Por que Trump parou de dizer "terrorismo islâmico radical"?

William Saletan

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Em sua viagem à Arábia Saudita na semana passada, o presidente Trump falou muito sobre violência religiosa. Mas não pronunciou uma de suas expressões favoritas: "terrorismo islâmico radical". A omissão provocou discussões sobre por que ele abandonou o termo e se isso representaria uma mudança na política para o Oriente Médio. Sobre essas perguntas, vamos esperar para ver. Mas a mudança de Trump esclarece uma coisa: os presidentes que se recusam a associar o islã com o terrorismo não estão sendo burros. Estão sendo prudentes.

Como candidato presidencial, Trump afirmou que quando o presidente Obama e Hillary Clinton evitavam falar em violência islâmica eles não estavam apenas sendo covardes ou desonestos. Ele sugeriu que os dois não usavam a expressão "terrorismo islâmico radical" porque não compreendiam a conexão entre o terrorismo e seu contexto religioso. Hillary "não tem ideia do que é o islã radical", afirmou Trump depois do ataque terrorista do ano passado em Orlando. "Ela está em total negação (...) Quando se trata do terrorismo islâmico radical, a ignorância não é uma bênção --é mortífera." Vários dos adversários presidenciais republicanos de Trump --Ted Cruz, Ben Carson, Rick Santorum-- concordaram em que Obama e Hillary não entendiam nada.

Outros republicanos discordaram. Marco Rubio, John Kasich, Jeb Bush, Chris Christie e Lindsey Graham compartilharam o desapreço de Trump pelas políticas de Obama e Clinton. Mas esses republicanos disseram que era aconselhável distinguir islamismo de terrorismo. "Os presidentes não podem simplesmente dizer o que quiserem. Isso tem consequências, aqui e em todo o mundo", explicou Rubio durante um debate nas primárias. "Vamos ter de trabalhar com o reino da Jordânia. Vamos ter de trabalhar com os sauditas. Vamos ter de trabalhar com os reinos do Golfo. Vamos ter de trabalhar com os egípcios (...) Vamos ter de trabalhar com pessoas da fé muçulmana, enquanto o próprio islã enfrenta uma séria crise interna de radicalização."

Foi exatamente assim que Obama e Hillary explicaram seu raciocínio. Eles viram quantos assassinatos eram cometidos em nome do islã. Eles se recusaram a repetir esse discurso exatamente porque compreenderam que o objetivo dos terroristas muçulmanos era convencer outros muçulmanos de que o islã aprova o terrorismo. Mas essa linha de pensamento de Obama e Clinton não alcançou analistas e políticos conservadores --ou foi ignorada por eles. Durante a campanha, amigos meus perguntaram seriamente se Obama compreendia a relação entre o islã e o terrorismo.

Graças à viagem de Trump ao Oriente Médio, não preciso mais defender a opinião de Obama. Posso apontar para Trump. Ele deu meia-volta, na verdade, para a posição de Obama. Falando na Arábia Saudita no domingo (28), Trump substituiu seu discurso anterior de "extremismo" e "ideologia violenta". "Esta não é uma batalha entre religiões diferentes", disse. Trump notou que, segundo algumas estimativas, "mais de 95% das vítimas do terrorismo são muçulmanas".

A meia-volta de Trump não foi apenas uma questão de polidez enquanto visitava um país muçulmano. Dois dias depois, ele estava ao lado do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu no Museu de Israel, em Jerusalém. Netanyahu apelou aos EUA e a Israel para "derrotar as forças do islamismo militante". Trump, apesar do ataque terrorista da véspera em Manchester, evitou tal expressão. Assim como Hillary e Obama, ele falou sobre os muçulmanos como parceiros: "Apelo a todos os povos --judeus, cristãos, muçulmanos, a todas as fés, todas as tribos, todos os credos-- que extraiam inspiração desta antiga cidade, que deixem de lado nossas diferenças sectárias, superem a opressão e o ódio e deem a todas as crianças a liberdade, esperança e dignidade inscritas em nossas almas".

Por que Trump falou dessa maneira? Pelo mesmo motivo que Obama e Hillary. Em uma entrevista antes da viagem, o assessor de segurança nacional H.R. McMaster indicou que um dos objetivos do governo era calar os terroristas que invocavam o nome do islã. McMaster os chamou de "criminosos irreligiosos que usam uma interpretação pervertida da religião para promover suas agendas criminosas e políticas". Trump, em seus comentários sobre o ataque em Manchester, chamou os que o cometeram de "perdedores", explicando: "Não vou chamá-los de monstros porque eles gostariam desse termo. Eles achariam um ótimo nome". É difícil acreditar que esse raciocínio --recusar-se a chamar os terroristas do modo como eles querem ser chamados-- não tenha influído também na nova recusa de Trump a descrevê-los como islâmicos.

Trump não se tornou subitamente sábio, decente ou esclarecido. Se ele pensar que criticar o "terrorismo radical islâmico" o ajudará politicamente, voltará a fazê-lo. Mas sua decisão de abandonar esse discurso --pelo menos como um gesto estratégico aos governos muçulmanos-- mostra que ele entende por que é inteligente evitar falar dessa maneira, ou que McMaster o convenceu por enquanto. Então vamos parar de fingir que os presidentes que evitam associar o terrorismo ao islamismo estão sendo ingênuos. Porque hoje, quando os republicanos dizem isso, o presidente que estão chamando de ingênuo é Trump.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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