Análise: Os paralelos entre Watergate e o escândalo envolvendo Trump e a Rússia

Michelle Goldberg

  • Kevin Lamarque/Reuters

    O presidente dos EUA, Donald Trump

    O presidente dos EUA, Donald Trump

No dia 17 de maio de 1973, o Comitê Seleto do Senado sobre Atividades da Campanha Presidencial, que investigava Watergate, deu início a 37 dias de audiências televisionadas envolvendo 33 testemunhas. Até esse dia o "Washington Post" já havia publicado vários dos maiores furos sobre o escândalo de autoria de Carl Bernstein e Bob Woodward. Dois assessores do presidente Richard Nixon, G. Gordon Liddy e James W. McCord Jr., haviam sido condenados por conspiração, arrombamento e instalação de escutas.

O procurador-geral de Nixon, Richard Kleindienst, e seus assessores mais próximos, H.R. Haldeman e John Ehrlichman, renunciaram. Em junho de 1973, John Dean, ex-conselheiro de Nixon na Casa Branca, contou a investigadores que ele havia tido pelo menos 35 conversas com o presidente sobre o acobertamento de Watergate.

Em julho, o país soube sobre o sistema secreto de gravação na Casa Branca, mas Nixon se recusou a entregar as fitas para os investigadores.

Olhando hoje, pode parecer que as dúvidas sobre o escopo do escândalo haviam sido resolvidas em agosto de 1973, quando foram concluídas as audiências. Contudo, de acordo com o livro de 1983, "The Battle for Public Opinion: The President, the Press and the Polls During Watergate" ("A disputa pela opinião pública: o presidente, a imprensa e os institutos de pesquisa durante Watergate"), uma pesquisa do instituto Harris revelou que 50% dos entrevistados acreditavam que a mídia estava dando a Watergate "mais atenção do que merecia".

Outra pesquisa revelou que somente 20% dos americanos consideravam "Watergate, falta de confiança no governo ou problemas de Nixon e seu governo" os problemas mais importantes que o país enfrentava. A maioria das pessoas estava mais preocupada com a inflação.

Na mais recente edição da "New York Magazine", Frank Rich assina uma incrível matéria de capa, "Just Wait: Watergate didn't become Watergate overnight, either". ("Tenham paciência: Watergate também não virou Watergate da noite para o dia").

"Entre aqueles de nós que querem que Donald Trump saia de Washington o mais rápido possível, há um medo razoável de que ele também consiga se segurar até o final de um mandato de quatro anos que fedia a corrupção desde o começo", escreve Rich.

Mas o exemplo de Watergate, ele argumenta, mostra que a implosão de uma presidência não é necessariamente óbvia enquanto está acontecendo.

Como Rich aponta, existem muitas semelhanças fascinantes entre o escândalo emergente de Donald Trump com a Rússia e Watergate. Ambos envolvem invasões ao Comitê Nacional Democrata e demissões no alto escalão com o intuito de impedir investigações. Nixon, assim como Trump, era um homem rancoroso e paranoico obcecado em conter vazamentos feitos por funcionários do governo que estariam conspirando contra seu governo. (Nixon se referia a seus inimigos internos como o "contra-governo"; Trump os chama de "Estado profundo")

Contudo, no momento o paralelo mais saliente entre o escândalo de Trump com a Rússia e Watergate pode estar na frustrante maneira intermitente de como ele tem se desdobrado e na incerteza coletiva sobre quem ele apanhará. Rich cita Elizabeth Drew, colunista da "New Yorker" em Washington na época: "Olhando hoje, o desfecho parecia inevitável. Mas certamente não parecia assim na época".

Vale a pena lembrar isso no tenso interlúdio entre revelações, quando pessoas tanto à direita quanto à esquerda estão argumentando que o escândalo envolvendo Trump e a Rússia é uma preocupação elitista distante das preocupações do eleitorado. No "New York Times", David Brooks fez um alerta para que as pessoas não se "deixem levar" pela investigação sobre Trump e a Rússia: "As elites políticas se deixam levar pelos escândalos. A maioria dos eleitores não se importa de fato".

De acordo com Mike Lillis do "The Hill", alguns membros democratas do Congresso querem que seus líderes falem menos sobre Trump e Rússia, dizendo que a "narrativa simplesmente não é uma preocupação entre eleitores distritais, que estão muito mais preocupados com questões econômicas básicas como empregos, salários e custos de educação e saúde".

Como argumento estratégico, isto pode fazer sentido: a maioria das pessoas sempre estará mais preocupada com suas perspectivas econômicas imediatas do que com os delitos de Washington, por mais cabeludos que sejam. Mas o interesse do público por um escândalo em andamento não nos diz muito sobre o risco maior que ele apresenta ao governo.

Em uma conversa que teve no dia 13 de março de 1973 com Dean, Nixon não deu importância para a ideia de que Watergate pudesse ser uma crise em potencial. "Será basicamente uma crise entre os intelectuais, os babacas. (...) pessoas comuns não verão isso como uma crise, a menos que isso as afete", ele disse. Ele tinha razão—até que não tinha mais.

Naquele mês de março, a aprovação de Nixon estava próxima dos 60%. Ela só chegou a níveis tão baixos quanto os atuais 36% de Trump meses depois de iniciadas as audiências do Senado. Ela nunca caiu para menos de 24%, que pode estar perto do índice mais baixo de Trump; uma pesquisa realizada no mês passado revelou que 22% do eleitorado aprovava firmemente o presidente.

Rich argumenta que, ao contrário da crença popular, os republicanos na época de Nixon não eram mais corajosos ou menos medrosos que os de hoje. Eles só saltaram do navio depois que o presidente havia se tornado politicamente nocivo.

Quando chegou o verão de 1974, segundo Rich, com "as eleições de meio de mandato se aproximando, membros comuns do partido republicano, a maioria deles de forma tão covarde quanto hoje, começaram a debandar".

Em agosto, a transcrição da fita "incontestável" revelou conclusivamente que Nixon havia ordenado o acobertamento de Watergate, e a represa do que havia restado do apoio político ao presidente finalmente se rompeu.

Em uma série de tuítes disparados na manhã de segunda-feira, Trump escreveu, "Com 4 meses observando de perto a Rússia, eles têm zero 'fitas' de pessoas ligadas a mim em conluio". É notável o fato de que Trump esteja transferindo os parâmetros do escândalo dos indícios de conluio para a existência de "fitas".

Ele está fazendo isso em um momento em que gurus da direita estão argumentando que, mesmo que surjam provas de conluio por parte da equipe de campanha de Trump com a Rússia, esse conluio não seria crime. Talvez uma nova bomba surja em breve e a direita esteja tentando desativá-la antecipadamente.

Mas, independentemente do que aconteça, quatro meses não são nada em uma investigação como essa. Não importa que os americanos pensem que esse escândalo é a mais importante ameaça que o país está enfrentando. É ainda a mais importante ameaça que o presidente está enfrentando.

Tradutor: UOL

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