Opinião: Projeto de vila construída pelo Facebook é exemplo para outras empresas

Will Oremus

  • REUTERS

    Projeto da vila do Facebook "Willow Campus" que será construída próxima a sua sede em Menlo Park, na Califórnia

    Projeto da vila do Facebook "Willow Campus" que será construída próxima a sua sede em Menlo Park, na Califórnia

Na semana passada, o Facebook anunciou planos de construir uma "aldeia" ao lado de seu quartel-general em Menlo Park, na Califórnia, que incluiria cerca de 1.500 residências, supermercado, farmácia, lojas, escritórios e praças públicas.

Um objetivo é fornecer um local atraente para alguns empregados do Facebook viverem e consumirem perto de seu campus extenso, mas um tanto isolado.

O conceito é uma reminiscência da cidade-empresa do final do século 19, quando os grandes empregadores construíam comunidades fechadas para seus trabalhadores. Assim como muitas utopias, algumas dessas cidades rapidamente se tornaram distopias.

Mas a proposta do Facebook, que a está chamando de Willow Campus, difere de maneiras importantes das cidades-empresas do passado. E poderia ser um modelo para outras grandes companhias tecnológicas do Vale do Silício, onde a habitação se tornou tão cara que até jovens engenheiros de software têm dificuldades para pagar as contas, sem falar nos trabalhadores braçais e dos serviços.

Uma diferença do modelo tradicional de cidade-empresa é que a aldeia do Facebook seria aberta ao público. Além de abrigar seus funcionários, o Facebook disse em um vídeo promocional que o loteamento pretendia criar "caminhos e conexões" entre sua sede corporativa e os bairros residenciais circundantes de East Menlo Park e East Palo Alto, que são relativamente pobres pelos padrões do Vale do Silício.

O supermercado seria especialmente bem-vindo em uma área que foi descrita como um "deserto alimentar".

Infelizmente, a proposta pede que apenas 15% das moradias sejam oferecidas a preços abaixo do mercado, o que não é uma proporção especialmente generosa.

Seria bom ver Menlo Park pressionar por mais casas por preços abaixo do mercado no processo de aprovação, embora a história diga que é mais provável que pressione por uma densidade menor. (As cidades da Península são famosas por objetar a novas moradias, ostensivamente alegando que vão piorar o tráfego ou lotar as escolas locais. Em alguns casos, são desculpas mal veladas de um desejo de manter o "povão" fora.)

Outros aspectos da proposta são mais promissores por abordar alguns problemas que o boom tecnológico e os regulamentos locais na Península de San Francisco conspiraram para criar.

Um componente intrigante é o aparente interesse do Facebook por reanimar o Corredor Ferroviário Dumbarton, uma rota de trânsito há muito negligenciada que ofereceria uma ligação muito necessária entre a região de East Bay e a Península.

Uma verdadeira ligação ferroviária seria muito cara e provavelmente não é cogitada, mas o Facebook já gastou pelo menos US$ 1 milhão para estudar alternativas de trânsito no corredor, incluindo novas rotas de ônibus.

Quase qualquer coisa ajudaria: a sede do Facebook no litoral da baía é muito distante de qualquer centro de transporte para que o transporte de massa fosse conveniente para a maioria de seus empregados.

O problema não é exclusivo do Facebook. A Península em geral tem um excesso de empregos, sobretudo na indústria tecnológica, e uma escassez de moradias e infraestrutura de transporte.

Os resultados incluem aluguéis exorbitantes, trânsito complicado e enormes quantidades de poluição aérea e emissões de carbono de todos os trabalhadores que dirigem longos trajetos de suas casas em subúrbios mais acessíveis.

O modelo de cidade-empresa talvez fosse um pouco menos atraente em outras cidades americanas, onde os preços da habitação são menos exorbitantes.

Mas as tendências gerais no sentido de um estilo de vida mais urbano com menor propriedade de carros pareceriam apresentar uma oportunidade para os grandes empregadores fora dos grandes centros urbanos desenvolverem minibairros interessantes e caminháveis, que poderiam funcionar como atração para seus funcionários e catalisadores de novos empreendimentos nas áreas vizinhas.

No contexto do Vale do Silício, 1.500 casas e um modesto shopping center perto do campus do Facebook representariam pouco mais que uma gota no balde. Mas se o projeto tiver sucesso poderia ajudar a convencer o Facebook e outras grandes empresas tecnológicas a abrir a torneira e propor empreendimentos de uso mais misto, de trânsito acessível, em linhas semelhantes.

O Google já está construindo algumas centenas de unidades de moradias temporárias no estilo cidade-dormitório para atender a alguns funcionários, e no passado propôs projetos muito mais ambiciosos.

A Salesforce e a Apple são outras empresas instaladas na Península que poderiam seguir essa pista, embora suas culturas corporativas possam ser menos inclinadas ao conceito de aldeia.

Projetos como esse seriam especialmente bem-vindos se a aldeia do Facebook realmente conseguir servir e incluir moradores de bairros vizinhos como Belle Haven, que há muito foram cortados do tipo de facilidades que tornam o resto de Menlo Park e da vizinha Palo Alto lugares tão desejáveis para se viver.

Os duros contrastes entre East e West Menlo Park e Palo Alto --que se refletem, talvez em menor grau, em outros subúrbios na Península, incluindo Mountain View, do Google-- são emblemas das desigualdades sociais que a indústria tecnológica ajudou a ampliar.

Se o Facebook realmente se importa em tornar o mundo mais aberto e conectado --quer dizer, dar às pessoas o poder de construir uma comunidade e unir o mundo--, poderia começar ajudando a dessegregar seu próprio quintal corporativo.

Não é certeza que esse empreendimento se realizará em algum momento próximo. Os subúrbios do Vale do Silício ficaram conhecidos por recusar grandes projetos de moradias e comerciais no passado, inclusive de outras grandes empresas tecnológicas.

Esperemos que o intervencionismo em Menlo Park assuma a forma de garantir que o projeto do Facebook realize seu altos objetivos, em vez de diluir a densidade e o modesto compromisso de preços acessíveis para acalmar as elites locais. 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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