Atenção dos pais, e não aulas de natação, garante a segurança das crianças nas piscinas

Melinda Wenner Moyer

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Meu filho quase se afogou duas vezes e, em ambas as vezes, a culpa foi minha. Ele estava brincando na parte rasa por 45 minutos em ambos os casos. Então me distraí por um minuto e, quando vi, ele tinha desaparecido. Havia múltiplas pessoas na piscina com ele nas duas ocasiões, algumas a menos de um metro, algumas delas parentes, mas ninguém viu que ele tinha se deixado levar para a parte mais funda e sua cabeça afundou abaixo da superfície. O único motivo para eu ter notado foi porque, quando procurei por ele, não o vi.

Essas duas experiências estão entre as mais traumáticas de minha vida (eu ainda tenho pesadelos) e também foram muito assustadoras para ele. Felizmente, ele ficou bem, ao menos fisicamente. Mas os incidentes provaram para mim que crianças que estão se afogando não pedem ajuda; elas não se debatem na água. Elas apenas afundam e silenciosamente desaparecem.

Mais crianças americanas morrem hoje por afogamento do que por acidentes de carro, o que torna o afogamento a principal causa de morte por lesão entre crianças de 1 a 4 anos. Até mesmo quando crianças sobrevivem ao quase afogamento, até 10% sofrem dano neurológico permanente.

Meu filho fez aulas grupais de natação após o primeiro incidente. Mas depois do segundo, eu o matriculei em aulas particulares. A melhor forma de prevenir um afogamento, eu imaginei, seria assegurar que ele tivesse os conhecimentos básicos de natação.

Eu estava errada. Como descobri ao estudar a literatura de afogamento infantil, a ideia de que aulas de natação previnem o afogamento, especialmente entre crianças pequenas, é perigosa.

"É parte do problema, não a solução", diz Kevin Moran, um salva-vidas veterano e pesquisador de afogamento da Universidade de Auckland, na Nova Zelândia.

A Academia Americana de Pediatria concorda. Um único estudo pequeno americano sugere que aulas de natação tornam o afogamento menos provável, mas estão longe de ser uma panaceia, e a noção de que saber nadar mantém a criança segura pode paradoxalmente colocar a criança em risco ainda maior.

Sei que o que estou dizendo é um sacrilégio para muitos leitores. Pesquisa sugere que 68% dos pais consideram melhor começar a aprender a nadar antes que a criança complete 3 anos, e mais da metade acha que aulas de natação são a melhor forma de prevenir afogamento de crianças pequenas. Uma academia local tem lista de espera para aulas para bebês e crianças pequenas, e seu site alega que as aulas ensinam às crianças "segurança na água", o que qualquer pai razoável pensaria ser "prevenção contra afogamento".

A Cruz Vermelha Americana declara que "a melhor forma de ajudar sua família a permanecer segura é matricular as crianças em aulas de natação na idade apropriada", que são oferecidas para crianças a partir de 6 meses de idade. Mas as estatísticas são claras: saber nadar não basta. Dois terços das crianças que se afogam, acredite se quiser, são excelentes nadadores.

'Esses pais começam a presumir que seus filhos não precisam de vigilância atenta perto da água.'

O fato é que crianças pequenas não aprendem habilidades de sobrevivência em aulas de natação comuns, em parte por não serem capazes. "Em grande parte, o que essas aulas fazem é preparar as crianças para nadarem, deixando-as à vontade na água, fazendo com que molhem o rosto, ficando submersas e lhes ensinando algumas habilidades rudimentares", diz Barbara Morrongiello, uma professora da Universidade de Guelph, no Canadá, que estuda práticas de segurança e prevenção de afogamento para os pais.

Não há nada de errado nisso. Se as aulas estimularem o gosto por brincar na água e pela natação, isso é ótimo. O que é ruim é a suposição dos pais de que as aulas fazem mais que isso.

"Programas de natação para crianças com menos de 4 anos não deveriam ser considerados como uma estratégia de prevenção de afogamento", explica Morrongiello.

Isso porque a habilidade de sobreviver a um quase afogamento geralmente exige mais do que os tipos de habilidades na água que mantêm as crianças flutuando em situações normais de natação. As crianças podem se afogar por estarem cansadas, por terem uma cãibra muscular, ou se machucarem enquanto brincam na água, assim como precisam aprender o que fazer nessas situações específicas para permanecerem em segurança. As crianças estão especialmente em risco quando caem na água vestidas, pois as roupas tornam a natação mais difícil. A água fria tem o mesmo efeito.

E então há a necessidade de as crianças quase se afogando e em pânico permanecerem calmas e focadas o bastante para nadarem até um local seguro e poderem segurar seu fôlego por mais que alguns poucos segundos, o que os pequeninos não conseguem fazer.

