Como jovem transgênero venceu a batalha para usar banheiro masculino no colégio

Mark Joseph Stern

  • Reprodução/Facebook Ash Whitaker

    Ashton Whitaker ganhou o direito de usar o banheiro masculino de seu colégio após batalha judicial

    Ashton Whitaker ganhou o direito de usar o banheiro masculino de seu colégio após batalha judicial

No penúltimo dia de Ash Whitaker no ensino médio, ele descobriu que havia ganho uma grande causa de direitos civis em um tribunal federal de apelação. Logo em seguida, foi fazer uma prova. De muitas formas, Whitaker, que vive em Kenosha, no Wisconsin, era só um típico aluno superativo de ensino médio: tocava na banda do colégio, participava da National Honor Society e do clube de teatro. Mas Whitaker também é transgênero —um fato que preocupava profundamente administradores de seu distrito escolar, que o proibiram de usar o banheiro dos meninos.

Com a ajuda da Transgender Law Center, uma organização de defesa das comunidades transgênero, Whitaker processou seu distrito escolar, argumentando que este estaria violando seus direitos segundo a Title IX (lei federal que proíbe discriminação sexual na educação) e a Cláusula de Proteção da Igualdade da 14ª Emenda.

Em setembro, um juiz federal concordou e impediu que a escola expulsasse Whitaker do banheiro masculino. O distrito recorreu, e no final de maio o Tribunal de Apelação do Sétimo Circuito dos Estados Unidos confirmou a ordem judicial em uma decisão histórica para os direitos LGBTQ. Pouco depois, Whitaker se formou no ensino médio; ele frequentará o programa de engenharia biomédica da Universidade de Wisconsin-Madison no outono.

Conversei recentemente com Whitaker sobre sua vitória nessa batalha judicial no Sétimo Circuito. Nossa entrevista foi editada por motivos de clareza.

Mark Joseph Stern - Como começou o problema com sua escola?

Ashton Whitaker - Em março de 2016, durante meu terceiro ano, meu distrito me disse "Você não pode usar o banheiro masculino—e, aliás, você tampouco pode concorrer ao título de rei do baile de formatura porque não queremos reconhecer sua identidade de gênero como válida". Decidi fazer o que faço de melhor, causando o máximo de barulho possível. Comecei com um abaixo-assinado contra a decisão da escola.

A questão do rei do baile de formatura foi resolvida, no final; agora o distrito escolar tem políticas instauradas afirmando que você pode concorrer ao que estiver mais alinhado com sua identidade de gênero. Mas o distrito continuava impassível na questão do banheiro. Então a Transgender Law Center me procurou e disse, "Nós ouvimos falar sobre o que está acontecendo, vamos representar você se quiser levar isso à Justiça".

A perseguição começou por volta dessa época. Administradores da escola estavam sempre monitorando como eu usava o banheiro, me tirando das salas de aula e me ameaçando com ações disciplinares. E fiquei sabendo sobre a pulseira, então decidi que aquilo não ia terminar bem, e deveria entrar na Justiça em vez de tentar argumentar com o distrito porque eles não estavam me ouvindo.

Mark Joseph Stern - Conte-me mais sobre a pulseira.

Ashton Whitaker - Pelo que entendi, dois dos administradores haviam dado essas pulseiras de identificação para orientadores e disseram que se algum aluno viesse se manifestar sobre o uso do banheiro—basicamente, Ashton Whitaker—eles deveriam lhe dar um desses. Isso sinalizaria que eles não deveriam usar nenhum outro banheiro além do banheiro individual do prédio principal. Eles estavam basicamente dizendo aos alunos trans: estamos de olho em você. No começo pensei, não, eles não fariam isso. Mas eles fizeram, e era verde berrante. Fiquei embasbacado.

Mark Joseph Stern - Como você reagiu a tudo isso?

Ashton Whitaker -  Fiquei revoltado. Parte de mim queria chorar e parte de mim queria gritar, porque cansa estar sempre tentando provar sua capacidade ou tentar dizer, ei, eu sou simplesmente assim. Foi muito revoltante, então simplesmente disse à escola: Não. Não vou fazer isso. Eles disseram, "Você não pode usar o banheiro masculino", e eu disse, "Eu vou usar. Tentem me impedir". Afinal, o que eles iam fazer? Me arrancar do banheiro quando eu estivesse indo ao banheiro? Isso não me parecia um bom plano.

Todas as reuniões que tive com os administradores foram basicamente assim. Eles diziam que ua só podia usar esses banheiros específicos: o banheiro feminino ou o banheiro individual do prédio principal. Eu disse, não, vou usar o banheiro masculino. Em uma dessas reuniões, me disseram que se eu continuasse usando o banheiro masculino ia sofrer uma ação disciplinar.

