Tratado do Atlântico Norte, de que os Estados Unidos defenderiam qualquer membro da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte, uma aliança militar ocidental) que fosse atacado.

Em uma resposta irritada, Trump tuitou na terça-feira: "Temos um IMENSO déficit comercial com a Alemanha, além dela pagar MUITO MENOS do que deveria à Otan e às Forças Armadas. Muito ruim para os EUA. Isso mudará". Enquanto estava no exterior, Trump teria dito a Jean-Claude Juncker, presidente da União Europeia: "Os alemães são muito, muito maus. Veja os milhões de carros que vendem aos Estados Unidos. Horrível. Vamos acabar com isso". O secretário de imprensa, Sean Spicer, negou a reportagem, que apareceu na revista "Der Spiegel", mas o tweet de Trump na terça-feira derrubou a negação e ressaltou sua queixa. Não foi um comentário a esmo, ele pareceu dizer; ele falava sério.

Mas a ira de Trump é equivocada e insensata em muitos níveis. Primeiro, sim, os americanos compram muitos carros alemães, mas não porque a Alemanha está despejando BMWs e Volkswagens no mercado americano, mas sim porque muitos americanos gostam desses carros. Segundo, como apontou meu colega Daniel Gross, muitos desses carros alemães são fabricados nos Estados Unidos; a fábrica da BMW na Carolina do Sul, a maior da empresa no mundo, produz 400 mil carros por ano.

O fato é que Trump sabe disso. Quando Merkel visitou Washington em março, ela trouxe consigo os presidentes-executivos da BMW, Siemens e Schaeffler, uma fabricante de peças industriais, que se encontraram com Trump por uma hora, o informando sobre o investimento deles de US$ 300 bilhões na economia americana e dos 750 mil empregos americanos gerados por suas fábricas. Segundo todos os relatos, Trump ficou impressionado.

O superávit comercial da Alemanha, que no ano passado totalizou US$ 65 bilhões apenas com os Estados Unidos, é um problema, mas não consequência explícita de cartas marcadas. Em vez, isso se deve às políticas fiscais e monetárias alemãs que encorajam a poupança e freiam o consumo, incluindo o de bens importados. Essas políticas derivam de uma fobia de inflação que remonta os anos 20, quando o marco alemão sofreu um colapso (em um ano o dólar passou de cotado a 4,20 marcos para 4,2 trilhões de marcos), abrindo o caminho para a ascensão do nazismo. Os banqueiros alemães do século 21 precisam relaxar, mas trata-se de um processo que deve ser encorajado por meio de negociações calmas e profissionais, não por meio de vociferação em CAIXA ALTA.

Na questão dos gastos militares, a Alemanha fica devendo. Apesar de ser a potência econômica da Europa, seu orçamento de defesa (37 bilhões de euros) fica em terceiro lugar, atrás do Reino Unido e da França. Mas de novo, o contexto histórico é importante. Até recentemente, o consenso geral, dentro do país e por todo o mundo, era de que a Alemanha não deveria gastar tanto dinheiro em defesa. A Constituição alemã proibia as Forças Armadas de enviarem tropas para outros países; quando essa restrição foi relaxada, soldados ainda assim eram proibidos de matar soldados inimigos.

Assim como a hipersensibilidade com a inflação, a aversão ao militarismo está profundamente enraizada na memória histórica. A grande maioria dos alemães resiste a dar mesmo que o menor passo na direção de uma ressurreição da postura imperialista da Alemanha, seja a de Hitler ou de Bismarck. E, dada a devastação provocada pela agressão alemã por toda a Europa por duas vezes no século 20, essa aversão era compartilhada por todos os aliados ocidentais. Um adágio da Guerra Fria dizia que a Otan tinha três propósitos na Europa: manter os americanos ali, manter os russos fora e os alemães controlados.

Muitos na Europa, acima de tudo os próprios alemães, ainda têm dificuldade em mudar essa visão da posição do país no mundo. Nos últimos anos, os alemães mudaram a Constituição para permitir o envio de tropas ao exterior, relaxaram ainda mais as leis que permitem que as tropas se envolvam em combate, mesmo que sob circunstâncias restritas, e aumentaram substancialmente o orçamento de defesa (8% apenas no ano passado). Mas pressionar a Alemanha a assumir maiores responsabilidades (o que, com a redução do papel americano, poderia evoluir para uma responsabilidade dominante) envolve brincar com questões profundas de caráter nacional e em uma estrutura notável de segurança no continente.

Talvez a coisa mais surpreendente a respeito do mundo que se formou após a Segunda Guerra Mundial tenha sido a ausência de guerra entre antigos rivais na Europa, não apenas a ausência de guerras, mas o desaparecimento da noção de que guerras europeias eram inevitáveis. Esse feito não ocorreu por milagre ou acaso. Foi resultado de um esforço meticuloso para construção de uma aliança baseada em valores compartilhados e interesses comuns, exigindo trilhões de dólares em ajuda e investimento, assim como a manutenção de enormes bases militares e, em tempos particularmente difíceis, uma crise ou duas que poderia levar a uma guerra ainda mais cataclísmica. É essa aliança, e a ordem internacional na qual se apoia, que as birras e indiferença de Trump está colocando em risco.

Com certeza os Estados Unidos gastaram uma parcela desproporcional na manutenção desse projeto, e Trump está longe de ser o primeiro presidente a pedir que os aliados participem mais. (Todo presidente nos últimos 40 anos estabeleceu metas numéricas de gastos militares. Jimmy Carter pressionou os aliados a gastarem 3% de seu produto interno bruto; Barack Obama pressionou por 2%, um apelo sendo renovado por Trump e que pode em grande parte ser atendido, menos por sua retórica ríspida e mais devido aos rosnados de Moscou.) Um resultado positivo que pode surgir da hostilidade de Trump em relação aos líderes europeus (e ao conceito da União Europeia) é que esses líderes podem finalmente tratar seriamente da exigência de um pilar europeu para sua defesa. Eles podem atender ao apelo de Merkel para que tomem seu destino em suas próprias mãos.

Mas no final, entretanto, os europeus podem não ser capazes de fazer isso por conta própria. Eles carecem de recursos, da vontade política e da habilidade para coordenar uma abordagem comum. Os alemães poderiam assumir o papel de liderança, mas a história deles permanece sendo um obstáculo, e diante dessa história, provavelmente isso seja uma boa ideia. Eles sabem seus limites e, por esse motivo, Merkel e outras autoridades voltaram um pouco atrás do discurso dela no domingo, destacando que, é claro, os laços transatlânticos devem e vão sobreviver. Mas em seu discurso do domingo, ela apenas reconheceu o que os outros líderes europeus perceberam na semana passada (é possível ver em seus rostos enquanto assistiam a fala de Trump), que a aliança estará em certo grau suspensa enquanto esse sujeito for o presidente.

Pode não ser coincidência que a principal meta de política externa do presidente russo, Vladimir Putin, seja restaurar a antiga União Soviética. Ele só poderá fazer isso se a União Europeia for enfraquecida e os laços entre os Estados Unidos e a Europa forem rompidos. Ele tem motivos para acreditar que seu sonho pode se tornar realidade. Independente do que as investigações possam revelar sobre os laços ou obrigações de Trump com a Rússia (ou a ausência deles), os sinais de indiferença dele para com o destino da Europa sem dúvida fazem Putin salivar mais do que achava que seria possível.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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