"Competência em nadar é apenas uma das muitas competências físicas e cognitivas necessárias para prevenir afogamento", explica Moran. Em outras palavras, saber nadar costuma não ser suficiente. (Uma nota a qualquer pessoa se perguntando sobre aqueles vídeos virais que mostram bebês sendo treinados para ser "à prova de afogamento": leia isto, por favor. Essas alegações e vídeos são perigosos.)

Para piorar ainda mais, pesquisa sugere que aulas de natação podem deixar os pais excessivamente confiantes a respeito da capacidade de seus filhos e vigiá-los menos atentamente. Em um estudo de 2014, Morrongiello e seus colegas pesquisaram regularmente pais por um período de oito meses enquanto seus filhos em idade pré-escolar (de 2 a 5 anos) faziam aulas de natação.

Quanto mais aulas as crianças faziam, os pais passavam a acreditar que seus filhos sabiam como se manter seguros em situações potencialmente perigosas na água, de que eram capazes de avaliar, por exemplo, sua própria capacidade de natação e sabiam que deviam permanecer longe de piscinas sem supervisão, coisas que as aulas de natação geralmente não ensinam.

Os pais também passaram a presumir que seus filhos precisavam de vigilância menos cuidadosa perto da água, o que também não é necessariamente verdade. (O pequeno estudo que mencionei acima sugerindo que aulas de natação reduzem o risco de afogamento apresenta o que é chamado de grandes intervalos de confiança, um sinal estatístico de que é impossível dizer quão forte é o feito e de que pode variar muito entre crianças.)

Em outro estudo, Morrongiello e seus colegas pediram aos pais que julgassem quão bem seus filhos passaram a dominar várias técnicas de natação em suas aulas e descobriram que os pais superestimaram 1 em cada 5 habilidades. (Essa superestimação da competência tende a ser especialmente ruim entre os papais.) Alguns pesquisadores também se preocupam de que quando as crianças têm aulas de natação, elas também perdem seu medo natural da água e apresentam maior probabilidade de, digamos, pular na piscina sem dizer a ninguém.

Mas a última coisa que precisamos é de mais crianças brincando na água sem supervisão. Eu sou um exemplo óbvio, mas muitos pais são observadores desatentos: em um estudo de 2009, Moran e seus colegas observaram famílias na praia e descobriram que 29% dos pais não supervisionavam adequadamente seus filhos com menos de 5 anos, e quase metade não supervisionava adequadamente seus filhos de 5 a 9 anos.

De fato, uma pesquisa nacional de 2004 apontou que 88% das crianças americanas que se afogaram estavam supostamente sendo vigiadas na ocasião, mas os responsáveis se distraíram. Eles conversavam ao celular ou com outras pessoas na piscina, estavam lendo, estavam comendo ou tomando banho de sol. Um estudo sobre as crianças que se afogaram no Estado de Washington apontou que apenas 12% dos afogamentos envolvendo pré-escolares foram vistos por alguém, o que sugere que a maioria das crianças se afoga com responsáveis próximos que não estavam prestando a devida atenção.

Outra coisa a considerar a respeito das aulas de natação para crianças pequenas (especialmente bebês) é que a exposição ao cloro nas piscinas pode aumentar o risco de problemas respiratórios, como bronquite e asma. E quando nadam, as crianças engolem quatro vezes mais água que os adultos, o que não bom, porque fazê-lo pode causa doenças ligadas às águas de recreação como infecções e diarreia (esperamos que não na piscina). E se inalarem mesmo que um pouquinho de água em seus pulmões, também pode causar problemas pulmonares.

A maioria desses resultados é rara (não estou tentando assustar você), mas são coisas que é preciso ter em mente quando pensar em aulas de natação para crianças muito pequenas.

Por todos esses motivos, tanto a Academia Americana de Pediatria quanto a Sociedade Pediátrica Canadense não recomendam aulas de natação antes dos 4 anos. Morrongiello aponta que há aulas de competência na água que focam mais em técnicas de prevenção de afogamento, como o programa Nadar para Sobreviver do Canadá, mas que são focados em crianças da terceira série para cima, porque as crianças pequenas não têm nem força e nem vigor para fazer uso confiável dessas técnicas.

Não sou contra aulas de natação e continuarei com as aulas particulares de meu filho (que agora está com 6 anos). porque acho que são maravilhosas por vários motivos. Mas é importante que os pais reconheçam que a criança que sabe nadar não é uma criança que não pode se afogar.

A Academia Americana de Pediatria recomenda que os pais permaneçam com seus filhos ao seu alcance o tempo todo; quem dera eu estivesse mais perto de meu filho quando ele submergiu. A academia também recomenda que piscinas sejam cercadas por todos os lados e que os pais saibam reanimação cardiopulmonar. Boias são ótimas, mas não são um talismã, porque podem se enroscar em equipamento da piscina ou se soltarem; o filho da minha irmã já foi salvo por um salva-vidas após tirar sua boia e pular de novo na piscina. (E evite os infláveis.)

Resumindo: "A única forma de assegurar que seu filhos não vão se afogar é mantendo a atenção neles", diz Morrongiello.
 

 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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