Mark Joseph Stern - Deve ter sido assustador.

Ashton Whitaker - Eu fiquei assustado. Não gosto de arrumar encrenca. Não gosto de ir à sala do diretor. Era realmente assustador que todo meu trabalho acadêmico pudesse ter sido manchado por usar o banheiro. É meio aterrorizante ser ameaçado por pessoas que têm muito poder.

Mark Joseph Stern - Como seus colegas e professores reagiram à medida repressiva da escola?

Ashton Whitaker - Quando eles souberam o que a escola estava fazendo, vários de meus colegas ficaram revoltados com os administradores por dizerem ou fazerem essas coisas comigo. Eu definitivamente recebi apoio de boa parte de meus colegas de sala. Todos meus professores foram respeitosos, muito compreensivos e solidários. Eles usam meu nome e pronomes corretos.

Mark Joseph Stern - Como foi frequentar a escola enquanto você processava o distrito escolar?

Ashton Whitaker - No terceiro ano, quando tudo começou, eu estava arrasado, ansioso e meio paranoico. Mas este ano, especialmente após a medida liminar em setembro, foi sinceramente o ano mais fácil. Eu nem tive que me preocupar com o uso do banheiro ou em ser retirado novamente da sala por ter usado o banheiro. Eu podia simplesmente seguir com minha rotina em paz.

Mark Joseph Stern - Você pode falar um pouco sobre seu processo de se assumir?

Ashton Whitaker - Fiz isso em etapas. No meu primeiro ano eu disse, "Você vai se assumir para si mesmo, meu chapa, aceite-se e ame-se a si mesmo." O segundo ano foi minha transição social. Tentei contar a alguns de meus professores. Quando meu segundo ano chegou ao fim, eu finalmente consegui contar a todos meus professores. Àquela altura, eu havia basicamente feito a transição social completa.

Muitos deles aceitaram tranquilamente. Eles diziam, "Certo, se é assim que você quer ser chamado, lembre-me ou me corrija. Esses são os seus pronomes". Nunca foi realmente um problema. Nenhum dos meus professores disse, "Não, não vou fazer isso". E eu usei o banheiro masculino por seis meses sem problema algum antes de a escola torná-lo um problema. O distrito realmente tratou isso de forma desproporcional.

Mark Joseph Stern - Qual foi sua reação à medida liminar do tribunal distrital?

Ashton Whitaker - Senti-me aliviado, com perdão do trocadilho. Eu estava tão empolgado com meu último ano, não queria ter de estar sempre atento quando fosse ao banheiro. Então comecei meu último ano da melhor forma possível. Nota: meu último ano terminou da mesma forma como começou, com uma vitória.  Estou super animado com isso. Isso fez com que meu último ano inteiro corresse bem.

Mark Joseph Stern - Vamos falar sobre isso. Como você descobriu que o Sétimo Circuito havia decidido em seu favor?

Ashton Whitaker - Era meu penúltimo dia de aula. Vi minha mãe nos corredores enquanto ia para meu último período do dia e ela me contou. Eu meio que entrei em choque no começo. Eu estava tão atarantado porque estava no meio dos exames finais, e a ficha não caiu no começo. Minha mãe dizia, "Vencemos, conseguimos!", e eu, "É, precisamos ir senão vou me atrasar para a aula".

É claro, fiquei realmente empolgado quando pude parar e pensar a respeito depois de chegar em casa. Quando olho para trás, vejo como foi encorajador e empoderador. Isso me faz sentir que posso de fato fazer algo para ajudar outros jovens transgênero e jovens não-binários a viverem de forma mais autêntica.

Mark Joseph Stern - Que conselho você daria a outros alunos transgênero que estão lutando por seus direitos nas escolas?

Ashton Whitaker - Se for justificado, partam para cima. Não desistam da briga. Eu me preocupava com disciplina, notas, saúde, e essas preocupações são justificadas. Mas quando você vai se colocar à frente de outras coisas? No penúltimo ano, eu pensei comigo mesmo, como posso seguir em frente se simplesmente varrer isso para debaixo do tapete? Como posso realmente me aceitar se não for me posicionar contra pessoas que estão me dizendo que não me conheço?

Os jovens transgênero devem se respeitar, se aceitar e se amar o suficiente para perceber que, se eles estiverem em uma posição como a minha, não está tudo bem. Mesmo que seja a coisa mais difícil que você vá enfrentar na sua vida, você precisa lutar pelo que é certo. Você deve fazer o que for necessário para viver de forma autêntica, para viver como você mesmo e ser você mesmo.

Eu sinto que isso não deveria ser difícil, viver como quem você é, independentemente do gênero ou da sexualidade. Se alguém lhe disser que você está errado e que não conhece a si mesmo, prove que eles estão errados.

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