"Livro Negro" traz registros privados centenários dos detetives do Waldorf Astoria

Katrina Gulliver

  • Welles & Co./The New York Public Library

    O Waldorf Astoria em 1911

    O Waldorf Astoria em 1911

Era 1893 quando o maior dos hotéis de Nova York abriu suas portas. O Waldorf, posteriormente conectado ao prédio Astoria adjacente para se tornar o Waldorf Astoria, foi o primeiro dos hotéis de Nova York a contar com eletricidade e a oferecer a todos os hóspedes banheiros privados. Caro e opulento, seus salões de jantar e salões de baile se tornaram espaços regulares para a elite de Nova York. Nikola Tesla morou ali, partidos políticos realizaram eventos ali, a NBC realizou sua primeira transmissão do hotel, em 1926.

O Waldorf original fechou suas portas em 1929, para dar espaço ao edifício Empire State. Mas a joia de art déco que o sucedeu, entre a Park Avenue e Lexington a algumas quadras de distância, mantém o padrão elevado desde sua conclusão em 1931. Agora ele está passando novamente por mudanças: a empresa chinesa que comprou o hotel em 2014 o fechou no começo do ano para uma reforma de três anos, que dizem que converterá muitos de seus quartos em apartamentos residenciais.

Por mais luxuoso que morar no novo Waldorf Astoria possa vir a ser, há um serviço de seus anos dourados que quase certamente deixará de existir. São os detetives do hotel. Os registros desses detetives, que hoje podem ser vistos nos documentos do hotel na Biblioteca Pública de Nova York, mostram um nível quase inimaginável de serviço discreto e atencioso e fornecem uma janela provocante para a vida no hotel de luxo há um século.

Na primeira metade do século 20, muitos hóspedes ficavam hospedados por muito tempo, às vezes eram até mesmo moradores permanentes. Parte do motivo era a lentidão das viagens: antes da era dos jatos, não havia como alguém de Saint Louis vir a Nova York para uma reunião e voltar no mesmo dia.

Após levarem dias (ou semanas, no caso dos viajantes internacionais) para chegar à cidade, as pessoas permaneciam por mais tempo. O Waldorf possuía um verdadeiro mundo de lojas e restaurantes, de modo que os hóspedes do hotel não tinham a necessidade de sair do prédio para terem tudo o que precisavam.

Assim como outros hotéis de luxo e lojas de departamentos, o Waldorf Astoria tinha seus próprios detetives, que registravam de forma diligente suas atividades naquele que era então conhecido como "Livro Preto". O "New York Times" com frequência noticiava suas investigações, em uma prosa de tirar o fôlego que ressaltava o heroísmo dos detetives.

"Salvo de Golpistas", dizia uma manchete de agosto de 1901, em uma história narrando o caso do "Cidadão Respeitável do Oeste" (isto é, um visitante do Colorado), que estava sendo enganado por golpistas no lounge do hotel, até os detetives sabiamente intervirem. Segundo a reportagem, o detetive Joe Smith reconheceu o golpista, já tendo o visto agir em Londres. Smith, um detetive veterano do Waldorf que iniciou sua carreira na polícia de Londres, era célebre o bastante para ser tema de uma biografia em 1929, chamada "Crooks of the Waldorf" (Os criminosos do Waldorf, em tradução livre).

Hill Brothers Publishers/Wikipedia
Uma recepção no Salão Octogonal do Hotel Waldorf Astoria, em 1893


Aquele "Livro Preto" se encontra hoje na coleção Waldorf da Biblioteca Pública de Nova York. Esse registro dos casos de todos os detetives do hotel permanecia no escritório deles e os homens de cada turno registravam todas as ocorrências, independente de quão triviais. "Encontrado um cachorro grande no 5º andar", diz um registro.

O livro chegou à biblioteca quando o antigo Waldorf foi fechado. Uma nota de 1929 do bibliotecário R.W.G. Vail diz que ele foi retirado do lixo e "não deveria ser usado pelo público por muitos anos", supostamente para proteger as reputações dos citados nele. (O próprio Vail é notável na história da biblioteca: ele também trabalhou na Sociedade Americana de Antiquários e na Sociedade Histórica de Nova York, salvando documentos de muitas instituições para futuros pesquisadores.)

Uma nota adicional de outro bibliotecário concorda: o "Livro Preto" deveria ser "esquecido" por ora, escreveu o bibliotecário, porque "o pessoal do hotel não sabe que está aqui".

Parte do trabalho dos detetives era lidar com simples esquecimento. Muitos relatos no livro, que começam em 1902, tratam de lenços, bolsas e joias esquecidos pelos hóspedes no lounge ou no salão de jantar (e, em grande parte, devolvidos a eles).

Uma reportagem do "Times" de 1912 relata que a sra. Hiram Johnson, esposa do candidato a vice-presidente, deixou cair um broche de diamante no elevador. Ele foi encontrado e devolvido três horas depois.

Ao mesmo tempo, a clientela rica do Waldorf era um ímã para ladrões e golpistas, e combatê-los era um grande elemento do trabalho dos detetives do hotel. Os detetives reconheciam infratores reincidentes e anotavam descrições dos novatos.

Alguns golpes eram criativos. Em um caso, os detetives impediram um homem de "usar papel timbrado do hotel". Ele respondia cartas em resposta a anúncios de emprego. Alegar residência no Waldorf era útil para alguém à procura de trabalho, e um golpe não muito difícil de realizar, já que os hotéis tendiam a aceitar correspondência até mesmo de não hóspedes.

O papel dos detetives do hotel não era apenas proteger os hóspedes, mas também mantê-los na linha. Como nota o livro, eles despejariam um hóspede por uma infração moral como "ter uma mulher em seu quarto".

Outro registro nota a história picante de uma mulher casada, que chegou ao hotel antes de seu marido, que foi pega com o filho adolescente de outro hóspede. Dado o alto perfil social de muitos dos hóspedes do Waldorf, os gerentes consideravam vital a proteção da reputação do estabelecimento.

O mundo descrito no "Livro Preto", com seu serviço refinado e olhar vigilante, não mais existe. Mesmo em hotéis cinco estrelas, nós pagamos por privacidade em vez de proteção dos costumes, e temos sorte se conseguirmos persuadir funcionários a encontrar e devolver pertences perdidos. Mas o Waldorf, como visto nos registros salvos, já foi muito diferente.
 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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